Mochileza

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Roteiros e viagens de mochila sem sufoco

Tag: viagens temáticas

Seis festivais de verão para curtir na Bélgica

Assim como gastronomia e cinema, o Mochileza é um site entusiasta de música. Sempre procuramos referências musicais em nossas viagens (como o roteiro de David Bowie em Berlim) ou shows…

Assim como gastronomia e cinema, o Mochileza é um site entusiasta de música. Sempre procuramos referências musicais em nossas viagens (como o roteiro de David Bowie em Berlim) ou shows para assistir no caminho. E quem gosta de música sabe que o verão europeu é fértil em grandes eventos. São festivais de leste a oeste no continente, para todos os estilos e orçamentos.

Os frequentadores assíduos de festivais têm destinos tradicionais, como Inglaterra e Alemanha. Também há os destinos que viraram os novos queridinhos dos viajantes, como Espanha e Portugal. Mas tem um país que consegue reunir eventos em grande quantidade e também em variedade de atrações: a Bélgica.

Apesar do território minúsculo, a concentração de festivais na Bélgica é gigantesca. Se você já pensou em passar um verão por lá comendo chocolate e tomando cerveja, pode pensar em agregar um festival de música ao seu roteiro. E, para ajudar você no planejamento, recorremos a um grande amigo do Mochileza. O Edvan Coutinho é um jornalista com quem trabalhei em Belém e mora em Bruges, na Bélgica, desde 2007. É um dos caras mais bem informados que conheço e dono de uma vasta cultura musical. Ele preparou um guest post com uma curadoria dos principais festivais do verão belga. Espero que vocês curtam!

Ah, o Edvan também trabalha como guia oficial de turismo em Bruges. É o único guia brasileiro na cidade. Para uma experiência mais rica de informação, recomendo DEMAIS um city tour com ele! Se você se interessar, escreva com alguma antecedência para o Edvan: [email protected]

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Edvan Coutinho e as típicas batatas belgas. Foto: Arquivo Pessoal

 

A onda de frio neste inverno – talvez a mais severa dos últimos dez anos – faz os europeus sonharem com os sons não apenas dos pássaros em dias quentes. Mas também das guitarras, teclados e soundsystems nas centenas de festivais de verão em todo o continente. Sim, a Europa é o melhor destino se você adora um show, seja ele um megaevento ou uma performance mais intimista. E quando se fala em festival de verão, a Bélgica é a meca dos amantes de todos os estilos musicais.

A localização estratégica deste pequeno país (menor que o arquipélago do Marajó), entre o Reino Unido, a França, a Alemanha e a Holanda, facilita o deslocamento de bandas e artistas em turnê pelo continente. Entre os mais de 300 festivais que acontecem anualmente em solo belga, escolhemos seis, que podem ser chamados o crème de la crème. Eles abarcam desde a world music até os beats eletrônicos mais modernos. Um deles, o Moods Festival, é parcialmente gratuito. São festivais em Bruxelas, Wechter, Boom, Hasselt e Bruges – tudo para combinar música e viagem.

Couleur Café: o mundo no palco

Foto: Vanessa Rasschaert / Divulgação

 

Este festival é o coup de coeur (favorito do coração) para os que estão abertos aos sons do mundo. A world music ganha aqui um sentido literal.  No line-up deste ano tem a incrível dupla malinesa Amadou & Mariam, os brasileiros do Metà Metà, com a mistura afro-jazz-bossa-swing brasileiro, as irmãs cubanas Ibeyi, o veterano norte-americano George Clinton (papa do funk legítimo), ao lado das senhoras do Clypso Rose, de Trinidad e Tobago, e do vizinho caribenho delas, Ziggy Marley (precisa descrever o que ele toca?). Ainda há novidades como os rappers suíços Makala, Di-Meh e Slimka, além do funky vodu dos togoleses do Togo All Star.

O Couleur Café existe desde 1990 e já rodou por várias locações em Bruxelas. Porém, há uns dois anos, conseguiu acertar na escolha do cenário. Ele é realizado na área do Atomium, um dos símbolos da capital belga e da Europa, a escultura gigante em formato de um átomo. A vantagem desse festival é que você está dentro da cidade e há transporte público a todo momento para voltar para o seu hotel ou albergue.

O Atomium é o cenário do Couleur Café. Foto: Luc Cheffert / Divulgação

 

Para quem não quer perder um minuto do clima de festival, ou quiser tirar uma soneca entre uma e outra atração, há um acampamento bem estruturado, como em todos grandes festivais.

Couleur Café Festival

Quando: de 29 de junho a 1° de julho de 2018
Onde: na praça do Atomium, em Bruxelas
Preços: desde 85 euros para os 3 dias ou entre 37 e 42 euros para um dia apenas (ver condições e taxas extras no website do festival)
Mais informações: https://www.couleurcafe.be (em inglês, francês e neerlandês/flamengo)

 

Rock Werchter: grandes nomes, mas também indie

Foto: Divulgação

 

Este festival está sempre na lista dos melhores do mundo. Ele faz parceria com os festivais ingleses, como o Glastonbury, e holandeses, como Lowlands. E assim o line-up é mais do que estrelado, porém bem diversificado também. Eles sempre apostam em promessas, como fizeram com o London Grammar, o trio inglês que desde que passou por lá há uns cinco anos.

Este ano vão pisar nos palcos do Rock Werchter: Arctic Monkeys, Franz Ferdinand, Gorillaz, Snow Patrol, Jack White, Alice in Chains, Nick Cave & The Bad Seeds, Queens of Stone Ages, David Byrne, Pearl Jam, e o já citado London Grammar, só para nomear alguns. O festival sempre prestigia a prata da casa e assim os belgas sempre estão em destaque. Este ano vão estar, entre as atrações locais, o grupo Arsenal – que tem um queda por música brasileira –  e power trio Triggerfinger (já ouviram a versão deles para “I Follow Rivers”?).

O preço do ingresso pode parecer salgado, mas o line-up justifica, além do que o transporte público de qualquer cidade na Bélgica até a porta do festival está incluído no preço.

Rock Werchter

Quando: de  6 a 8 de julho de 2018
Onde: Werchter (a 30 km de Bruxelas e a 15 km de Leuven, outra grande cidade belgo-flamenga)
Preços: desde 102 euros, para um dia,  até 238 euros para os três dias (ver condições e taxas extras no website do festival)
Mais informações: www.rockwerchter.be (em inglês, francês e neerlandês/flamengo)

 

Cactus Festival: familiar e hype

Foto: Edvan Coutinho

 

O mais charmoso festival belga. O mais familiar dos festivais. O melhor pequeno festival da Europa. O Cactus tem muitos títulos e todos eles se justificam. A começar por ser o festival da cidade que é uma marca de beleza: Bruges, que atrai 6 milhões de turistas por ano, com seus canais que valem o apelido de Veneza do Norte e o traçado medieval das ruas que valeu o título de Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco.

O Cactus Festival acontece há mais de 35 anos praticamente no centro da cidade. O público é limitado em menos de 10 mil pessoas num espaço amplo e verde do parque Minnewater, com infraestrutura e conforto nota 10. O festival tem um clima tão relaxante que atrai famílias inteiras, dos avôs aos netos. Tem espaço para deixar as crianças brincarem, há até redes para descansar e os stands de comida são uma atração à parte pela alta qualidade.

Foto: Edvan Coutinho

 

No que se refere ao palco único, as atrações são sempre de altíssimo nível e fora do mainstream. O que não quer dizer falta de qualidade.  Nos anos 90, passaram por lá Marisa Monte e Chico Science & Nação Zumbi. Mais recentemente, tocaram Massive Attack, Macy Gray, Benjamin Clementine, Kaiser Chiefs, Marianne Faithfull e Patti Smith. Este ano estão em cartaz Buffalo Tom, com seu indie rock made in USA, a britânica Emeli Sandé, a camaleônica anglo-francesa Charlotte Gainsbourg e os cultuados escoceses do Mogwai. O festival de Bruges é conhecido por lançar tendências. Assim, muitos artistas novos acabam voltando à Bélgica em festivais maiores depois de serem “descobertos” no Cactus.

Cactus Festival

Quando: de  13 a 15 de julho de 2018
Onde: Bruges (a 90 km de Bruxelas)
Preços: desde 49 euros, para um dia,  até 110 euros para os três dias (ver condições e taxas extras no website do festival)
Mais informações:  www.cactusfestival.be (em inglês, francês e neerlandês/flamengo)

 

Tomorrowland: o povo do amanhã

Foto: Divulgação

 

Com toda a justiça, o Tomorrowland é o mais prestigiado festival de música eletrônica do mundo.  O evento virou uma marca de valor incalculável e chegou ao Brasil em duas edições em 2015 e 2016, depois de ter também feito uma edição nos Estados Unidos. Se você pensa em vir, prepare-se para vir somente em 2019, pois os ingressos deste ano, assim como sempre acontece, foram vendidos em menos de três horas.

O Tomorrowland, desde 2005, botou a Bélgica no centro do mundo da música dançante do século XXI e é um evento que chega a ser uma experiência mística – dizem amigos habitués do festival. Para os conhecedores dos loops e beats, as atrações deste ano são de peso: Tiësto, Vini Vici, Axwel, Bonzai All Stars, Carl Cox, Alesso, Dimitri Vega & Like Mike, Fatboy Slim, Lost Frequences e Steve Angello.

Foto: Divulgação

 

O acampamento do Tomorrowland é uma atração à parte. O festival tem até mesmo uma vila de luxuosos apartamentos com jacuzzi e todo o luxo que seu bolso puder pagar.

Ano passado, o festival teve cerca de 400 mil espectadores, um número recorde porque passou a ser realizado em dois finais de semana, o que se repete este ano.

Detalhe: se não puder esperar o verão de 2019, o Tomorrowland anunciou um festival de inverno em março de 2019, na cidade de Ales-Huez, na França.

Tomorrowland

Quando: de 20 a 22 e de 27 a 29 de julho de 2018
Onde: Boom (entre Bruxelas e Antuérpia)
Preços: desde 94 euros um dia apenas até 281 euros para ficar no alojamento de luxo (o website do festival informa que todos estão sold out)
Mais informações: (em inglês, francês e neerlandês/flamengo)

 

Pukkelpop: oito palcos com mega-atrações

Foto: Divulgação

 

Um dos grandes festivais da Europa faz 33 anos em 2018. O Pukkelpop sabe combinar grandes nomes com artistas ainda em ascensão, pois tem espaços adequados para megaespetáculos, tendas para pocket shows e dance hall. De Björk ao Iron Maiden, de The Prodigy ao Portishead, a lista de artistas das edições anteriores não deixa dúvidas do peso desse festival, o único que conseguiu comprar toda a área onde anualmente se instala na província flamenga do Limburg.

Foto: Divulgação

 

Este ano, a única atração anunciada e confirmada é ninguém menos que Kendrick Lamar, o papa do rap/hip hop/jazz norte-americano contemporâneo. Fala-se que o Arcade Fire e The War on Drugs estão acertando a agenda para poderem vir.

Pukkelpop

Quando: de 15 a 18 de agosto de 2018
Onde:  Kiewit-Hasselt (a 70 km de Bruxelas)
Preços: ainda não anunciados (ver condições e taxas extras no website do festival)
Mais informações:  https://www.pukkelpop.be  (em inglês, francês e neerlandês/flamengo)

 

Moods Festival: o festival intimista de Bruges que cabe no seu orçamento de mochileiro

 

Foto: Divulgação

 

Este festival é no meio do verão e se passa em dois dos mais impressionantes cenários da cidade de Bruges: a praça da prefeitura (de Burg) e o hall interior do Belfort. O Moods é um festival organizado pela prefeitura da cidade e opta pela diversidade de atrações em dois momentos. O primeiro é numa quinta-feira à noite, um show intimista, com ingresso pago a menos de 20 euros, no pátio interno do Halletoren (a torre do Belfort, momunento gótico construído entre os séculos XII e XV).  E às sextas e sábados à noite, um show maior, gratuito, tendo como fundo de palco a Stadshuis, a prefeitura construída no começo do século XV.

O Moods tem uma atmosfera pequena e tão agradável que, mesmo em caso de chuva, o público não arreda pé. Em cartaz este ano, o nome mais conhecido é o Nouvelle Vague, a banda francesa de new bossa. E ainda: a mistura cubano-jamaicana do show Havana Meets Kingston,  a banda norte-americana Joan As Police Woman (com a cantora Joan Wasser que trabalhou com Rufus Wainwright, Nick Cave e Antony & The Johnsons), a banda pop-rock flamenga Het Zesde Metaal e o acordeonista bósnio-suíço Mario Batkovic, um virtuoso que é uma espécie de Philip Glass do acordeon.

Moods festival

Quando: de 27 de julho a 9 de agosto de 2018
Onde:  Bruges, centro da cidade
Preços:  16 euros + taxas (ver condições) para os shows no pátio do Belfort e gratuito nos show da paraça da prefeitura, o Burg
Mais informações:  http://www.moodsbrugge.be  (em inglês e neerlandês/flamengo)

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Círio de Nazaré: um guia para quem vai acompanhar pela primeira vez

Para quem nasce em Belém do Pará, é impossível desenvolver uma relação de indiferença com o Círio de Nazaré. A cidade é tão invadida por Nossa Senhora em outubro quanto…

Para quem nasce em Belém do Pará, é impossível desenvolver uma relação de indiferença com o Círio de Nazaré. A cidade é tão invadida por Nossa Senhora em outubro quanto por Papai Noel em dezembro. A publicidade local ganha peças especiais para a época. Os parentes que moram longe desembarcam quase todos na mesma semana. Quem é de rezar tem uma quinzena inteira para dedicar à devoção. Quem não é de rezar tem uma grande dose de confraternização, comida e algumas festas. Ou então se limita a reclamar do trânsito, que realmente fica insuportável.

É o maior evento de Belém, que leva mais de um milhão de pessoas às ruas da cidade, entre moradores e visitantes. E no meio dessa multidão, tem gente de vários perfis. De turistas que gastam uma nota para ver o Círio da varanda de um hotel cinco estrelas até peregrinos de cidades vizinhas que vêm a pé. Tem gente que vem de longe para expressar sua fé. E tem gente que vai contemplar a fé alheia. Os promesseiros do Círio de Nazaré atraem tantos olhares e suspiros quando a própria padroeira dos paraenses.

Minha relação com o Círio de Nazaré começou como a de quase qualquer belenense. Quando eu era muito pequeno, meus pais não costumavam me levar para a procissão por causa do sufoco e da aglomeração. Quando eu tinha 10, 11 anos, comecei a acompanha-los. Aos 19, já na faculdade de jornalismo, o Círio virou sinônimo de trabalho para mim. E muito! Jornalista que folga no Círio é tão raro quanto a neve em Belém.

Trabalhar no Círio de Nazaré distanciou um pouco a minha visão do lado espiritual da coisa. Mas ajudou a compreender questões mais práticas e objetivas do evento. Talvez tenha mesclado a minha vivência de nativo com um olhar de visitante. E acho que é uma mistura interessante para falar do Círio num blog de viagens.

Decidi escrever este post não com o objetivo de ser a principal fonte de informações históricas sobre o Círio. E sim pensando no viajante que pretende acompanhar a festividade pela primeira vez. Sei que chegar a Belém na segunda semana de outubro sem referência nenhuma deve deixar os romeiros estreantes meio baratinados. Espero que este artigo possa ajudar a facilitar a vida (e o planejamento da viagem) dessas pessoas!

 

Um pouco de história

Círio de Nazaré, Basílica Santuário

A Basílica Santuário de Nazaré. Foto: Sidney Oliveira – Agência Pará

A devoção a Nossa Senhora de Nazaré no Pará tem origem numa lenda do início do século 18. Um pescador chamado Plácido encontrou uma imagem da santa às margens de um igarapé, palavra amazônica para riacho. Ele levou a imagem para casa. Mas, no dia seguinte, ela sumiu e reapareceu no mesmo local onde havia sido encontrada. A história se repetiu outras duas vezes até Plácido entender a mensagem: a santa queria permanecer naquele lugar.

O igarapé Murutucu, onde a imagem foi encontrada, acabou recebendo uma pequena capela para sediar a adoração a Nossa Senhora. A primeira procissão foi realizada em 1793. De lá para cá, o número de fiéis se multiplicou exponencialmente. A romaria se transformou em uma das maiores do mundo e a capelinha à beira do riacho virou a hoje imponente Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré.

Para conhecer um pouco mais sobre a história do Círio de Nazaré, acesse o site oficial do evento.

Quando acontece o Círio de Nazaré?

Círio de Nazaré, promesseira

Sempre há promesseiros que fazem o percurso do Círio de joelhos. Foto: Sidney Oliveira – Agência Pará

Os primeiros Círios foram realizados em dezembro. Mas, desde 1901, a procissão ganhou a data fixa que tem até hoje: o segundo domingo de outubro. Essa não foi a única mudança em mais de 200 anos de história. Nas primeiras edições, a romaria saía à tarde. Hoje, a saída é às 6 da manhã. As alterações provavelmente foram para fugir do clima chuvoso de Belém, já que dezembro é um mês mais úmido e as chuvas são tradicionalmente vespertinas.

Há muito tempo o Círio de Nazaré não é apenas a procissão do domingo. Ao longo do século 20, foram criadas várias outras romarias para engordar a programação. A santinha viaja por terra e água para alcançar mais fiéis e percorre 140 quilômetros em doze procissões somadas. No total, entre eventos e romarias, a festa da padroeira dos paraenses dura vinte dias.

Para facilitar o seu planejamento, vamos organizar os eventos pelas datas em que são realizados. Usamos o calendário de 2017 como base, mas o post será editado nos anos seguintes com as datas atualizadas.

Antes do fim de semana do Círio

Círio de Nazaré, abertura oficial

Abertura do Círio de Nazaré. Foto: Mácio Ferreira (Agência Pará)

Na terça-feira que antecede a grande procissão, é realizada a abertura oficial do Círio. Em 2017, ela cai no dia 3 de outubro. É uma missa solene na Basílica Santuário, com a presença da diretoria da festa, da arquidiocese de Belém e de autoridades da cidade. Começa às 18h.

Mas o primeiro evento cercado de expectativa dos fiéis acontece na quinta-feira (em 2017, 5 de outubro): a missa de apresentação do manto, também na Basílica Santuário. A cada ano, o manto que cobre a imagem de Nossa Senhora em todas as romarias é diferente. A confecção é mantida sob sigilo absoluto pela diretoria da festa até o dia do evento, que começa às 18h. Não são eventos para pautar a data da sua chegada. Só se você já estiver na cidade e for muito devoto.

Apresentação do manto de Nossa Senhora. Foto: Divulgação / Fundação Nazaré

 

Sexta-feira, 06/10/2017

Círio de Nazaré, Traslado

As ruas movimentadas no dia do Traslado. Foto: Sidney Oliveira – Agência Pará

Traslado

A antevéspera do Círio de Nazaré é o dia da primeira das doze romarias, o Traslado. Ela sai às 7 da manhã e é a mais longa de todas. O percurso tem 52 quilômetros e vai da Basílica Santuário, em Belém, até a Igreja de Matriz de Ananindeua, município vizinho à capital paraense. A imagem de Nossa Senhora é colocada sobre um carro da Polícia Rodoviária Federal. O roteiro passa por vários bairros de Belém, Ananindeua e Marituba (outra cidade da região metropolitana). No caminho, o comboio faz algumas paradas para homenagens em frente a prédios de órgãos públicos e hospitais.

 

Auto do Círio

À noite, o centro histórico de Belém é ocupado por um dos eventos mais tradicionais da programação extraoficial da festividade. O Auto do Círio é um cortejo organizado há mais de duas décadas pela UFPA, por meio da Escola de Teatro e Dança. Pelas ruas da Cidade Velha, artistas profissionais e amadores encenam um espetáculo que celebra a cultura e a história de Belém e do Círio.

Círio de Nazaré, Auto do Círio

Auto do Círio. Foto: Cristino Martins – Agência Pará

 

Festival Lambateria

Você pode aproveitar a ida à Cidade Velha para curtir uma noite de música paraense no Festival Lambateria. A Lambateria é uma festa (da qual já falamos no post sobre dicas de Belém) em que toca guitarrada, carimbó, tecnobrega e outros ritmos tradicionais e modernos da Amazônia. A escalação do festival está imperdível e tem como principais atrações Dona Onete, Pinduca, Combo Cordeiro e Félix Robatto. Outras informações você pode encontrar na página do evento no Facebook.

 

 

O que vale a pena?

O Traslado não vale a pena. Como a romaria é conduzida por um carro e há várias interdições no trânsito no caminho, é praticamente impossível seguir o comboio. Mas, se você quer colocar esta romaria no currículo, o melhor é ver a saída nos arredores da Basílica ou escolher um ponto de passagem. Minha sugestão: o Hospital Ophir Loyola, na avenida Magalhães Barata. Não é longe do centro de Belém e é uma parada tradicional da procissão.

Já o Auto do Círio vale demais. Tanto pela manifestação artística quanto para conhecer o bairro mais antigo de Belém. O Auto do Círio geralmente tem “estações” em frente a alguns dos lugares mais bonitos da Cidade Velha, como a Catedral e a Igreja de Santo Alexandre.

Sábado, 07/10/2017

Círio de Nazaré, Romaria Rodoviária

Fiéis à espera da Romaria Rodoviária. Foto: Sidney Oliveira – Agência Pará

O dia mais importante da programação do Círio de Nazaré é o domingo. Mas o mais movimentado é o sábado. São quatro romarias, começando nas primeiras horas da manhã e terminando já no início da madrugada de domingo.

Romaria Rodoviária

O dia começa com a Romaria Rodoviária, que sai às 5h30 da Igreja Matriz de Ananindeua, onde a imagem de Nossa Senhora pernoitou na véspera. Esta romaria é realizada desde 1989 no sábado anterior e foi criada para atender a um pedido do Sindicato das Empresas de Transporte de Carga. São 24 quilômetros de percurso pelas rodovias BR-316 e Augusto Montenegro até o trapiche de Icoaraci, onde começa o segundo evento do dia.

Romaria Fluvial

A Romaria Rodoviária termina onde a Romaria Fluvial começa. Depois de uma missa no trapiche, a imagem embarca numa corveta da Marinha. A saída costuma ser por volta de 9 da manhã. É um dos eventos mais bonitos de toda a festividade. A padroeira é seguida por embarcações de diversos tamanhos e padrões, desde lanchas turísticas até barcos simples de madeira. A romaria tem um percurso de 10 milhas náuticas (o equivalente a 18,5 quilômetros) e costuma durar 2h30. A chegada é na escadinha do Cais do Porto, no centro de Belém.

Círio de Nazaré, Romaria Fluvial

Romaria Fluvial. Foto: Carlos Sodré – Agência Pará

Moto Romaria

No final da Romaria Fluvial, a festa se divide em duas. A imagem de Nossa Senhora segue para a terceira procissão do dia: a Moto Romaria. Milhares de motociclistas acompanham a santa num trajeto de 2,5 quilômetros até o Colégio Gentil Bittencourt, na avenida Magalhães Barata. Geralmente, esta romaria dura em torno de uma hora.

Moto Romaria. Foto: Sidney Oliveira – Agência Pará

Arrastão do Círio

Quem não está de moto pode participar de outra programação que começa bem perto, em frente à Praça dos Estivadores: o Arrastão do Círio. É um evento organizado pelo Instituto Arraial do Pavulagem, um dos principais difusores da cultura popular no Pará. É um cortejo embalado por tambores, danças e cantos em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré.

Círio de Nazaré, Arrastão do Pavulagem

Arrastão do Círio. Foto: Dah Passos – Instituto Arraial do Pavulagem

Trasladação

No final da tarde, começa a segunda procissão mais importante da programação do Círio de Nazaré: a Trasladação. Ela tem um trajeto quase igual à da grande romaria do domingo, mas no sentido contrário. Sai do Colégio Gentil Bittencourt em direção à Catedral Metropolitana. Como é uma caminhada noturna, geralmente é embelezada pelas velas que muitos fiéis levam. A iluminação da berlinda que leva a santa também é um dos pontos altos. O percurso tem 3,7 quilômetros, mas a duração é menos previsível. Costuma terminar por volta da meia-noite.

Círio de Nazaré, Trasladação

Trasladação. Foto: Thiago Gomes – Agência Pará

Festa da Chiquita

Pensa que acabou? A noite do sábado para o domingo tem um evento que costuma fazer os católicos mais tradicionalistas torcerem o nariz. A Festa da Chiquita é um evento organizado pela comunidade LGBT de Belém e é realizada no Bar do Parque, em frente ao Theatro da Paz. Assim que a Trasladação passa em frente ao bar, a festa começa e costuma entrar pela madrugada. Nos últimos anos, a Festa da Chiquita sempre foi uma incógnita até a última hora. Sem o apoio da diretoria do Círio e das últimas gestões da prefeitura, ela foi marginalizada. Até o fechamento deste texto, não havia uma confirmação sobre a realização em 2017.

A Festa da Chiquita foi tema de um documentário lançado há alguns anos. O nome do filme é “As Filhas da Chiquita” e está disponível na íntegra no Vimeo. Aqui, um trechinho para você ter uma noção do que rola no Bar do Parque depois que a santa passa.

O que vale a pena num dia tão movimentado?

Eu recomendo fortemente a Romaria Fluvial. Ela é muito simbólica dentro da programação, dado o significado dos rios para a região amazônica. Algumas agências de turismo preparam embarcações para acompanhar a romaria. O barco da Valeverde Turismo é um dos mais tradicionais. Oferece bebidas quentes e água, tem venda de lanche a bordo, música ao vivo e show folclórico.

Se o passeio de barco não tiver tirado toda a sua energia, passe algumas horas no Arrastão do Pavulagem. É uma lindíssima manifestação artística, além de ser um ponto de encontro de gente descolada.

A Trasladação também vale muito a pena. Se você quiser acompanhar caminhando, chegue ao Colégio Gentil Bittencourt pelo menos uma hora antes da procissão. Veja a saída da santa e siga andando na frente da romaria até onde seu fôlego permitir. Se quiser ver tudo sentadinho, o melhor custo/benefício é comprar um ingresso para as arquibancadas montadas na avenida Presidente Vargas. Para a Trasladação, o preço é R$ 35. A venda é pela internet.

A Festa da Chiquita é divertida, mas tem uma aglomeração que permite pequenos furtos. Se você for conservador a ponto de se incomodar com a celebração da diversidade num evento católico, melhor não ir. Mas se você estiver no espírito, não perca. Só tenha as mesmas preocupações que você teria num evento de carnaval de rua. Ah, e não perca a hora para o dia seguinte!

 

Domingo, 08/10/2017

Círio de Nazaré, berlinda

Foto: Thiago Gomes – Agência Pará

É o grande dia da festividade. O Círio de Nazaré propriamente dito. A movimentação começa ainda de madrugada, antes mesmo do sol nascer. Os promesseiros que querem acompanhar a procissão na corda (vamos falar dela mais adiante) passam a madrugada no Boulevard Castilhos França. Mas o início do dia para valer é às 5h, com a missa na Catedral Metropolitana. A missa termina e o Círio começa. A berlinda que leva a imagem da padroeira sai da Praça Frei Caetano Brandão, em frente à Catedral, e começa um percurso de 3,6 quilômetros.

Em frente à Praça do Pescador, no Boulevard Castilhos França, acontece um dos momentos mais emocionantes do Círio de Nazaré. É quando a corda, um dos símbolos mais especiais da festa, é atrelada à berlinda. A corda tem 800 metros de comprimento, dividido em dois pedaços de 400. Cada centímetro é disputado à exaustão pelos promesseiros, que se espremem para pedir ou agradecer alguma realização atribuída à fé na padroeira.

Círio de Nazaré, corda

No meio dos promesseiros da corda, nem se vê a corda. Foto: Alessandra Serrão – Agência Pará

Na frente da corda e da berlinda, vão outros elementos importantes na simbologia do Círio de Nazaré. Treze carros de promessas começam o percurso um pouco mais adiante, na avenida Presidente Vargas. Alguns deles recebem os ex-votos, que são objetos representando os pedidos ou as graças alcançadas. Os mais comuns: velas, partes do corpo esculpidas em cera (para pedidos relacionados a saúde), tijolos e miniaturas de barcos e casas. Outros carros levam crianças vestidas de anjos, geralmente pagando promessas feitas pelos pais.

Foto: Thiago Gomes – Agência Pará

Tem gente que acompanha o Círio caminhando. Tem gente que fica à espera da passagem da procissão em algum ponto do percurso. Edifícios, hotéis, arquibancadas são locais em que se tem conforto e segurança. Quem prefere não pagar (ou não pode), fica na rua mesmo. Não é a melhor escolha para quem tem mais idade ou alguma dificuldade de locomoção.

Quanto tempo dura?

A duração da romaria é uma controvérsia entre os fiéis. Já houve um Círio de Nazaré que durou dez horas. Foi o de 2004, que chegou ao ponto final (a Praça Santuário) às 16h. E já houve outros que chegaram antes do meio-dia. Tem quem prefira que o Círio seja mais rápido, para que as famílias possam aproveitar o tradicional almoço e o restante do domingo. Tem quem ache que uma procissão mais longa é um sacrifício que vale a pena, para não se ver a santinha passando “a jato” diante dos olhos.

Dicas para acompanhar

Círio de Nazaré

A Praça do Relógio, em frente à chamada “pedra do peixe” no Ver-o-Peso. Foto: Mácio Ferreira – Agência Pará

O esquema que aprendi com meus pais para acompanhar o Círio a pé é o seguinte. Chegar por volta de 5h30 da manhã à Praça do Relógio, que fica nos primeiros metros do percurso. De lá, ver a passagem da berlinda e então cortar caminho por dentro do bairro do Comércio. Assim, chega-se à avenida Presidente Vargas bem à frente da procissão, sem muito sufoco. Meus pais costumam fazer o atalho pela rua João Alfredo ou Treze de Maio. Mas qualquer rua da região estará muito movimentada no domingo do Círio.

Corda

Se você quiser encarar a corda, vá com a preparação de uma corrida de longa distância. O aperto é grande e o calor, insuportável. Chegue cedo, no máximo às 3 da manhã, ao Boulevard Castilhos França. Vá de chinelos, sabendo que vai precisar descartá-los. É proibido acompanhar a corda calçado. Deixe em casa também acessórios que possam machucar, como anéis, relógios e brincos. Alguns promesseiros da corda levam acompanhantes para dar alguma assistência em caso de necessidade. Muita gente desmaia no percurso. Mas há uma grande quantidade de voluntários da Cruz Vermelha trabalhando no atendimento médico ao longo da procissão.

Segurança

É uma festa religiosa, mas os descuidistas não tiram folga. Portanto, cuidado com objetos de valor. Deixe a carteira em casa. Leve dinheiro trocado e um documento apenas.

Arquibancadas

Para quem preferir comodidade, as arquibancadas oficiais na avenida Presidente Vargas custam R$ 70 e estão à venda neste site.

Hotéis

Se seu orçamento estiver bem mais folgado, hospede-se em um hotel no percurso do Círio de Nazaré. Dois dos mais tradicionais de Belém estão no caminho. O Princesa Louçã (antigo Hilton) na avenida Presidente Vargas e o Grand Mercure (antigo Crowne Plaza) na avenida Nazaré. Eles geralmente fecham pacotes com muita antecedência para o Círio, mesmo cobrando os olhos da cara.

Transporte público

Funciona normalmente e ganha reforço durante o fim de semana do Círio, inclusive de madrugada. Os ônibus que passam perto do percurso geralmente circulam com uma placa “Círio de Nazaré” no vidro dianteiro.

 

Almoço do Círio

Círio de Nazaré, maniçoba

A famosa maniçoba. Foto: Cristino Martins – Agência Pará

Muitos restaurantes fecham no domingo do Círio de Nazaré. É o caso de alguns dos mais tradicionais e conceituados da cidade. O Remanso do Bosque, do badalado chef Thiago Castanho, fecha no domingo, mas abre normalmente para almoço e jantar na segunda-feira. O Lá Em Casa, com mais de 40 anos de tradição, também fecha, assim como todos os outros restaurantes da Estação das Docas. Mas abre no sábado desde cedo, aproveitando a chegada da Romaria Fluvial, inclusive servindo café da manhã.

O Avenida é uma das melhores pedidas. Não só pela tradição, mas pela localização. Ele fica a poucos metros da Praça Santuário. A procissão do Círio passa bem em frente. Para 2017, as reservas abriram em 1º de setembro. E, dependendo do dia em que você ler este post, é possível que não haja mais vagas.

O restaurante do Hotel Mercure (sobre o qual já falamos alguns parágrafos acima) tem um pacote para não-hóspedes. Tem almoço com água, refrigerante e sobremesa inclusos. A programação também tem uma missa no hotel. O valor é um pouco salgado: R$ 350 por pessoa. Mas, se você tiver esse dinheiro sobrando, a comodidade e a localização compensam. As reservas podem ser feitas pelo telefone (91) 3202.2100.

Fora do circuito da procissão, existem boas opções. O Manjar das Garças fica dentro do parque Mangal das Garças. O Spazzio Verdi fica a um quarteirão da Praça Santuário e pode ser uma solução próxima. E o Avuado, que já indicamos no post com as dicas de Belém, também abrirá normalmente. É um bom lugar para comer peixes de rio e frutos do mar.

O prato mais típico nesta celebração é a maniçoba, que, numa tentativa simplória de explicar, é uma espécie de feijoada amazônica. É um cozido de partes menos nobres do porco. Mas, no lugar do feijão, entra a maniva, que é a folha da mandioca brava. Ela precisa passar uma semana fervendo para perder uma toxina natural que possui. Visualmente, o prato não é bonito, mas é muito saboroso.

 

Depois da grande procissão

Foto: Sidney Oliveira – Agência Pará

Quando a romaria do domingo termina, a programação do Círio de Nazaré arrefece um pouco. Todas as manhãs, às 5h30, fiéis celebram o Terço da Alvorada no entorno da Basílica Santuário. Eles se revezam em orações e conduzem uma réplica da imagem da padroeira. À noite, também na área próxima à Basílica, há duas pedidas. O Círio Musical, programação de shows católicos gratuitos na Praça Santuário; e o Arraial de Nazaré, no parque de diversões ao lado da Praça.

Últimas romarias

Mas lembra que eu falei que eram doze romarias? Até agora, falei apenas de seis. No sábado seguinte ao Círio (em 2017, 14 de outubro), são realizadas duas. A primeira é a Cicloromaria, dedicada aos ciclistas. A segunda é a Romaria da Juventude, organizada pelos jovens das paróquias e comunidades da Arquidiocese de Belém.

O dia seguinte (em 2017, 15 de outubro), tem a Romaria das Crianças, com um percurso na medida para que as famílias com filhos pequenos possam celebrar sem sufoco.

No último sábado da festividade (em 2017, 21 de outubro), tem a Romaria dos Corredores. São 7 quilômetros em que a imagem de Nossa Senhora é conduzida numa velocidade para ser acompanhada numa corrida leve.

No domingo seguinte (em 2017, 22 de outubro), tem a Procissão da Festa. É uma romaria dedicada aos membros da diretoria da festa e às comunidades da paróquia de Nazaré. Pra fechar o calendário, tem ainda a missa de encerramento às 19h30 na Basílica Santuário e o Espetáculo Pirotécnico. Este é um momento bastante aguardado e pode ser visto de longe, de vários bairros de Belém. Ele começa às 21h na Praça Santuário.

O que vale a pena acompanhar?

Se sua estadia em Belém para o Círio for mais longa, vale você arrumar uma bicicleta e seguir a Cicloromaria. Ela sai às 8h da Praça Santuário. Tem um percurso de 14 quilômetros por alguns bairros do centro de Belém, até voltar ao local de partida Se você viaja com filhos pequenos, a Romaria das Crianças também é uma boa pedida. A saída e a chegada são na Praça Santuário. O Espetáculo Pirotécnico é bonito, mas a movimentação na Praça Santuário é muito grande. Além disso, é muito comum o relato de pequenos furtos na multidão. Pense duas vezes antes de decidir acompanhar tão de perto.

O que mais fazer em Belém?

Foto: Facebook/Estação das Docas

Estação das Docas. Foto: OS Pará 2000

Além dos passeios clássicos que você já deve ter visto por aí, a gente tem algumas indicações mais “outsiders”. Falamos sobre elas neste post com o guia de Belém que os guias não contam. Mas para não dizer que ignoramos as tradições, sugerimos também a Estação das Docas, sua vista e seus sabores imperdíveis!

O Círio de Nazaré é uma boa época para comprar artesanato em Belém. Duas feiras são tradicionais nesta época. A Feira do Artesanato do Círio, organizada pelo Sebrae na Praça Waldemar Henrique; e a Feira do Miriti, realizada pela cooperativa dos artesãos de Abaetetuba (cidade a 121 quilômetros de Belém), na Praça Dom Pedro II. A primeira é mais completa, com mais tipos e estilos de artesanato. A segunda é focada no miriti, uma palmeira cujo tronco é conhecido como “isopor amazônico”. Abaetetuba é o principal pólo de produção de arte em miriti. São feitas esculturas de todo tipo. Mas o carro-chefe são os brinquedos de miriti, que fazem parte das tradições do Círio.

Mapa do Círio de Nazaré

Aqui você vai encontrar todos os locais citados no texto para que você tenha em conta as distâncias de Belém.

 

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Estádio de Wembley: visita guiada ao templo do futebol inglês

Em uma cidade onde você tromba com estádios por onde anda, é difícil que apenas um se destaque sobre os demais. Sempre vai haver o maior, o mais moderno, o…

Em uma cidade onde você tromba com estádios por onde anda, é difícil que apenas um se destaque sobre os demais. Sempre vai haver o maior, o mais moderno, o mais histórico ou o do time mais popular. Dependendo do que você procura numa visita, um deles pode atendê-lo. Mas, em se tratando de Londres, não é fácil igualar a mística e a relevância do Estádio de Wembley.

O nome Wembley é tão forte no imaginário do futebol quanto Maracanã. O estádio já sediou final de Copa do Mundo, é palco fixo das decisões da Copa da Inglaterra e ainda recebeu eventos de outros esportes. Até jogo de futebol americano já passou por esta famosa grama!

Isso sem falar no fator Wembley na história da música pop. Pense nos grandes nomes do showbiz de diversas épocas. Pense nos seus artistas favoritos, nos discos que você tem na prateleira (caso ainda colecione discos). Muitos deles já fizeram shows em Wembley. De Rolling Stones a Muse. De Queen a Adele. De Elton John a Foo Fighters.

Por esses motivos, escolhi o Wembley como um dos estádios para visitar na minha viagem a Londres em junho de 2015. Falei sobre outro estádio londrino, o Craven Cottage, neste outro post.

Um pouco de história

Wembley Stadium, twin towers

A fachada do velho Wembley, com as duas torres. A foto está nos corredores do novo estádio como recordação.

Se você não acompanha futebol, precisa de um preâmbulo para conhecer alguns fatos sobre Wembley. O estádio que está de pé hoje não é o Wembley original, e sim uma versão remodelada que foi inaugurada em 2007. A primeira encarnação do estádio existiu entre 1923 e 2003 e tinha como principal marca as duas torres na fachada. Logo no jogo inaugural, a final da Copa da Inglaterra entre Bolton e West Ham, recebeu 127 mil pessoas. Durante 27 anos, este foi o maior público do futebol mundial. Acabou superado apenas pela final da Copa de 1950.

Quando foi demolido em 2003, o velho Wembley já tinha passado por remodelagens que diminuíram sua capacidade para 80 mil pessoas. Com a reconstrução, o estádio ficou maior: 90 mil lugares. Além disso, ganhou outro elemento arquitetônico de destaque. No lugar das duas torres, um imenso arco que se destaca de longe.

Wembley Stadium, Twin Towers

Substituição: saem as duas antigas torres…

Wembley Stadium

… e entra o modernoso arco. Foto: Leonardo Aquino

Outro fato interessante: Wembley pertence à Federação Inglesa de Futebol, e não a algum clube. Portanto, é a sede oficial do English Team. Dificilmente você vai ver na programação jogos que não sejam de seleções. A temporada 2017/18 é uma exceção. O Tottenham Hotspurs joga como mandante em Wembley enquanto seu novo estádio não fica pronto.

Começando a visita

Wembley Stadium

É assim que você Wembley assim que sai do metrô. Foto: Leonardo Aquino

Pois bem, vamos à visita em si. Basta sair da estação Wembley Park do metrô para avistar o gigantesco arco e os painéis de led na fachada, que informam sobre a programação de jogos e eventos. Na esplanada do estádio, uma estátua homenageia um dos maiores nomes do futebol inglês:  Bobby Moore, capitão da seleção campeã mundial em 1966.

Bobby Moore, lenda nacional na Inglaterra. Foto: Leonardo Aquino

Os ingressos podem ser comprados antecipadamente no site do estádio ou numa bilheteria dedicada às visitas guiadas. Junto com os ingressos, os visitantes recebem livretos com informações úteis para a visita. Há uma edição em português disponível.

Wembley Stadium, visitors guide

O guia em português para a visita a Wembley. Foto: Leonardo Aquino

Na recepção, as boas vindas ficam por conta de um elemento protagonista da história das Copas do Mundo. O travessão onde bateu a bola do polêmico gol de Geoff Hurst na final de 1966 entre Inglaterra x Alemanha. Depois de bater no poste, a bola quicou à frente da linha. Numa era sem tira-teima ou tecnologia da linha do gol, o árbitro validou o lance, determinante para a vitória inglesa. Qualquer vídeo hoje em dia mostra que o erro foi grotesco. Mas os ingleses, pelo jeito, celebram o travessão como um dos heróis do título.

Wembley Stadium, Crossbar Reception

O histórico travessão de 1966 é o recepcionista da visita a Wembley. Foto: Leonardo Aquino

A visita começa em uma área dedicada à memória dos Jogos Olímpicos disputados em Londres. Antes da edição mais recente, a de 2012, houve outras duas: 1908 e 1948. A segunda edição, inclusive, teve Wembley como palco principal. A principal atração desta área é a bandeira olímpica original dos Jogos de 1948.

Wembley Stadium, London Olympic Flag

Foto: Leonardo Aquino

 

Tribunas e bastidores

Wembley Stadium Tribunes

A vista das tribunas de Wembley. Foto: Leonardo Aquino

O primeiro contato com o campo em si acontece à distância, de uma das tribunas. É o momento em que os visitantes são apresentados a algumas informações e curiosidades sobre Wembley. Uma delas diz respeito à acústica impecável do estádio. Para testá-la, o guia nos desafia a gritar qualquer coisa e ouvir a beleza da reverberação do som. Aí você fica imaginando como deve ser aquele ambiente com 90 mil vozes…

Das tribunas já dá pra ter noção da imponência de Wembley, o segundo maior estádio da Europa em capacidade (menor apenas que o Camp Nou, de Barcelona). Aproveite a posição para tirar uma bela foto panorâmica do estádio.

Panorâmica tirada a partir das tribunas. Foto: Leonardo Aquino

Depois disso, os visitantes começam a mergulhar pra valer nos bastidores de Wembley. A caravana passa pela sala de imprensa, onde técnicos e jogadores dão entrevistas coletivas. Estão liberadas fotos para que você se sinta o Wayne Rooney ou o David Beckham por alguns segundos.

Wembley Stadium, Press Room

Meu time perdeu nesse dia…

Nos corredores internos, as paredes são decoradas com imagens que contam a história de Wembley (o velho e o novo). Fotos dos grandes jogos, títulos comemorados, shows marcantes e personalidades que estiveram no estádio. Cuidado para não passar muito tempo olhando para as molduras e perdendo de vista seus companheiros de passeio.

Vestiários e campo

Wembley Stadium, Dressing Room

Foto: Leonardo Aquino

A parada seguinte é nos vestiários, modernos e confortáveis como os de qualquer arena construída no século 21. Em horários de visita guiada, eles ganham uma arrumação diferente de um dia de jogo. Na minha visita, por exemplo, havia algumas camisas importantes de craques que haviam passado recentemente por lá. Messi e Cristiano Ronaldo eram os destaques. Mas também havia vários uniformes do English Team e do Team GB, a seleção da Grã-Bretanha, formada apenas para a disputa dos Jogos Olímpicos.

Wembley Stadium, Dressing Room

A rara camisa do Team GB no vestiário de Wembley. Foto: Leonardo Aquino

Em seguida, a visita reproduz o caminho dos craques. Dos vestiários para o túnel, do túnel para o campo. Aí é pura emoção, ainda que a área permitida para circulação de visitantes seja bem limitada. Fica difícil não sentir um friozinho na barriga ao imaginar todos os craques e grandes eventos que já passaram por lá. É a hora de entupir a memória da sua câmera ou celular com fotos de todo tipo.

Wembley Stadium, Pitch

Vista panorâmica a partir do gramado. Foto: Leonardo Aquino

Wembley Stadium, Pitch

No pequeno espaço permitido para a gente circular

Wembley Stadium

Curiosidade: uma parte das cadeiras atrás de um dos gols é removível. Facilita a vida em dias de grandes eventos e shows. Foto: Leonardo Aquino

Fim da visita

A brincadeira termina como em qualquer visita guiada que se preze: na lojinha. E na de Wembley, você encontra todo tipo de souvenirs da seleção da Inglaterra. Camisas de jogo atuais e retrô, cachecóis, pelúcias, ímãs de geladeira, bolas e muito mais. Apenas fique ligado que o gasto ali é em libra, amigo.

Na saída da visita, ainda há algumas últimas coisas legais para ver. Como a escultura dos três leões, símbolo da Federação Inglesa e, consequentemente, da seleção do país. Além disso, há outra homenagem aos Jogos Olímpicos. Uma espécie de pequeno memorial, com placas que enumeram os medalhistas de ouro dos Jogos de 1948.

Wembley Stadium, Three Lions

Os Três Leões icônicos do futebol inglês. Foto: Leonardo Aquino

Wembley Stadium, 1948 Olympic Champions

Homenagem aos campeões olímpicos de 1948. Foto: Leonardo Aquino

 

Planeje sua visita a Wembley

Uma ida a Wembley para uma visita guiada não é algo tão simples para fazer sem planejamento nenhum. Existem questões logísticas e financeiras envolvidas. Uma viagem perdida pode custar caro (e não é tão difícil de ocorrer).

Agenda

Antes de tudo, é preciso saber que Wembley não está aberto para visita guiadas todos os dias. Quando há jogos ou eventos, não há visitas. Portanto, o primeiro passo é checar o seu calendário de viagem com a programação de eventos de Wembley. Os dias em que os tours não serão feitos sempre estão em destaque no site do estádio: http://www.wembleystadium.com/Wembley-Tours.aspx

Nos dias sem eventos, as visitas são realizadas de hora em hora a partir das 10h. A última é às 16h.

Transporte

Também tem o fator distância/transporte. Wembley fica distante do centro de Londres, na zona 4 do transporte público. Quem já foi à cidade e andou de metrô provavelmente já se familiarizou com essas zonas numeradas. E esse mesmo turista que não é mais de primeira viagem também deve saber que, num roteiro básico por Londres, anda-se principalmente nas zonas 1 e 2. Nem todos os bilhetes de transporte dão acesso a todas as zonas. E, quanto maior o número da zona por onde você vai andar, mais caro é o bilhete.

Recomendo que você se informe bem sobre o transporte público de Londres antes de ir. O site Londres Para Principiantes tem um guia bem completo sobre tarifas e o uso do Oyster Card, que vale para ônibus, metrô e trens: https://www.londresparaprincipiantes.com/guia-dos-transportes-para-2017/

Se você for de metrô, as estações mais próximas para descer são Wembley Park (linhas Jubilee e Metropolitan) ou Wembley Central (linhas Bakerloo e London Overground). As linhas de ônibus que servem o estádio são as de número 18, 83, 92 e 224.

Utilize o planejador de viagens do site do transporte público de Londres para saber a melhor forma de chegar. O Google Maps também funciona bem para esta finalidade.

Ingresso

Assim como a maior parte das atrações pagas de Londres, Wembley tem um ingresso caro: 20 libras (valor apurado em setembro de 2017). Mas este é o preço de balcão para tarifa cheia. Comprando online, os preços são menores. Para adulto, por exemplo, o ingresso comprado na internet custa 18 libras. Existem descontos para menores de 16 anos, idosos com mais de 65 anos e estudantes. A tabela completa de preços está aqui: http://www.wembleystadium.com/Wembley-Tours.aspx

Mas, para comprar online, é preciso marcar data e hora para a visita. Ou seja, leve em conta você vai ter que programar uma parte de um dia em função de Wembley.

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Dortmund: um passeio pela capital alemã do futebol

Sou fã de futebol e nem minhas viagens me deixam mentir. Aqui no blog, já falei sobre a visita ao estádio mais antigo em atividade em Londres. Também já entrevistei…

Sou fã de futebol e nem minhas viagens me deixam mentir. Aqui no blog, já falei sobre a visita ao estádio mais antigo em atividade em Londres. Também já entrevistei o craque Juninho Pernambucano para falar sobre Lyon. Como se não fosse suficiente, tenho amigos que compartilham essa paixão e também colocam o esporte como balizador eventual dos roteiros de viagem. Um deles aceitou o convite de escrever um post convidado para o Mochileza sobre Dortmund, na Alemanha.

Primeiro vou apresentar o “santo” e depois, o “milagre”. O João Lazera é pernambucano, advogado e torcedor do Sport. Apesar de trabalhar no dia-a-dia com o idioma juridiquês, ele tem uma prosa muito fácil na escrita. Poderia ter o blog dele, seja sobre futebol ou sobre viagens. Apaixonado pela Alemanha, o cara já rodou por uma grande parte do país nas viagens que fez para lá.

Dortmund era o sonho de Disneylândia do João Lazera

E por que Dortmund? Por mais que não esteja na rota turística comum, a cidade com pouco menos de 600 mil habitantes tem alguns atrativos para os fanáticos por futebol. O primeiro é o clube com a maior média de público do planeta. O segundo, um completíssimo e recém-inaugurado museu sobre o futebol alemão.

A partir de agora é com o João. Espero que vocês curtam os relatos dele como eu curti!

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Não falta quem se dobre de paixões pelas mais variadas coisas. A minha é o futebol. Eu reverencio o esporte e o Sport. A atmosfera, a festa, a tensão e a linha tênue entre a agonia e alegria são elementos que tornam o jogo apaixonante. Tanto para quem vai ao estádio quanto para quem divide a TV e umas cervejas com os amigos às quartas, quintas, sábados, domingos ou segundas (com o perdão dos que são habitués da Série B).

O João e a Gabi, esposa dele, no Signal Iduna Park, em Dortmund. Foto: João Lazera

Ir à Alemanha é ter a oportunidade de ver de perto a maior média de público em campeonatos nacionais de futebol no mundo inteiro. São mais de 40 mil torcedores por jogo. Além disso, também é a chance de desmistificar parte desses chavões que o brasileiro curte repetir: “país do futebol”, “povo caloroso”, “jogo bonito” e mais um monte desses que você escuta da boca do Galvão Bueno. Esse era o roteiro da minha viagem de 2017.

A ideia era passar por Essen, Colônia, Düsseldorf, Leverkusen, Hamburgo, Hanover e Munique. Quase todas as cidades citadas têm inúmeros atrativos históricos e culturais. Nelas, o futebol é apenas um bônus. Mas que bônus! Nesses lugares, pode se conhecer clubes que vão desde o cultuado underdog St. Pauli até o supercampeão Bayern.

Mas, se você perseverou até aqui, sabe que isso não é o principal objetivo. A exceção – e a razão de existir desse post, é o orgulho da Vestfália: Dortmund.

A maior cidade do Vale do Ruhr teve sua importância histórica calcada na exploração do aço. A atividade foi determinante tanto no período de Otto von Bismarck, quanto no de Adolf Hitler. Não por acaso, Dortmund sofreu com as intervenções pós-guerra. Ressuscitou com a retomada desenvolvimentista chamada de “Wirtschaftswunder”, milagre econômico supervisionado pelo ministro das finanças Ludwig Erhard nos anos 50. Hoje a cidade vive um período de pós-industrialização, fomentado pela Universidade local e seu imponente parque de tecnologia.

Não vai faltar quem tente te convencer a fazer apenas um bate-volta nessa cidade de vocação industrial e com cara de interior. Afinal, são apenas pouco mais de cem quilômetros de Colônia ou de Düsseldorf, por exemplo. E ninguém normal trocaria uma vista da Catedral de Colônia ou da Rheinuferpromenade, o calçadão à beira do rio.

Borussia, o maior patrimônio de Dortmund

Mas, como não estamos falando de pessoas normais, Dortmund merece mais que isso. Merece um fim de semana de jogo, vestido de amarelo e negro, sendo parte da Muralha Amarela, cantando “You’ll never walk alone” a plenos pulmões, cheio de cerveja Kronen na cabeça. Esse é o espírito da cidade do Borussia Dortmund, o BVB 09 (Bê-fál-bê, para os locais).

Foto: João Lazera

Mas, antes dos “finalmentes”, tem os “entretantos”. Para você que está acostumado a ir a estádio comprando ingresso no dia ou é daqueles que não acompanha muito o futebol internacional, tenho uma novidade para você. Os ingressos para os jogos do Dortmund estão esgotados. Cem por cento dos ingressos são vendidos no início da temporada entre os sócios do clube, na forma de tíquete de temporada (season ticket). Como se não fosse suficiente, há uma fila de espera – também formada por sócios, brutal.

 

Como conseguir ingressos para os jogos do Borussia Dortmund?

Como tudo na vida tem um jeito, existem três maneiras de você consegui-los:

1) O site oficial do clube costuma vender os últimos assentos disponíveis para cada jogo duas ou três semanas antes. Ainda assim, é quase impossível.

2) Pelo site de venda de ingressos Viagogo. O site e o app para celular são em português, oferecem a entrega do ingresso em domicílio e pagamento no cartão de crédito. Ao menos pelas avaliações na internet, o sistema é confiável. O lado ruim é que a cobrança é feita em dólares e o preço é sempre salgado, muito salgado. Outro ponto negativo (esse experimentado por mim) é que caso você venha a comprar perto da data do evento, a chance de eles cancelarem por ser inviável o envio/entrega é grande. Ou seja: programe-se com antecedência.

3) A última opção talvez seja a mais conhecida dos brasileiros e, não por coincidência, a menos segura: cambistas. No entanto, é o meio mais fácil de se atingir o objetivo. Se seu inglês for bom, se você não tiver medo de cara feia e souber barganhar, pode comprar bons lugares pagando menos que no Viagogo. O segredo é chegar umas duas horas antes do jogo e ficar perto da loja oficial do clube (Strobelallee 50, 44139 Dortmund). Vai ser fácil identificar quem está ali para esse fim. Deu certo comigo.

Seja qual for o caminho adotado, dificilmente o tíquete sairá mais barato do que setenta euros.

Signal Iduna Park em seu estado natural: lotado. Foto: João Lazera

O Signal Iduna Park

A experiência no Signal Iduna Park, no entanto, vale cada centavo. O estádio contempla todos os tipos de torcedores, desde os amantes das gerais aos chamados “torcedores cappuccinos”. É moderno, confortável e seguro como as novas arenas padrão FIFA, mas sem ser asséptico como tal.

Apesar da elitização que assola o futebol europeu, a Bundesliga e o Borussia Dortmund conservam um tíquete médio com um preço acessível. Assim, garantem espaço para torcedores menos abastados. É a consciência de que, sem a südtribune, onde fica a Muralha Amarela, estaria extinta a maior riqueza cultural do clube e da cidade. Basta o primeiro acorde de “You’ll never walk alone” para se ter certeza disso. A reverência contida na saudação dos jogadores ao fim do jogo é outro exemplo.

Aliado ao jogo e à atmosfera do estádio, está o bratwurst (linguiça com pão) ou currywurst mit pommes (linguiça fatiada, com molho curry apimentado e batatas) e, para acompanhar, dê uma chance à cerveja Kronen. Vai te deixar pensando melhor, eu garanto.

Foto: João Lazera

Estádio à parte, o Borussia Dortmund não para aí. A loja oficial é incrível e te deixa convencido de que o mote Echte Liebe (amor verdadeiro) não é à toa. A quantidade de produtos é suficiente para te deixar vestido de preto e amarelo durante todo o ano, sem parecer membro de uma seita ou mais um integrante da Turma da Mônica. Qualidade, amigos. Apenas qualidade.

Museu do Futebol Alemão

Foto: João Lazera

Se sobrar fôlego para mais um dia dedicado ao futebol, uma visita ao Deutsches Fussballmuseum, o Museu do Futebol Alemão, é imperdível. Apesar do preço relativamente salgado (cerca de 30 euros), o museu entrega uma imersão na história dos tetracampeões mundiais repleta de interatividade e de relíquias valiosas.

Dois capítulos são especialmente destacados. O primeiro é o Milagre de Berna, como ficou conhecida a vitória em 1954 sobre a seleção da Hungria, o então melhor time do mundo. A imersão tem direito a imagens em tamanho real dos jogadores e a história de cada um deles, bem como as anotações pessoais do técnico Sepp Herberger.

Flâmula da final da Copa de 1954, Alemanha 3×2 Hungria. Foto: João Lazera

O segundo capítulo é a máquina que humilhou o Brasil em 2014, com atuação holográfica dos protagonistas da conquista. Além disso, há vários depoimentos e mais um pouco daquela alegria demonstrada nas praias da Bahia e do Rio de Janeiro.

Essas anotações trazem memórias pra você? Foto: João Lazera

A final da Copa de 2014 contada lance a lance em imagens. Foto: João Lazera

O lado negativo é que boa parte do material e os filmes com os jogadores não tem tradução sequer para o inglês. Isso pode deixá-lo com cara de paisagem em grande parte das piadas se o seu alemão for tão ruim quanto o meu, claro. Nada que deixe o programa menos divertido.

Camisa usada por Franz Beckenbauer, o Kaiser. Foto: João Lazera

Outra jóia do acervo é a parte dedicada ao campeonato alemão no período da separação do país, com matérias de jornal, flâmulas e revistas sobre o tema. O contraste entre as Alemanhas Ocidental e Oriental impressiona, sobretudo o contexto político e social.

A extinta Alemanha Oriental jogava com esta camisa azul. Foto: João Lazera

 

Porque nem só de futebol vive o homem…

Se sobrar tempo, duas indicações. A primeira é o café completo na Bäckermeister GROBE (Baroper Kirchweg 32-34, 44227 Dortmund), para poder aproveitar frios, queijos e a arte alemã de fazer pães e doces maravilhosos. A outra é o jantar no La Gazzeta (An der Palmweide 56, 44227 Dortmund), para comer aquela massa que você respeita. Para acompanhar, um Spätburgunder (como é conhecido o vinho pinot noir) da Renânia. É sem erro.

Dortmund é contagiante pelo espírito, pelas pessoas e pelo modo como abraçou o esporte que amo. Vale demais sua visita.

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Quatro museus para os fãs de cinema na Europa

Quem acompanha o Mochileza sabe que este blog é um grande fã de cinema. Já recomendamos uma lista de filmes para inspirar viagens e sempre procuramos referências cinematográficas nos nossos…

Quem acompanha o Mochileza sabe que este blog é um grande fã de cinema. Já recomendamos uma lista de filmes para inspirar viagens e sempre procuramos referências cinematográficas nos nossos roteiros (como a de “Abraços Partidos”, de Almodóvar, em Lanzarote, na Espanha). Dessa vez, resolvemos fazer uma compilação de destinos para quem quer se aprofundar ainda mais: museus dedicados ao cinema.

A Europa foi berço de vários movimentos cinematográficos em diversas épocas. O expressionismo alemão nos anos 1920. A nouvelle vague francesa nos anos 1960. O Dogma 95 na Dinamarca no fim do século 20. Não à toa, grande parte das coleções representativas para a história do cinema estão no velho continente. E, para a sorte dos amantes da sétima arte, muitos desses acervos estão abertos ao público.

Na viagem que fizemos à Europa em fevereiro de 2017, tivemos a oportunidade de conhecer quatro destes museus. Três na França (um em Paris e dois em Lyon) e um na Itália (em Turim). Cada um tem atrativos e perfis diferentes. Mas quem vibra com um bom filme vai se sentir contemplado por todos. Esperamos que você se inspire com nossas dicas!

Cinémathèque Française (Paris)

Foto: Divulgação

Paris é uma cidade intimamente ligada ao cinema. Foi o berço de cineastas lendários, de movimentos cinematográficos e cenário de filmes ao longo de várias décadas. Não é à toa que uma das coleções mais importantes da sétima arte em todo o mundo esteja na cidade. A Cinemateca Francesa merece uma série de visitas, tanto para apreciar o acervo quanto para acompanhar a movimentada programação.

O carro-chefe da Cinemateca é a biblioteca. São 23.500 trabalhos, 12 mil filmes em DVD, blu-ray e VHS, 23 mil cartazes e 14.500 desenhos. Isso sem falar nas fotografias, artigos de jornais, resenhas e materiais publicitários. Todo o acervo pode ser consultado online (basta acessar a ferramenta Ciné Ressources).

Foto: Divulgação

A coleção do museu não é tão extensa, mas é apaixonante. São 600 objetos expostos, entre peças de figurino, cenografia, esboços e máquinas da pré-história do cinema. Lanternas mágicas e outros avôs do cinematógrafo originais dos anos 1700 dividem espaço com itens mais recentes. Lá estão réplicas do robô do filme “Metrópolis”, de Fritz Lang, e desenhos do mestre russo Sergei Eisenstein. Isso sem falar nas exposições temporárias. Quando visitamos o museu, em fevereiro de 2017, estava em cartaz uma exposição sobre o cinema japonês.

Foto: Leonardo Aquino

Além disso, as salas da Cinemateca sempre recebem mostras temáticas. Retrospectivas de atores e diretores, filmes de um determinado país ou de uma determinada época estão entre as atrações. A programação está sempre disponível online ou em livretos distribuídos gratuitamente na recepção (que servem como ótimos souvenirs).

Para terminar, a Cinemateca ainda tem uma lojinha incrível. São centenas de filmes (alguns bem raros), livros e itens colecionáveis. Apenas tome cuidado para não levar DVDs ou blu-rays que não rodem na região do seu aparelho.

Serviço

A Cinemateca abre a semana inteira, mas é fechada às terças-feiras. Os ingressos custam 3,50 euros (biblioteca), 5 euros (museu) e 6,50 euros (cinema). Para aqueles que vão passar um longo tempo em Paris e pretendem fazer várias visitas, há passes mensais. Informações completas no site: http://www.cinematheque.fr

 

Institute Lumière (Lyon)

Foto: Leonardo Aquino

O cinema como o conhecemos hoje surgiu em Lyon. Foi lá que nasceram os irmãos Auguste e Louis Lumière, inventores do cinematógrafo e responsáveis pela primeira exibição pública de filmes com ingressos pagos, em 1895. A casa onde eles passaram grande parte da vida recebe hoje o Institut Lumière, que fomenta a sétima arte e coloca em exibição objetos que ajudam a contar o início da história do cinema.

O local onde o instituto está situado se chama “Rua do Primeiro Filme”, em homenagem à invenção dos irmãos. A casa, muito bem conservada, tem na sua coleção permanente inúmeros objetos. Protótipos de cinematógrafos, lanternas mágicas e muitas outras máquinas que ajudaram a desenvolver o cinema enquanto arte.

Foto: Leonardo Aquino

O acervo também mostra que os Lumière, além de artistas, tinham um tino comercial. Durante muito tempo, eles patentearam e venderam equipamentos como câmeras e filmes. Além disso, os irmãos treinavam operadores de câmera para viajar pelo mundo e registrar imagens que hoje se tornaram históricas. África, Ásia e América eram alguns dos destinos dos cinegrafistas em épocas que viagens entre continentes só podiam ser feitas de navio.

O Institut Lumière também possui várias salas de cinema em Lyon. Elas exibem mostras temáticas, retrospectivas e filmes fora do circuito comercial. Na sede do instituto, há uma loja onde é possível comprar souvenirs dessas mostras (como cartazes e livros).

Um souvenir obrigatório

Quem quer estudar o cinema mais a fundo pode encontrar lá um item precioso. O filme “Lumière! L’Aventure Commence” reúne pela primeira vez em DVD e blu-ray os primeiros filmes realizados pelos irmãos. Antes do cinema se estabelecer como arte, os Lumière filmavam cenas do cotidiano como a saída de um trem da estação e pessoas andando pelo centro de uma cidade. Os filmes foram restaurados e têm a opção de áudio com comentários.

Além do museu e da loja, o Instituto também tem uma biblioteca com uma coleção de livros, periódicos, trabalhos e filmes.

Fora do Instituto, o Muro dos Cineastas relembra os homenageados pela instituição ao longo dos anos. Foto: Leonardo Aquino

Serviço

O museu do Institut Lumière funciona de terça a domingo, das 10h às 18h30. Os ingressos para adultos custam 7 euros. A biblioteca abre de terça a sexta, das 14h às 18h30 e tem ingressos a 3 euros. Para informações sobre a programação dos cinemas e de outras realizações do Instituto, acesse o site: http://www.institut-lumiere.org

 

Musée des Miniatures et du Cinéma (Lyon)

Foto: Leonardo Aquino

Este museu é uma programação imperdível para quem viaja com crianças. Ele fica num casarão antigo em pleno Vieux Lyon, bairro histórico da cidade que é considerado Patrimônio Mundial pela Unesco. Um dos atrativos é a coleção dedicada aos efeitos especiais do cinema. Outro é o acervo de cenas recriadas em miniatura, muitas delas criadas pelo próprio idealizador do museu, o artista Dan Ohlmann.

A primeira parte da visita começa com a reprodução de um set de filmagem. O casarão que hoje abriga o museu já recebeu a locação do filme “Perfume: A História de um Assassino” (2006). Alguns dos cenários e figurinos originais estão impecavelmente preservados.

Em seguida, o museu mostra uma coleção única na Europa de 400 itens como maquetes, fantasias, máscaras e objetos de cena. Todos eles ilustram a magia dos efeitos especiais. O domo do Capitólio dos Estados Unidos, que explode em “Independence Day”, está lá. Assim como a máscara usada por Robin Williams em “Uma Babá Quase Perfeita”, fantasias de filmes como “X-Men” e “O Quarteto Fantástico” e armas futuristas e realistas.

Mrs. Doubtfire, quem esquece? Foto: Leonardo Aquino

A visita termina com a coleção de miniaturas. São 100 peças hiperrealistas que reproduzem cenas do cotidiano numa escala de 1/12. Restaurantes finos, um pavilhão de penitenciária, museus, teatros, bibliotecas e salas de aula estão entre os ambientes reproduzidos. A maioria é obra de Ohlmann, o criador do museu (que eventualmente está por lá batendo papo com os visitantes). Mas há algumas miniaturas elaboradas por artistas convidados.

Foto: Leonardo Aquino

Um aviso: esteja preparado para subir várias escadas, já que o museu tem cinco andares e fica num casarão antigo. O elevador está disponível apenas para portadores de necessidades especiais.

Serviço

O museu está aberto o ano inteiro, exceto 25 de dezembro e 1º de janeiro. De segunda a sexta, das 10h às 18h30. Sábados e domingos, das 10h às 19h. O ingresso inteiro para adultos custa 9 euros. Outras informações no site – http://www.museeminiatureetcinema.fr

 

Museo Nazionale del Cinema (Turim)

Foto: Giulio Lapone

Turim não é apenas a cidade-sede da Juventus, um dos clubes gigantes do futebol italiano. É também uma espécie de capital do cinema no país. E tem no Museu Nacional do Cinema uma atração imperdível. Primeiro, obviamente, pela coleção e pela raridade de alguns itens expostos. Por último, mas não menos importante, pela localização. O Museu fica dentro da Mole Antonelliana, uma torre que fica no centro de Turim e é o principal cartão-postal da cidade.

Mole Antonelliana: você vai vê-la muito se for a Turim. Foto: Leonardo Aquino

A coleção começou a ser formada nos anos 1940 e já esteve exposta em vários endereços. A Mole virou a casa do museu em 2000, depois de uma grande revitalização arquitetônica. São quatro andares de exposições. Entre os objetos mais raros, estão um roteiro de “Psicose” doado pelo próprio Alfred Hitchcock, um dos figurinos usados por Peter O’Toole em “Lawrence da Arábia” e storyboards de “O Império Contra-Ataca”, da saga “Star Wars”.

Passo a passo no museu

Como a Itália tem um papel fundamental na história da sétima arte, o cinema local também está bem representado. No segundo andar, várias salas são dedicadas a gêneros como animação, musicais e ficção científica, entre outros. Mas duas delas prestigiam o orgulho nacional. Uma é dedicada a “Cabíria”, uma obra-prima dos filmes mudos italianos e outra à importância da cidade de Turim no cinema do país.

Foto: Divulgação

Nos andares seguintes, os visitantes podem conferir alas sobre diversos pontos da cadeia produtiva do cinema: roteiro, figurino, direção e produção, entre outros. Há também um tributo a uma famosa produtora italiana de cinema, a Titanus. O último andar é dedicado a uma galeria de pôsteres. É possível subir ainda mais, já que a Mole Antonelliana tem um elevador até a cúpula, de onde se tem uma vista panorâmica de grande parte de Turim. É possível comprar ingressos só para o museu ou só para o elevador. Mas comprando os dois juntos, tem desconto.

Foto: Divulgação

Além das exibições permanentes e temporárias, o Museo Nazionale del Cinema de Turim realiza festivais. O mais famoso deles é o Torino Film Festival, que em 2017 terá a 35ª edição. Em épocas regulares, o museu exibe filmes num multiplex de rua bem próximo da Mole Antonelliana: o Cine Massimo.

O site do museu tem uma espécie de visita virtual que pode servir como aperitivo: http://www.museocinema.it/vertical_dreams_en/index.php

Serviço:

O museu fecha apenas às terças-feiras. De domingo a sexta, ele funciona das 9h às 20h. Aos sábados, das 9h às 23h. O horário é o mesmo para o elevador panorâmico. O ingresso para o museu custa 10 euros (adultos). Para o elevador, o preço é 7 euros (adultos). Comprando os dois juntos, a casadinha sai por 14 euros (adultos). Outras informações no site: http://www.museocinema.it

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Roteiros de cinema: 6 filmes que inspiram viagens

A inspiração para uma viagem pode vir de inúmeras fontes. O relato das férias de um amigo, a vida de uma figura histórica e as fotos num guia ou revista…

A inspiração para uma viagem pode vir de inúmeras fontes. O relato das férias de um amigo, a vida de uma figura histórica e as fotos num guia ou revista especializada são alguns exemplos. Mas poucas possibilidades são tão encantadoras neste processo quanto os filmes. O cinema seduz com as imagens em movimento, com os conflitos de seus personagens e com as jornadas que eles empregam em busca das soluções.

Às vezes as tramas nem precisam ser tão envolventes para que o cinema inspire uma viagem. Basta que uma região esteja bem retratada na telona. Filmes podem se tornar grandes veículos de divulgação turística de uma cidade ou de um país, intencionalmente ou não. Não foi à toa, por exemplo, que o então prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, disse em 2013: “pago o que for para que Woody Allen venha filmar aqui”. Na última década, o cineasta tem revezado as locações de seus filmes e deixando seus espectadores loucos para viajar por cidades como BarcelonaParis e Roma.

Há também as inspirações que vêm por meio dos conflitos pessoais mostrados nas tramas. A velha busca pelo sentido da vida, em diversas roupagens, é tema de viagens mostradas em filmes. Jornadas de autoconhecimento, de ruptura e libertação também levam personagens a sair pelo mundo afora com pouca bagagem e muito wanderlust.

Já escrevi um post sobre Malta, um lugar onde foram rodados vários filmes e seriados. Mas desta vez, decidi elaborar uma lista dos filmes que me despertaram, de alguma forma, o desejo de viajar por aí. Não são necessariamente os meus filmes favoritos ou mesmo integrantes das listas dos melhores de todos os tempos. Mas certamente têm grande capacidade de inspirá-lo a arrumar as malas e comprar uma passagem. Confira!

 

Hector e a Procura da Felicidade (2014)

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Sabe aqueles filmes que você descobre numa zapeada e acabam te prendendo até o fim? Foi o que este “Hector” fez comigo. Ele conta a história de um psiquiatra inglês que tinha tudo o que muita gente acharia suficiente para uma vida perfeita. Um bom emprego, uma linda namorada, um belo apartamento e muito mais. Só que, um belo dia, se descobre impaciente e inquieto. Questiona aos pacientes dele – e a si mesmo – se são felizes de fato e o que traz felicidade às pessoas. E aí começa a missão antecipada pelo título do filme.

Hector (interpretado pelo comediante inglês Simon Pegg) tira um período sabático e viaja a lugares completamente distintos entre si para entender os motivos da felicidade. Na Ásia, ele visita uma grande cidade e conhece um monastério. Na África, vai a um povoado marcado pela miséria e pela violência. E em Los Angeles, reencontra uma antiga namorada. As viagens são cheias de belos encontros e diálogos, que são engrandecidos pelo ótimo elenco: Jean Reno, Stellan Skarsgard, Christopher Plummer e Toni Colette, entre outros.

A jornada de Hector mostra que a importância de viajar está além de ver lindas paisagens para fotografar e postar nas redes sociais. Cada lugar que visitamos e cada pessoa que conhecemos tem algo a nos ensinar. Basta que estejamos de coração e ouvidos abertos para receber. Às vezes, o pensamento que ilumina e soluciona um problema do dia-a-dia está a milhares de quilômetros das nossas casas.

 

 

Sete Anos no Tibet (1997)

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As viagens mais transformadoras podem ser as menos planejadas ou desejadas. É o caso mostrado neste filme estrelado por Brad Pitt e inspirado numa história real. No final dos anos 1930, o alpinista austríaco Heinrich Harrer deixou a Europa rumo à Ásia para escalar a montanha Nanga Parbat, o nono pico mais alto do mundo. Arrogante e egocêntrico, fugiu do casamento em crise (com a esposa grávida) em busca unicamente da glória pessoal. Acabou surpreendido com o começo da Segunda Guerra Mundial.

No momento em que a Inglaterra declarou guerra à Alemanha (da qual a Áustria fazia parte), Harrer estava em território inglês na Índia. Acabou virando prisioneiro ao lado de outro alpinista, Peter Aufschnaiter. Os dois conseguiram fugir depois de várias tentativas, chegaram à cidade sagrada de Lhasa e se tornaram os primeiros estrangeiros a viver legalmente por lá. O período no Tibete provocou uma revolução pessoal em Harrer. Ele teve contato com a cultura budista, se tornou uma pessoa mais generosa e até virou uma espécie de conselheiro pessoal do Dalai Lama (que na época era um pré-adolescente).

Além de toda a parte espiritual da viagem, “Sete Anos no Tibete” também é inspirador pelas belas paisagens mostradas no filme. Mas, por mais convincente que o cenário possa parecer, a maior parte das gravações foi feita muito longe da Ásia. Em vez dos Himalaias, a principal locação foi nos Andes, na região da cidade argentina de Mendoza. A produção conseguiu fazer algumas filmagens secretamente em Lhasa, que renderam cerca de 20 minutos no resultado final da película.

 

 

Vicky Cristina Barcelona (2008)

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Este talvez seja um dos melhores exemplos de como um filme pode inspirar de várias formas uma viagem. Ele mostra os lugares mais marcantes de uma das mais belas cidades da Europa. Tem como protagonistas duas jovens mulheres que passam uma temporada na Espanha com motivações diferentes: uma para estudar e outra para tentar se encontrar na vida. E ainda mostra uma viagem dentro da viagem, como uma espécie de fuga da rotina.

Além disso, o filme ainda tem um maluco polígono amoroso. Vicky (Rebecca Hall) é uma cumpridora de regras prestes a se casar. A companheira de viagem dela é Cristina (Scarlett Johansson), que está em busca de uma vocação. Elas se envolvem com o charmoso pintor Juan Antonio (Javier Bardem), que não se contenta enquanto não seduz as duas, e com a ex-mulher dele, María Elena (Penélope Cruz), que ainda não superou o fim do relacionamento.

Em meio às reviravoltas sentimentais e a diálogos divertidíssimos, Woody Allen mostra a estonteante Barcelona e seus cartões postais. A Sagrada Família, o Parc Guell, a Casa Milá, as Ramblas e o Bairro Gótico. As cenas são tão bonitas que talvez sejam a melhor publicidade que Barcelona já teve. Além disso, o filme apresentou ao mundo a cidade de Oviedo, nas Astúrias, aonde Juan Antonio leva Vicky e Cristina para um fim de semana romântico. A locação acabou rendendo a Allen uma homenagem: o cineasta tem uma estátua na cidade, que de vez em quando precisa ter os óculos repostos por conta de furtos.

Estátua de Woody Allen em Oviedo. Foto: Noemy García García - Wikimedia Commons

Estátua de Woody Allen em Oviedo. Foto: Noemy García García – Wikimedia Commons

 

 

Antes da Meia Noite (2013)

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A trilogia do cineasta Richard Linklater, que disseca a evolução do relacionamento entre o americano Jesse e a francesa Céline, inspira viagens em todos os seus volumes. No primeiro filme, “Antes do Amanhecer”, o casal se conhece num trem e se apaixona quando decide passar menos de 24 horas em Viena. O segundo filme se passa em Paris e o reencontro entre os protagonistas, nove anos depois, leva o espectador a locais pouco conhecidos da capital francesa. O terceiro fecha brilhantemente a saga, não só na história do casal, mas também nas locações.

Em “Antes da Meia-Noite”, Jesse e Céline recebem de um casal de amigos um presente dos sonhos: uma viagem para a região de Messênia, na Grécia. Já como um casal de quase nove anos juntos, eles discutem um impasse. Jesse quer morar perto do filho mais velho nos Estados Unidos para recuperar o tempo perdido. Céline não quer abrir mão de uma ótima proposta de trabalho na Europa.

Enquanto os dois têm uma tonelada de DRs, Linklater nos apresenta cenários deslumbrantes. A pequena cidade de Kardamyli, por exemplo, fica encravada entre o mar azulzinho do Golfo da Messênia e a cordilheira do Taigeto. A histórica Pilos foi palco de uma das poucas derrotas dos espartanos para os atenienses nas Guerras do Peloponeso. E são cheias de praias, montanhas, pequenas ilhas, ruínas e castelos por onde Jesse e Céline passeiam.

https://www.youtube.com/watch?v=7p8gOukIRKY

 

 

Encontros e Desencontros (2003)

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Quem nunca sentiu medo de não conseguir se comunicar num país estrangeiro? A dificuldade de entender letreiros, pedir um café ou até mesmo de conseguir uma informação sobre transporte é apavorante. Especialmente se você é um viajante pouco experiente. Só que o mais legal é que há lugares que, apesar de todo esse risco, conseguem fascinar e seduzir. A Tóquio retratada em “Encontros e Desencontros” é um deles.

O título original do filme é “Lost In Translation”, que é mais fiel à história. Bob Harris (Bill Murray) é um ator cinquentão. Charlotte (Scarlett Johansson) é a esposa de um fotógrafo de celebridades que foi acompanhá-lo numa viagem de trabalho. Cada um enfrenta um tipo particular de solidão e um acaba dando ao outro compreensão e empatia.  Juntos, eles criam a coragem para conhecer a capital japonesa, suas luzes de neon e seus segredos.

É óbvio que as falhas de comunicação entre japoneses e americanos (os “perdidos na tradução” do título) aparecem aos montes. E são mostradas quase sempre com uma deliciosa ironia. Impossível não se identificar ou não se lembrar de alguma situação semelhante que nós mesmos vivemos.

 

 

Na Natureza Selvagem (2007)

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Viagens podem ser grandes escolas. Elas têm grande potencial para nos ensinar a viver com menos, a nos comunicar melhor com as pessoas e a dar valor ao que realmente importa na vida. Para cada necessidade que você tenha, sempre vai haver uma viagem com o perfil indicado, como se fosse um curso. E há aquelas pessoas que decidem optar logo pelo mais difícil e intensivo, como é o caso do protagonista de “Na Natureza Selvagem”.

O filme dirigido por Sean Penn conta a história real de Chirstopher McCandless (interpretado por Emile Hirsch). Logo após se formar na faculdade, ele resolve bolar uma viagem para fazer uma gigantesca ruptura na vida. Quer partir sem rumo pelo interior dos Estados Unidos, abrindo mão do conforto da casa dos pais, dos valores materialistas da família e de uma vida protocolar. Ele doa todo o dinheiro que tinha a uma instituição de caridade, muda de identidade e cai na estrada.

No meio da viagem, Christopher arruma empregos temporários e conhece várias pessoas com quem tem trocas de experiências transformadoras. Mesmo rodando o país quase de ponta a ponta, ele tem um objetivo claro. Quer chegar ao Alasca, onde pretende ter uma vivência completamente alheia à humanidade e em contato com a natureza em seu estado puro. Por mais que seja uma jornada levada a situações extremas, a história de Christopher é inspiradora para quem precisa de experiências de imersão e autoconhecimento.

 

 

E você? Já foi inspirado a viajar por causa de algum filme? Conta pra gente aí nos comentários!

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Malta: cenário de cinema no meio do Mediterrâneo

O Mochileza não é um blog apenas meu. É também dos leitores e amigos que prestigiam com a leitura e também com colaborações. Este post é a primeiro post convidado…

O Mochileza não é um blog apenas meu. É também dos leitores e amigos que prestigiam com a leitura e também com colaborações. Este post é a primeiro post convidado que a gente recebe. E é uma colaboração muito especial. A Gabriela Lisbôa é uma grande amiga, jornalista gaúcha que conheci no Recife e hoje mora em São Paulo. Em 2016, logo depois de se mudar de Pernambuco, ela fez um intercâmbio em Malta. A única coisa que eu conhecia sobre essa ilha era que a seleção de futebol sempre foi saco de pancadas nas eliminatórias da Copa do Mundo ou da Euro. Graças à Gabi, pude ver que naquele pedacinho de terra no meio do Mar Mediterrâneo, há um lugar daqueles que precisamos conhecer antes de morrer.

Espero que curtam os relatos da Gabi tanto quanto eu curti!

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Em Malta, a Gabi foi à Azure Window, uma locação emblemática de Game of Thrones. Foto: Arquivo pessoal

Em Malta, a Gabi foi à Azure Window, uma locação emblemática de Game of Thrones. Foto: Arquivo pessoal

Eu adoro cinema! E quem não gosta? Imagine, então, a minha surpresa quando a escola onde eu faria intercâmbio de um mês me enviou o perfil da senhora que iria me hospedar em Malta: dona Yvonne estava na casa dos 70, aposentada, passou muitos anos trabalhando como figurinista de grandes estrelas de cinema! Como assim??? Foi aí que eu descobri que a ilha já foi cenário para mais de 100 filmes e séries!

Gabi entre dona Yvonne (esq) e uma colega de intercâmbio

Gabi entre dona Yvonne (esq) e uma colega de intercâmbio

Por que Malta?

Muita gente com quem eu converso nunca ouviu falar sobre Malta, então me deixa falar um pouco sobre esse pequeno paraíso antes de falar de cinema… Malta é uma ilha (na verdade um arquipélago) bem pequena. Tem pouco mais de 300km² e com 400 mil habitantes. Hoje é um país independente, parte da União Europeia, mas foi colônia britânica até 1964. Por isso o inglês é a língua oficial, junto com o maltês.

O que me fez escolher Malta para estudar foi a proximidade com a Itália e os possíveis finais de semana mangiando pasta e pizza! O que eu não sabia era que a localização de Malta não era estratégica só para mim. Em mais de 7 mil anos de história, a ilha foi dominada por diferentes povos: fenícios, árabes, romanos, franceses, espanhóis e, claro, britânicos, entre outros.  Por todos os lados existem construções e ruínas de todas essas culturas, prato cheio para quem procura cenários de época, isso sem contar nas praias… Acho que dizer que são cinematográficas é uma pieguice permitida!

As principais praias já foram bem exploradas pelo cinema. Quem não se lembra do filme A Lagoa Azul, clássico dos anos 80? Algumas cenas foram gravadas na Blue Lagoon, em Comino, uma ilha que faz parte do arquipélago. Acredite: a água é exatamente como aparece no filme, transparente, com areia branca, um sonho!

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Brooke Shields esteve aqui e a Sessão da Tarde sabe bem. Foto: Gabriela Lisbôa

Para chegar lá você só precisa pegar o ferry boat no porto de Cirkewwa. Dá uns 30 minutos de viagem e o meu conselho é chegar cedo. A praia fica lotada depois das 11 da manhã. Eu peguei o primeiro ferry, às 9 da manhã no verão, e fiquei praticamente sozinha lá a manhã toda. O ticket custa dez euros ida e volta. E é bom se certificar dos horários antes de embarcar, eles mudam durante o ano. Comino também foi cenário de outro filme: O Conde de Monte Cristo, de 2002. A bastilha onde o conde ficou preso continua lá.

Brad Pitt, Angelina Jolie e Russell Crowe

Voltando a falar em dona Yvonne, eu fiquei quatro semanas na casa dela e quase morri de inveja do álbum de fotografias que ela tem na sala. Uma das figuras recorrentes é o Brad Pitt, que esteve por lá em 2004 para gravar Tróia. O cenário foi o Fort Ricasoli, um complexo militar do século 17. Muitas construções na região são até mais antigas que Tróia, mas a produção achou melhor construir uma cidade cenográfica em uma área de 40.500m² dentro do forte.  Esse forte é quase um vilarejo e quem também apareceu por lá foi Russell Crowe, no ano 2000, para gravar cenas do Gladiador.

O Fort Ricasolli. Foto: Gabriela Lisbôa

O Fort Ricasolli. Foto: Gabriela Lisbôa

Brad Pitt ainda voltou à Malta para gravar À Beira Mar, filme dirigido pela então esposa Angelina Jolie, em que os dois fazem o papel de um casal em crise. Durante as filmagens, a família toda ficou na ilha de Gozo, em uma casa de pedra alugada perto das 3 locações: um restaurante, um hotel e uma praia chamada Mgarr ix-Xinin Bay. Inclusive, essa praia foi fechada para as gravações.

Gozo é uma ilha menor do que Malta, mas maior do que a vizinha Comino – as duas são bem próximas e você chega em Gozo do mesmo jeito que chega em Comino. Só não cometa o erro de reservar um dia para as duas. É possível, mas é pouco.

Alan Parker e Robin Williams

Se você perguntar pra Yvonne qual é o filme em que ela mais gostou de trabalhar, ela nem pisca antes de responder. É O Expresso da Meia-noite, de 1978. E ainda conta, toda orgulhosa, que ficou amiga do diretor, Alan Parker. E isso é verdade, ele esteve na ilha durante minha viagem para um festival de cinema e ficou feliz em reencontrá-la.

Provavelmente você não lembre, mas em 1979 uma jovem promessa chamada Robin Williams gravou seu primeiro longa metragem, Popeye. E adivinha onde foi construída a pequena cidade em que os personagens viviam? Exatamente, em Malta. A Popeye Village  ainda existe. Os próprios moradores assumiram a conservação das casinhas coloridas feitas em madeira, uma vila de pescadores que virou um parque aquático com entrada gratuita. E você ainda pode encontrar os personagens da turma do Popeye e assistir filmes e desenhos animados. Tem até um documentário que conta como o lugar foi construído.  O interessante é que a ilha não tem madeira. O material foi importado e tudo foi feito em seis meses. A vila só não abre no inverno, no mês de dezembro. O filme não foi um sucesso, mas a vila merece uma visita.

Confira aqui o site da Popeye Village.

Popeye´s Village. Foto: Alexander Vershinin/Shutterstock

Popeye´s Village. Foto: Alexander Vershinin/Shutterstock

Winter is coming

Malta foi cenário para muitas outras produções, como o Código Da Vinci, Fúria de Titãs e The Crown – série que estreou em novembro de 2016 no Netflix. Mas os lugares que eu mais gostei de ver foram os que serviram de cenário para Game of Thrones. Sou fã da série e quase me senti uma Stark andando pelas ruas estreitas da cidade medieval Mdina, a antiga capital da ilha. A emoção já começa no portão da cidade, que é o porto de Porto Real. Do ladr de dentro você ainda vai encontrar uma casa bem familiar… É o bordel do Lord Baelish, que fica na Piazza Mesquita.

A cidade de Mdina. Foto: Gabriela Lisbôa

A cidade de Mdina. Foto: Gabriela Lisbôa

Mdina parou no tempo. A cidade, que tem o melhor bolo de chocolate da ilha, é chamada de cidade silenciosa, e é silenciosa mesmo! Tive a impressão que todo mundo sussurra por lá. Eu fui à tarde e fiquei até a noite, quando a iluminação dá um charme especial às casas de pedra. Se você pretende jantar por lá, prepare-se! Os restaurantes são ótimos, mas caros.

A produção de GOT também usou o Fort Ricasolli e o Convento Dominicano. Mas a locação mais bonita, sem dúvidas, é a Azure Window, que fica em Gozo. Lá foi gravado o casamento de Daenerys Targaryen e Khal Drogo. O lugar tem uma rocha de 50 metros em forma de arco, como se realmente fosse uma janela para o mar. É lindo e apresar da água ser gelada, aposto que você vai querer dar um mergulho. Quando você chega em Gozo, pode pegar um ônibus para a Azurre, o ticket é o mesmo usado em Malta.

A Azure Window, em Gozo. Foto: Gabriela Lisbôa

A Azure Window, em Gozo. Foto: Gabriela Lisbôa

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A cena de Game Of Thrones por lá

E se você ainda tiver tempo, pode tentar descobrir onde foram gravados tantos outros filmes nessa pequena ilha. Ou simplesmente escolher uma praia e relaxar antes do jantar típico maltês: coelho e vinho branco produzido na região.

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Quer fazer como a Gabriela Lisbôa e publicar um post convidado por aqui? Mande um e-mail para [email protected]

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Aula de culinária no Marrocos: conhecendo o país pela cozinha

Você pode discordar de mim, mas acho que o melhor jeito de conhecer um país é a gastronomia. Saber como um povo come tem mil coisas embutidas. A história, a…

Você pode discordar de mim, mas acho que o melhor jeito de conhecer um país é a gastronomia. Saber como um povo come tem mil coisas embutidas. A história, a colonização, os fluxos migratórios, a miscigenação, a natureza, os costumes e muito mais. Portanto, quando Janaína e eu fizemos nossa viagem de férias em abril de 2016, não tivemos dúvida. Uma aula de culinária no Marrocos deveria estar no roteiro.

Como já expliquei neste post anterior, tivemos apenas quatro dias no Marrocos. Portanto, o tempo era bem apertado para visitar mais de uma cidade. Escolhemos Fez, que é apontada por muitos guias (inclusive o Lonely Planet) como a capital cultural do país. Além disso, seguimos a recomendação de amigos que já estiveram por lá.

Antes de você planejar uma ida a Fez, é fundamental dizer: a malha aérea da cidade é muito restrita. Pelo que contei no aeroporto, são cerca de 15 voos por dia. Muito menos do que Casablanca, o principal hub do país. Portanto, chegar até lá pode demorar um bocado. Nós, por exemplo, saímos de Tenerife e ficamos cerca de 5 horas aguardando conexão em Casablanca até embarcar para Fez. Portanto, minha dica é: tenha paciência porque vale a pena.

Pois bem, somos apaixonados por comer, a Janaína adora cozinhar e sempre fomos instigados com a comida marroquina. Portanto, procurar uma aula de culinária no Marrocos fez parte do princípio do planejamento da viagem para lá.

Em Fez, as aulas mais bem recomendadas são as do Café Clock. Pelo site você já consegue ver que é um lugar apaixonante. Além de Fez, ele tem uma filial em Marrakech. Ambas são uma boa mistura das tradições marroquinas com uma roupagem contemporânea. O Clock oferece três tipos de aula de um dia: culinária marroquina tradicional, panificação e doceria. Mas o que nos afastou de lá foi o preço: 600 dirham por pessoa. O equivalente a 55 euros.

O simpático terraço do Café Clock de Fez

O simpático terraço do Café Clock de Fez

Fuçando um pouco mais (obrigado por existirem, Google e Trip Advisor!), chegamos a uma agência chamada Fez Guide. É uma agência local que faz city tours, organiza excursões para o deserto e também passeios temáticos: cidades históricas, fotografia e artesanato por exemplo. O curso de um dia por esta agência custou 36 euros por pessoa. Ou seja, uma economia de 38 euros para nós dois, praticamente pela mesma aula de culinária no Marrocos.

Não sei se a aula do Café Clock é melhor, mas a que tivemos pelo Fez Guide foi excelente. E o programa é basicamente o mesmo. O Abdul, instrutor do curso, foi nos buscar no riad onde estávamos hospedados. Como a pousada ficava dentro da medina (o bairro antigo de Fez), a aula já começou praticamente no instante em que colocamos o pé fora da porta. Caminhamos pelos souks (como os mercados são chamados por lá) e fomos escolher os ingredientes.

Os souks marroquinos

Os souks marroquinos

Paramos em várias barraquinhas que o Abdul já conhecia e então compramos: berinjelas, tomates, cebolas, carne e temperos. Os temperos no Marrocos são coisa de maluco: você anda pelas vielas da medina e já sente aquele aroma delicioso de especiarias. Já a carne tem um detalhe meio bizarro. A carne de camelo é bastante consumida no país e muitas barracas a vendem com um atrativo um pouco asqueroso: a cabeça do camelo pendurada.

Isso aqui realmente não foi legal

Isso aqui realmente não foi legal

Mas a carne que compramos foi bovina mesmo (até onde sabemos, hehehe).

Quando terminamos as compras, fomos para um riad diferente do nosso. Lá, fomos recebidos muito gentilmente pela dona, uma tailandesa que virou uma espécie de co-anfitriã da nossa aula de culinária no Marrocos. Ela cedeu a cozinha ao Abdul para que nos mostrasse o passo a passo de duas receitas bem tradicionais: a salada marroquina e o tajine de carne.

Janaína e Abdul na cozinha do riad

Janaína e Abdul na cozinha do riad

A salada marroquina é um troço fora de série. Ela tem o aspecto semelhante ao de um molho de tomate e é comida com pão. Ela tem dois segredos. O primeiro é que o tomate é ralado, e não picado. Assim, a pele fica toda do lado de fora e apenas a polpa é cozida. O segundo é a forma de pré-cozimento da berinjela. Ela é levada inteira diretamente à boca do fogão. Assim fica mais fácil de descascá-la depois e ela ainda fica com um gostinho meio queimado, meio defumado.

Salada marroquina on the way

Salada marroquina on the way

O tajine é uma espécie de cozido à marroquina. A diferença principal está na panela, que informalmente batizamos de tajineira. Ela é feita de cerâmica e tem uma tampa alta e pontuda. Se for para escolher uma equivalente brasileira, eu apontaria a panela em que se faz moquecas de peixe. Pois bem: levamos à panela a carne, cebolas cortadas e os temperos, especialmente o açafrão. Por isso, a comida fica com um aspecto levemente amarelado.

Tajine de carne fervendo na tajineira

Tajine de carne fervendo na tajineira e a salada marroquina do lado de cá

Já parecia bom o suficiente, mas ainda havia o toque final: o molho agridoce do tajine. À parte da tajineira, aprendemos a fazer uma calda de ameixa. Leva-se ao fogo ameixas secas, um pouco de água, manteiga e açúcar. Essa calda é misturada na carne depois do cozimento. Não sei vocês, mas eu sou alucinado por esses molhos doces. E confiem em mim: o sabor da ameixa com o açafrão é um troço espetacular.

O banquete completo

O banquete completo

Nossa aula de culinária no Marrocos terminou com o resultado prático sendo saboreado por nós. No restaurante do riad, pudemos dizer que preparamos nossa própria comida. A experiência foi diferente de tudo o que já tínhamos vivido em termos de gastronomia. Não só por se tratar de uma cozinha exótica, mas por ter participado passo a passo desde o começo.

Já repetimos a receita uma vez na volta ao Brasil e garanto a vocês: a Janaína lembra de tudo direitinho. Eu, por outro lado, acho que escrevo melhor do que cozinho…

Abdul, nosso professor marroquino de culinária

Abdul, nosso professor marroquino de culinária

Nossa co-anfitriã tailandesa, cujo nome cometi o vacilo de não perguntar

Nossa co-anfitriã tailandesa, cujo nome cometi o vacilo de não perguntar

Serviço

O site da Fez Guide é bem completinho. Mostra todos os passeios disponíveis e todos os contatos. Não sei como são os city tours deles, mas recomendamos fortemente a aula de culinária. Talvez tenha sido o momento em que nos sentimos totalmente livres dos perrengues (que já relatei neste outro post). Também contratamos deles o serviço de transfer do aeroporto, que custou 11 euros (mais barato que um táxi).

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