Viajar sozinho era uma prática tão comum para mim que quase virou um traço de personalidade. Alguns amigos me chamavam de corajoso e de “lobo solitário”. Outros diziam que eu era egoísta e que apenas não havia encontrado a companhia ideal. Pois bem, a companhia eu realmente encontrei agora, como contei no post de lançamento do site. Mas não vou negar: andar por aí all by myself foi uma prática tão libertadora e construtiva que recomendo até hoje.

Comecei a viajar sozinho aos 19 anos, inicialmente pelo Brasil mesmo. Pautava meus roteiros pelas cidades onde tinha amigos feitos pela internet – blogs, fóruns e listas de discussão, por exemplo. Assim, conheci um bocado de capitais brasileiras. Aos 24, tive a experiência divisora de águas: ir sem companhia ao exterior, a lugares onde não tinha nenhum conhecido. Que dirá amigo. Não vou dizer que esta primeira viagem internacional foi perfeita, mas foi apenas o primeiro capítulo de um aprendizado constante.

Em 2007 não era fácil tirar selfies sem celulares com câmeras frontais...

Em 2007 não era fácil tirar selfies sem celulares com câmeras frontais…

De lá para cá, já passei perrengues, já tive momentos de absurda solidão e já fiquei doente. Mas não me arrependo de ter feito nenhuma dessas viagens. Tanto que sempre tento convencer amigos que morrem de medo de fazer aventuras desse tipo. É uma experiência que traz lições que você agrega não apenas às suas viagens, mas à vida inteira.

Posto isso, decidi escrever este artigo para fazer um panorama sobre viajar sozinho. Assim, quero ajudar você que está na dúvida sobre encarar uma viagem solo. Não sabe se este é o momento? Não tem certeza se você está pronto? Então se ligue nas dicas para se planejar ou mudar de ideia.

1. É fundamental estar bem consigo mesmo para viajar sozinho

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Uma das frases prontas mais comuns em se tratando de viajar é: “as viagens curam”. Ou então alguma variante como “não pague terapia, pague uma viagem” ou “quem quer esquecer um pé na bunda deve viajar por aí”.

A real é que nenhuma dessas frases é totalmente verdade.

Nesse caso, as viagens se parecem um pouco com um porre. Se você estiver triste, um porre pode potencializar esta tristeza. A viagem também. Veja bem: pode. Não é uma certeza. Mas o risco existe e é bom saber dele desde o primeiro momento em que a ideia de viajar sozinho passar pela sua cabeça.

Tente fazer um exercício de autoconhecimento e antecipação de situações para poder saber se você está pronto. Você é capaz de passar um dia inteiro sem conversar com ninguém? Você saberia manter a calma sozinho numa situação de emergência? Além disso, é preciso entender quais são as suas expectativas. Se você espera curar um coração partido com a esperança de encontrar um novo amor aleatoriamente num passeio, pode voltar para casa tão frustrado quanto estava quanto viajou.

 

2. Hospede-se num albergue

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Já se foi o tempo em que albergues eram apenas hospedagens baratas sem nenhum conforto. Não que os pulgueiros com quartos coletivos tenham deixado de existir. Mas é que, nos grandes destinos turísticos, muitos hostels são construídos em belas casas, bem conservadas, com reformas e decorações assinadas por arquitetos. E a maioria deles tem quartos privativos. É como se, nesses casos, os conceitos do bed and breakfast e do hotel boutique se encontrassem. Mas com os dormitórios coletivos sempre ali, para ajudar na economia dos viajantes.

Os albergues são os melhores amigos dos viajantes solitários. Tanto para os que se aventuram pela primeira vez quanto para os mais experientes. Pelo perfil de acomodação, os hostels sempre aglutinam gente mais disposta a conhecer gente. Então certamente você vai encontrar pessoas que estão na mesma condição que você, dispostos a compartilhar um táxi, um passeio, uma cerveja ou apenas algumas horas de prosa.

Outra vantagem dos albergues é que eles costumam promover esse intercâmbio entre os hóspedes, seja organizando festas, noites temáticas, eventos, passeios ou excursões. Alguns hostels são tão festeiros que você nem precisa sair deles para cair na night. Então, para se entrosar, não é preciso grande esforço. Basta apenas estar disposto. Ou estar pronto para estar disposto.

Vamos às desvantagens

O quarto coletivo é a principal delas. É muito alto o risco de você ter um companheiro de dormitório com um relógio biológico bem diferente do seu: que dorme durante todo o dia e chega bêbado e barulhento à noite, por exemplo. Fora do Brasil também é muito comum o quarto misto, ou seja, com homens e mulheres. E isso pode ser desconfortável em algum momento, especialmente para elas.

Compartilhar o banheiro com estranhos também não é uma experiência que você vai querer ter para o resto da sua vida de viajante. Mas lembre-se: são os ônus do bônus que é economizar na hospedagem e ainda poder conhecer gente.

Segurança não será um problema se você tomar certos cuidados. Cadeados para malas e mochilas sempre. Antes de reservar, verifique se o albergue tem armários nos quartos também. Deixe para contar dinheiro quando estiver sozinho no dormitório. E não durma com objetos de valor à mostra. Mas também não exagere na paranoia. Lembre-se que todo mundo ali está tão preocupado com a própria segurança quanto você.

Em último caso, pague um pouco mais caro pelo quarto privativo e aproveite a parte boa do albergue: as festas, farras e resenhas no lobby.

 

3. Grudar no celular não é necessariamente ruim

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Suponhamos que você está a viajar sozinho e tem uma sociabilidade restrita, digamos assim. Está feliz com os amigos da sua cidade natal e não está muito a fim de arrumar novos. Para você, compartilhar aquele momento bacana da viagem só faz sentido se for para os seus bróders. Sendo assim, o Whatsapp será um companheiro tão habitual quando é nos dias normais, fora das férias.

Repita depois de mim: está tudo bem.

A internet móvel faz com que seus amigos estejam tão acessíveis a você numa viagem de férias quanto num dia qualquer. E, por mais que haja sempre alguém dizendo que celular é prisão, tire por menos. Mande fotos para quem você quiser. Conte algum causo do dia para o grupo de Whatsapp. Envie um áudio com uma música legal que você está ouvindo num bar.

Mas o mais importante é: não neure. Afinal de contas, o celular é muito útil para qualquer viajante. Localização no Google Maps. Dicas de atrações no Foursquare e Trip Advisor. Uber para pedir carona. Etc, etc, etc. Na minha primeira viagem solo, não havia internet móvel. Eu parava pelo menos duas vezes por dia num cyber café. E nem conseguia postar as fotos no finado Orkut. Isso sim era baixo astral…

 

4. Leve pouca bagagem

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Viajar sozinho significa que você não terá companhia nem ajuda nas horas difíceis. Ou seja, não tem quem divida o peso da mala (ou o custo de um táxi) com você. Portanto, mantenha sua bagagem leve. Vai facilitar sua vida em vários momentos: desde lhe poupar de despachar malas até permitir que você saia dos aeroportos em transporte público.

Uma dica para diminuir a quantidade de roupa: consulte seu anfitrião (seja albergue, hotel ou o que quer que seja) sobre a disponibilidade de lavanderias próximas. Se houver alguma que cobrar por quilo, é vantagem lavar roupa no meio da viagem. Alguns apartamentos anunciados no Airbnb possuem lavadoras e área para secar roupas. Caso esta seja sua opção de hospedagem, se ligue nisso.

Mas acho que o mais importante de levar pouca bagagem é o exercício de analisar o que realmente é essencial, não só na viagem, como também na vida. Se você consegue passar um mês de viagem alternando duas calças jeans, por que precisa de muito mais do que isso no armário?

 

5. Planeje muito bem o seu kit de sobrevivência

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Esse aí é um tema muito pessoal. Tem quem ache necessário levar uma toalha para cima e para baixo (eu sempre conto com as dos locais de hospedagem). A Luna (que entrevistei para este post) deu a dica da canga, que pode servir para várias situações. E já ouvi até dizer que limão é um bom item para se levar e tomar puro ou com água: é antibacteriano, antiviral e reestabelece o PH do corpo.

Eu, particularmente, acho indispensável levar alguns remédios. Um para dor de cabeça, um para cólicas e outro para reestabelecer a flora intestinal são os de primeira necessidade. O resto vai depender da sua condição de saúde (antialérgicos, medicamentos de uso contínuo, etc).

 

6. Seja dono do seu tempo

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Esta é a vantagem máster de se viajar sozinho. Quanto mais gente viaja com você, mais difícil é conciliar interesses, relógios biológicos e durações de atividades cotidianas. Quem nunca ficou impaciente ao ter uma companhia de viagem que demorava demais no banho? Pois bem, numa viagem solo, a única pessoa que pode atropelar o seu tempo é você mesmo.

Quer dormir até mais tarde para descansar das longas andanças do dia? Tudo bem. Quer dormir mais cedo para chegar àquela atração na hora da abertura dos portões? Ótimo. Não precisa negociar com ninguém nem ceder demais. Aproveite também para curtir os passeios do seu jeito. Demore mais tempo no museu sem remorso, caso você curta apreciar a arte sem pressa.

 

7. Viajar sozinho é libertar-se das selfies e viver a  contemplação

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Uma pergunta sempre feita por quem nunca experimentou viajar sozinho é: “quem vai tirar as suas fotos?”. Agora que os principais telefones celulares têm câmeras frontais, a necessidade de uma segunda pessoa para fotografar você por aí caiu bastante. Mas você pode aproveitar o momento da viagem solo para quebrar as regras. Por que precisamos de uma foto nossa em determinado lugar do passeio? Esta foto não poderia ser tirada em qualquer outro lugar do mundo?

Se essas duas perguntas lhe instigaram, temos muito o que conversar. A facilidade da fotografia hoje em dia tirou das pessoas uma grande parte da virtude de contemplar. Em vez da admiração, estamos priorizando o registro. E nem sempre aquelas fotos que tiramos em poucos segundos serão impressas ou sequer revistas. Aí bate aquele arrependimento depois: será que não aproveitei mal o tempo?

Viajar sozinho te força a depender dos outros para ter aquelas fotos tradicionais. Se você não tiver cara de pau o suficiente, vai acabar cansando de pedir. Uma vez cansado de pedir, você pode colocar a contemplação de volta à prioridade. Esqueça a câmera por alguns minutos. Dê uma olhada geral, fixe num detalhe, observe algum movimento. Tire fotos sim. Mas tire aquelas que registrem o seu olhar, que vão te remeter àquele momento em particular.

Que fique bem claro: não há nada de errado em tirar selfies ou pedir para que tirem uma foto sua. Mas sempre há o risco de que o seu fotógrafo particular da hora não consiga reproduzir a forma como você concebeu o registro daquele instante. Não tem ninguém no mundo que possa reconstruí-lo a não ser você.