A volta ao mundo pode não ser o suficiente para algumas almas viajantes. Veja o caso de Guilherme Canever. O engenheiro florestal fazia uma viagem ao redor do planeta em 2009 quando conheceu a Somalilândia, um país que não está nos atlas ou nos almanaques. A partir daí, teve o estalo: quantos outros países e regiões vivem sob a mesma condição? Autonomia política, moeda própria, exército nacional, visto específico para a entrada, mas sem o reconhecimento da comunidade internacional. Nascia ali a ideia de um projeto que o acompanhou nos anos seguintes e virou um livro lançado em agosto de 2016.

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“Uma Viagem Pelos Países Que Não Existem” (editora Pulp, 192 páginas) traz uma pauta surpreendente em vários aspectos. O principal é apresentar dez regiões não reconhecidas como países pelas Nações Unidas. São regiões autônomas, territórios disputados por mais de uma nação e repúblicas que têm um futuro duvidoso sobre uma possível anexação a outro país. Portanto, não “existem” oficialmente, dependendo do referencial que você consulta.

Entre essas regiões, além da Somalilândia, estão nomes familiares como Taiwan, Kosovo e Palestina, que, por exemplo, tiveram delegações nos Jogos Olímpicos do Rio 2016. Mas há também outros menos conhecidos como Transnístria, Abecásia e Ossétia do Sul. Outra grande surpresa é que vários desses “não-países” possuem belezas naturais, patrimônio arquitetônico e sítios arqueológicos que poderiam ser grandes atrações turísticas, mas acabam sendo tesouros escondidos da rota comum de viajantes.

O palácio presidencial da República da Transístria. Foto: Guilherme Canever

O palácio presidencial da República da Transístria. Foto: Guilherme Canever

Entrada de um jardim botânico na Abecásia. Foto: Guilherme Canever

Entrada de um jardim botânico na Abecásia. Foto: Guilherme Canever

Trocar dinheiro na Somalilândia não parece ser algo assim muito formal. Foto: Guilherme Canever

Trocar dinheiro na Somalilândia não parece ser algo assim muito formal. Foto: Guilherme Canever

As viagens relatadas no livro foram realizadas em várias etapas entre 2009 e 2014. Guilherme fez uma imersão não só nas paisagens desses países, como também em aspectos culturais, sociais, políticos e diplomáticos. “Muitos países são completamente diferentes entre si. Todos eles conseguiram independência através de guerras. Então na maioria deles ainda existe uma forte presença militar”, conta Guilherme. “Os que são reconhecidos por poucos países sofrem com a falta de ajuda externa e investimentos. É um jogo geopolítico, e a aliança com algum país pode significar a sanção de outro”, completa.

Ministério das Relações Exteriores da República de Nagorno Karabakh. Foto: Guilherme Kanever

Ministério das Relações Exteriores da República de Nagorno Karabakh. Foto: Guilherme Kanever

Bases militares são comuns no Saara Ocidental. Foto: Guilherme Canever

Bases militares são comuns no Saara Ocidental. Foto: Guilherme Canever

Essas alianças diplomáticas fazem a diferença na hora de cruzar a fronteira. Em regiões amplamente reconhecidas por Estados membros da ONU, como Kosovo e Palestina, brasileiros não precisam de visto de entrada. Mas há casos bem diferentes, como o da Abecásia, uma república que pertence à Geórgia e é reconhecida como independente por apenas 7 Estados (sendo 3 não membros da ONU). Para entrar na Abecásia, é necessário solicitar uma autorização por e-mail.

Em meio a tantas andanças, deu pra ver de tudo. Na Transnístria, por exemplo, Guilherme conheceu uma espécie de pedaço da União Soviética que sobreviveu: estátua de Lênin em praça pública, o símbolo da foice e martelo por todas as partes e memoriais de guerra. Na Somalilândia, pinturas rupestres com mais de 5 mil anos descobertas apenas em 2003. E no Chipre do Norte, vários sítios arqueológicos, monastérios e outros belos exemplares arquitetônicos.

Pinturas rupestres na Somalilândia. Foto: Guilherme Canever

Pinturas rupestres na Somalilândia. Foto: Guilherme Canever

Monastério no Chipre do Norte. Foto: Guilherme Canever

Monastério no Chipre do Norte. Foto: Guilherme Canever

Além das lembranças que podem ser registradas em fotos, Guilherme levou outras mais abstratas, porém não menos memoráveis. “Eu sempre tive um sentimento de libertação dos povos. Lembro da minha revolta com os chineses quando visitei o Tibete em 2005, por exemplo. Continuo sendo um grande defensor das culturas, mas virei um crítico ferrenho das fronteiras. Não adianta elas mudarem de lugar ou serem criadas. Nunca uma região será homogênea, e nem deveria ser”, explica.

Os dez países (ou “não-países”) que inspiraram o livro

Transístria (pertencia à Moldávia, ex-república soviética)

Kosovo (região historicamente disputada por sérvios e albaneses)

Abecásia (ex-território da Geórgia que busca reconhecimento)

Chipre do Norte (região disputada por turcos e gregos e reconhecida como independente apenas pela Turquia)

Nagorno-Karabakh (região historicamente disputada por Armênia e Azerbaijão)

Somalilândia (região da Somália que teve colonização inglesa e onde não há guerra civil)

Palestina (eterna questão do Oriente Médio, que motiva guerras entre árabes e judeus)

Saara Ocidental (teve colonização espanhola, mas foi invadido pelo Marrocos)

Ossétia do Sul (outra região que fica dentro do território da Geórgia)

Taiwan (reconhecido como independente da China por apenas 21 Estados membros da ONU)

Além deles, “Viagem Pelos Países Que Não Existem” fala sobre regiões autônomas que já foram ou buscam ser independentes, como o Tibete, a Caxemira e o Curdistão.

O livro faz contextualizações históricas sobre os “não-países”, explica como é a relação diplomática do Brasil com cada um deles e traz dicas para quem quiser conhecer os atrativos turísticos desses lugares cercados de conflitos e que vivem sem esse reconhecimento oficial.

Dicas de uma volta ao mundo que podem servir para você

Antes de decidir desbravar lugares que sequer são reconhecidos como países pela comunidade internacional, Guilherme Canever já era um viajante inveterado. No blog dele, o Saí Por Aí, tem um mapa em que estão marcados todos os países que visitou. E, sério, se fosse o tabuleiro de um jogo de War, o cara já teria dominado a maioria absoluta dos territórios. Sendo assim, ele tem várias dicas que podem servir para você planejar uma viagem longa ao redor do planeta ou até mesmo para as suas férias mais “normais”.

Essa é a mochila do Guilherme. O cara rodou por aí, hein?

Essa é a mochila do Guilherme. O cara rodou por aí, hein?

Bagagem não pode ser muita

“Eu viajo leve, minha mochila dificilmente pesa mais do que 7 quilos. Poucas roupas, equipamento fotográfico, um pequeno kit de primeiros socorros. Levo uma lanterna também. Dependendo da região, um lençol de baixo para garantir uma noite bem dormida caso o hotel seja meio sujinho. Mas o que você realmente precisa para viajar é teu passaporte e dinheiro. O resto são detalhes”.

O mínimo de gentileza na comunicação já ajuda muito

“Levar um bom tradutor ou dicionário é essencial. É preciso ter no mínimo as principais palavras na língua do país que vai visitar. ‘Por favor’, ‘obrigado’ e ‘com licença’ abrem muitas portas. Já viajei para muitos lugares onde não falava o idioma local. Mas é interessante que, com o tempo, você pode ter longas conversas através de mímicas e tentativas. Claro que fica em um nível mais superficial, mas não deixa de ser divertido. Quando duas pessoas estão dispostas a se comunicar, a conversa sai”.

Fotografias às vezes podem te colocar em roubadas

“Todo mundo sabe que não se deve tirar fotos perto das fronteiras. Eu arrisquei e fui interrogado. Foi uma situação que consegui contornar, mas sabia do risco. Já tive problemas em tirar fotos no centro da cidade também. Regiões mais sensíveis são assim. Na Transnístria levei só uma máquina pequena e a GoPro. Hoje me arrependo, pois perdi fotos incríveis com melhor resolução. Se você vai para uma região que teve conflito há não muito tempo, precisa saber o que está fazendo”.

Cada viagem é um aprendizado para a próxima

“A cautela, o planejamento, a comunicação e até o reconhecimento dos teus instintos são muito testados nos locais mais difíceis de se viajar. Isso transforma outras viagens bem mais simples. Problemas que antes pareciam grandes se tornam irrisórios”.

Outras aventuras

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