Por mais que David Bowie tenha nascido no bairro de Brixton e ter sido conhecido no começo da carreira como o “London Boy”, o legado dele não teria o mesmo tamanho se não fosse Berlim. Foi na capital alemã, ainda dividida pelo famigerado Muro, que Bowie se refugiou dos próprios demônios, fugiu da fama e do abuso de drogas, mergulhou em novas subculturas e concebeu três de seus mais importantes discos.

Mesmo antes da morte de Bowie, em janeiro de 2016, fãs que visitam Berlim já faziam peregrinações por locais icônicos na biografia do cantor. O prédio onde morou, o estúdio que funcionou como epicentro criativo e locais citados em letras de músicas são alguns dos pontos de parada desses passeios-tributo. É uma forma de imergir numa relação rara entre uma cidade e um artista. Bowie renasceu em Berlim e Berlim adotou David Bowie como cidadão e principal voz de uma transição histórica: a reunificação entre Ocidente e Oriente.

Como fã de Bowie que sou, não poderia deixar de fazer o mesmo na minha primeira ida a Berlim, em junho de 2015. Na época, ninguém imaginava que o ídolo de várias gerações estivesse lutando contra o câncer. Pensávamos que era uma reclusão compreensível para alguém que havia passado por uma cirurgia cardíaca em 2004 e parecia simplesmente querer viver longe dos holofotes.

Não costumo aderir facilmente a passeios guiados. Mas, para este caso, encontrei um que fiz e recomendo muitíssimo. Existe uma empresa chamada Berlin Music Tours que promove, entre outras excursões, a Bowie Berlin Walk Tour. É um passeio a pé com duração de três horas pelos locais mais marcantes da vida de Bowie na cidade. Os guias Thilo e Phillip são extremamente bem informados e tão fãs de Bowie quanto os clientes que os procuram. É claro que você pode ir a alguns desses locais por conta própria. Mas só com os guias você pode entrar em alguns deles (como o Hansa Studios, por exemplo) e ouvir as deliciosas anedotas do Bowie berlinense.

Eis as principais paradas para mergulhar na Berlim vivida por David Bowie:

Potsdamer Platz

Uma das entradas da estação de trem da Potsdamer Platz

Uma das entradas da estação de trem da Potsdamer Platz

 Hoje é um dos pontos mais movimentados do centro de Berlim. Nos anos 70, quando David Bowie morou na cidade, era cortada pelo Muro que dividia os lados ocidental e oriental da capital alemã. Muro que foi citado em sua canção “berlinense” mais famosa: “Heroes”. “I can remember / standing by the Wall / the guns shot above our heads / and we kissed as though nothing could fall”. Volto a “Heroes” mais adiante…

Na Potsdamer Platz, ainda há pedaços do Muro de Berlim para lembrar de tempos bem diferentes da cidade

Na Potsdamer Platz, ainda há pedaços do Muro de Berlim para lembrar de tempos bem diferentes da cidade

Já na fase pós-Muro de Berlim, a Potsdamer Platz foi citada em “Where Are We Now?”, faixa que marcou a quebra de um silêncio de dez anos sem nenhum trabalho inédito de Bowie em 2013. “Had to get the train / from Potsdamer Platz / you never knew that / that I could do that”. Segundo o guia Phillip, ouvir o nome de um lugar de Berlim logo no segundo verso desta canção teve uma emoção especial para os berlinenses.

Como chegar:

Os trens U-Bahn e S-Bahn têm estações na Potsdamer Platz, de onde se pode fazer combinação para várias outras regiões da cidade.

Hansa Studios

No meio das placas de outros estabelecimentos que funcionam no mesmo prédio, a do Hansa se destaca

No meio das placas de outros estabelecimentos no mesmo prédio, a do Hansa se destaca

Descendo na Potsdamer Platz, uma caminhada de apenas 450 metros leva ao lendário Hansa, o estúdio onde Bowie trabalhou nos anos em que viveu em Berlim. Do lado de fora, não dá para reconhecer. Na fachada, está escrito “Meistersaal”, que é um tradicional salão de concertos e eventos encravado entre os distritos de Mitte e Kreuzberg. Mas o Hansa ainda funciona ali.

Robert Fripp, Brian Eno e David Bowie trabalhando no Hansa Studios na década de 70

Robert Fripp, Brian Eno e David Bowie trabalhando no Hansa Studios na década de 70

Nesse estúdio, Bowie gravou dois dos discos da chamada Trilogia de Berlim: “Low” e “Heroes”, ambos lançados em 1977. O álbum que fecha a trilogia, “Lodger”, apesar de ter sido concebido em Berlim e durante a turnê mundial de 1978, foi gravado na Suíça e nos Estados Unidos.

Dois locais dentro do estúdio chamam muito a atenção. A tal Meistersaal (cuja tradução em português é “sala mestra”), que tinha uma acústica que Bowie amava. Os guias inclusive nos instigam a fazer o teste: cantar ou gritar na sala para termos noção da clareza da ressonância da voz. Além disso, há uns detalhes lindíssimos, como um luxuoso lustre no teto.

Perdão pela foto tremida que tirei na Meistersaal. Deve ter sido a emoção

Perdão pela foto tremida que tirei na Meistersaal. Deve ter sido a emoção

A patota da foto anterior na Meistersaal

A patota da foto anterior na Meistersaal

O nascimento de “Heroes”

O outro local que particularmente me deixou emocionado foi uma sala menor onde ficava o console de gravação. Já sem equipamento nenhum, a sala hoje funciona como uma pequena cafeteria. Foi lá que nasceu “Heroes”, dizem os guias. Num momento de bloqueio criativo, Bowie pediu a toda a equipe que fosse embora do estúdio e o deixasse sozinho. Da janela desta sala, Bowie viu um casal namorando junto ao Muro de Berlim. Era o produtor Tony Visconti e uma das backing vocals que cantava nas gravações, Antonia Maass. Eles eram o casal que “se beijava como se nada pudesse derrubá-los”, como diz a letra.

Foi desta janela que Bowie viu a cena que inspirou uma estrofe de "Heroes"

Foi desta janela que Bowie viu a cena que inspirou uma estrofe de “Heroes”

A lista de artistas que também gravaram no Hansa é interminável: Iggy Pop, Nick Cave, Brian Eno, U2, Depeche Mode, Manic Street Preachers, Killing Joke, Marillion… Alguma das suas bandas favoritas certamente passou por aqui.

Essa clássica foto de divulgação do Depeche Mode foi feita numa escadaria no Hansa

Essa clássica foto de divulgação do Depeche Mode foi feita numa escadaria no Hansa

Como chegar

Köthener Str. 38, 10963. Pegar o trem S-Bahn ou U-Bahn até a Potsdamer Platz e caminhar por 450 metros.

Schöneberg

Uma linda fachada residencial saúda quem chega ao distrito de Schöneberg

Uma linda fachada residencial saúda quem chega ao distrito de Schöneberg

Desde os anos 1920, o distrito de Schöneberg é conhecido por ser um dos redutos gay-friendly de Berlim. Inclusive é lá que fica um memorial às vítimas homossexuais do holocausto. Nos anos 70, a efervescência de bares e clubes LGBT fez com que Bowie escolhesse este bairro para viver. O endereço é bastante conhecido pelos berlinenses: Hauptstraße 155. Os atuais moradores do prédio certamente devem estar habituados aos curiosos que sempre param lá para tirar fotos e deixar alguma homenagem ao antigo condômino ilustre. E o apartamento onde Bowie viveu é hoje o consultório de um dentista.

A porta do prédio onde Bowie morou, em Schöneberg

A porta do prédio onde Bowie morou, em Schöneberg

Algum fã ~vandalizou~ e os atuais moradores não se incomodaram

Algum fã ~vandalizou~ e os atuais moradores não se incomodaram

A poucos metros do edifício, está o bar Neues Ufer. Mas na época do exílio alemão de David Bowie, o lugar se chamava Anderes Ufer. Foi o primeiro bar gay com janelas visíveis da rua na Berlim pós-Guerra. Foi muito representativo para a revolução da liberdade sexual na cidade. Bowie e Iggy Pop (que também viveu em Berlim na mesma época) eram assíduos frequentadores. O bar é o ponto final do passeio guiado. Hoje, há várias fotos de Bowie em pôsteres nas paredes.

Como era antes...

Como era antes…

... e como é hoje

… e como é hoje

Forçando a amizade no Neues Ufer

Forçando a amizade no Neues Ufer

Em Schöneberg também fica a KaDeWe, a maior loja de departamentos da Europa continental. São 60 mil metros quadrados. Ela também é citada na música “Where Are We Now?”: “a man lost in time in KaDeWe / just walking the dead”. A KaDeWe foi quase destruída por bombardeios na Segunda Guerra. Reconstruída nos anos 1950, ela foi um dos ícones do renascimento econômico alemão.

Ó o tamanho da KaDeWe...

Ó o tamanho da KaDeWe…

Como chegar

Hauptstraße 155 (prédio onde David Bowie morava) e 157 (Neues Ufer). Pegue o trem U-Bahn até a estação Kleistpark. Os dois locais ficam a 100 metros de lá. O endereço da KaDeWe é Tauentzienstraße 21-24. O melhor jeito de chegar também é o metrô U-Bahn. A estação Wittenbergplatz fica quase em frente à loja.

 

Reichstag

A fachada do Reichstag, o parlamento alemão

A fachada do Reichstag, o parlamento alemão

A área externa do prédio onde funciona o parlamento alemão recebeu um dos shows mais importantes da carreira de David Bowie, em 6 de junho de 1987. Era a época da Glass Spider Tour, uma das mais grandiosas da década, e também do acirramento do sentimento da reunificação de Berlim e da Alemanha.

O Muro de Berlim passava a poucas centenas de metros do Reichstag. E, obviamente, os cidadãos do lado oriental não poderiam passar livremente para o lado ocidental, onde o show acontecia. Milhares de pessoas se aglomeraram junto ao Muro. A princípio, para ouvir o que fosse possível do concerto e celebrar a música. Acabou se tornando um protesto contra a separação da cidade e foi duramente reprimido pela polícia.

A multidão que acompanhava a apresentação (inclusive o próprio Bowie) podia ouvir que havia algo de errado acontecendo do lado oriental do Muro. Tiros, explosões, gritos. Antes de cantar “Heroes”, Bowie fez uma dedicatória. “Essa próxima canção é dedicada a vocês do outro lado do Muro”. Talvez tenha sido um dos momentos mais emocionantes de toda a trajetória de Bowie nos palcos. E há quem diga que o Muro começou a ser derrubado ali. Afinal de contas, o verso “and the shame was on the other side” nunca tinha feito tanto sentido.

A visita interna ao Reichstag, independente da história relacionada a Bowie, também é um dos programas imperdíveis em Berlim. Não apenas pela arquitetura (e sua bela cúpula), mas também pela história e pelas preciosas informações sobre o funcionamento do parlamento alemão. Qualquer diferença entre o Reichstag e o Congresso Brasileiro não é mera coincidência.

A cúpula do Reichstag vista de dentro. Vale demais a visita

A cúpula do Reichstag vista de dentro. Vale demais a visita

Como chegar

Pelo trem U-Bahn, a estação mais próxima é a Bundestag. Pelo S-Bahn, é a Brandenburger Tor (aí você aproveita e conhece o Portão de Brandenburgo, que fica bem pertinho). As visitas guiadas ao Reichstag são gratuitas e feitas em alemão em inglês. Mas é preciso reservar pelo site, com data e hora marcada. O link é este aqui.

 

Berlin Music Tours

Thilo em uma foto de divulgação da Berlin Musictours

Thilo em uma foto de divulgação da Berlin Musictours

É a empresa à qual me referi no começo do post. Fazer o passeio com Phillip e Thilo como guias foi uma experiência riquíssima. Além da Bowie Berlin Walk Tour, eles promovem outras excursões temáticas de outros artistas que têm relação com a capital alemã, como U2 e Depeche Mode. O passeio de Bowie custou 14 euros (em junho de 2015). Eles também vendem merchandising do Hansa Studios, como camisetas, bolsas e canecas. É preciso reservar antecipadamente pelo site.