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Sul da Argentina: um roteiro por El Calafate e Ushuaia

Sempre que ponho lado a lado os destinos turísticos do Brasil e da Argentina, vejo como os dois países são perfeitamente complementares. Eles não têm praias como as nossas e nós…

Sempre que ponho lado a lado os destinos turísticos do Brasil e da Argentina, vejo como os dois países são perfeitamente complementares. Eles não têm praias como as nossas e nós não temos montanhas como as deles. A Argentina tem a Patagônia, mas o Brasil tem a Amazônia. Os argentinos têm a paisagem desértica de Salta e Jujuy, enquanto temos o cerrado e as chapadas. O único ponto de convergência talvez seja a área binacional das Cataratas do Iguaçu. Mesmo assim, sempre tem quem diga que um lado é mais bonito que o outro.

E é por essas e outras que os argentinos invadem o Brasil no verão. Antes restritos ao litoral de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, agora eles aproveitam voos diretos para o Nordeste. Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Norte viraram destinos comuns para eles. Por outro lado, há quase uma diáspora brasileira no inverno, principalmente rumo a Bariloche. Cidade que, aliás, recebe o apelido de “Brasiloche” nas férias de julho.

Mas Bariloche, com a neve e a gastronomia, não deve ser encarada como o único destino possível de inverno em terras argentinas. O sul da Argentina tem um punhado de lugares para se conhecer. A aprazível San Martín de Los Andes e seu clima de cidade suíça no meio da América Latina. Puerto Madryn, base para avistar baleias. E a Ruta 40, que cruza a Patagônia quase inteira, pode fazer parte de uma bela road trip.

Porém, tem duas cidades que dominam minha lista de desejos na categoria “viagens pela Argentina”: El Calafate e Ushuaia. El Calafate fica na província de Santa Cruz e é a terra das geleiras (ou glaciares, como se diz em espanhol) como o famoso Perito Moreno. Ushuaia fica na província da Terra do Fogo e é a principal cidade no extremo sul do país. A brincadeira com o “fim do mundo” está em todos os lugares.

Ainda não estive em nenhuma das duas. Mas conhecer quem já esteve ajuda a mergulhar no destino e a instigar. Por isso, recorri ao Márcio Cabral de Moura. Ele é servidor público, mora no Recife e é um dos viajantes mais assíduos que conheço. Nos últimos 15 anos, ele fez 25 viagens internacionais. A maioria para o Canadá, por motivos familiares. Mas ele e a esposa Renata já andaram muito por aí: Islândia, Alemanha, Inglaterra, Ilha de Páscoa e por aí vai.

Em fevereiro de 2017 (em pleno Carnaval, veja você!), Márcio e Renata embarcaram rumo à Argentina, tendo como principais destinos justamente El Calafate e Ushuaia. Eles deram tantos bons relatos e postaram tantas fotos lindas que decidi convidar o Márcio a contribuir com o blog. Eis então mais um guest post especial do Mochileza. Espero que vocês curtam a viagem e aproveitem as dicas do Márcio!

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Márcio e sua esposa Renata. Foto: Arquivo pessoal

El Calafate

Nossa viagem para El Calafate saiu do Aeroparque, em Buenos Aires. Pegamos um voo da Aerolineas Argentinas, que, em trechos domésticos, só permite até 15 quilos de bagagem despachada e 5 quilos de bagagem de mão. O que me impressionou na viagem é que pouco tempo depois de sairmos de Buenos Aires, a paisagem virou desértica. Eu juro que não sabia que a Patagônia Argentina era o quarto maior deserto do mundo. Ah, minhas aulas de geografia…

O aeroporto de El Calafate é bem pequeno e fica a cerca de 25 km da cidade. Lembrando que estamos num deserto, e mesmo nas margens do lago (que vai de antes do aeroporto para além da cidade) não há nenhum árvore. Na realidade, praticamente não há nenhuma vegetação. A cidadezinha é bem simpática e sua avenida principal tem um trânsito intenso, o que faz com que seja demorado atravessar a Av. del Libertador.

Dicas para planejar sua viagem a El Calafate

Antes de falarmos dos passeios em El Calafate, é importante destacar algumas coisas que podem ajudar no seu planejamento:

  • Geralmente, cada excursão é oferecida por uma única empresa. Mas todas as agências revendem esses passeios com algum ágio. No primeiro passeio da nossa viagem, ele saía por 1470 pesos por pessoa na agência “oficial” e por 1520 pesos na que revende. A diferença pode parecer pequena (em fevereiro de 2017, 50 pesos correspondiam a aproximadamente 10 reais), mas é bom ficar de olho.
  • Muitos pagamentos saem mais caros no cartão de crédito. Passeios, hospedagem e traslados. Sempre prefira pagamento em dinheiro (ou “en efectivo”, como dizem os argentinos).
  • Algumas agências e lojas aceitam dólares e reais para pagamentos. Mas a cotação é desvantajosa. Na nossa viagem, no aeroporto de Ezeiza, um real valia 5,10 pesos. Em El Calafate, a média era 4,50 pesos. E encontramos uma loja que fazia câmbio a 3,50.

Trekking no Perito Moreno

El Calafate, Glaciar Perito Moreno

A caminhada na imensidão de gelo. Foto: Márcio Cabral de Moura

O glaciar Perito Moreno é o principal destino dos turistas em El Calafate. Ele fica a 75 quilômetros da cidade e, na excursão que fizemos até lá (com a agência Hielo y Aventura), fizemos uma parada no meio do caminho para fotos no lago Argentino. A parada seguinte já foi na entrada do Parque Nacional Los Glaciares. O ingresso é pago (apenas em dinheiro) e nos informaram que o preço para brasileiros é menor: 250 pesos.

No site do Parque Nacional Los Glaciares, não há uma informação sobre descontos para nacionalidades. Há, sim, tarifas especiais para argentinos, moradores da província de Santa Cruz, crianças e estudantes. No mais, a tarifa cheia (em setembro de 2017) era de 500 pesos. O que pode ter acontecido é que a agência que promoveu o passeio conseguiu barganhar um desconto com a administração do parque.

Em seguida, tiramos fotos num mirante do glaciar e entramos no barco que nos levou aos pés do Perito Moreno. A travessia dura cerca de 15 minutos e é muito bonita. Além do paredão de gelo que lembrava a muralha de Game of Thrones, também tem alguns pequenos icebergs no lago.

El Calafate, Glaciar Perito Moreno

Winter is coming. Foto: Márcio Cabral de Moura

Antes de iniciar o trekking, fomos para o ponto de apoio para podermos irmos ao banheiro e, se quiséssemos, deixar algo que estivéssemos carregando, como o almoço. Depois fomos caminhando até uma praia junto do glaciar, para tirarmos fotos e em seguida fomos botar os grampões nos pés, para podermos andar sobre o gelo.

A caminhada sobre o gelo durou cerca de 1h30 e terminou com uma degustação de chocolate e whisky (com pedras de gelo do glaciar).

Em seguida, voltamos para o ponto de apoio, onde almoçamos o que havíamos levado – no nosso caso, sanduíche de queijo e presunto. Ficamos por lá um tempinho e às 15h50, fomos para o barco, voltando para onde estava o ônibus. De lá, fomos para as passarelas, ver o Perito Moreno. Eu tinha lido que não acrescentava muito ao mini-trekking, mas acrescenta, sim. Do mini-trekking vemos a parede sul. Do mirante vemos a leste e a norte. Pena que só ficamos uma hora nas passarelas. Na realidade, menos, pois tinha o tempo de voltar pro ônibus e ir ao banheiro dentro dessa hora.

 

Ríos de Hielo

El Calafate, Lago Argentino

Lago Argentino. Foto: Márcio Cabral de Moura

Este passeio é uma navegação de 5 horas pelo braço norte do lago Argentino. Dá pra ver cinco grandes geleiras da região (Upsala, Spegazzini, Seco, Heim e Pineta) e também o fenômeno do desprendimento de gelo em uma delas.

Chegando ao porto, é preciso pagar a entrada do Parque Nacional Los Glaciares (o mesmo do Perito Moreno). São 4 ou 5 guichês que só aceitam pesos argentinos e no porto não há caixa eletrônico ou casa de câmbio. Portanto, leve dinheiro em espécie.

O barco que faz o passeio lembra a balsa que faz a travessia Rio-Niterói. Antes de zarpar, dois fotógrafos deram dicas de como tirar as fotos e depois foi anunciado pelo sistema de som a possibilidade de upgrade pro “Clube do Almirante”, por 1.650 pesos, o mesmo preço que já havíamos pago pelo passeio (fora os 350 pesos do traslado). Eu olhei pra nossos lugares separados e a multidão que teríamos que enfrentar para conseguir tirar boas fotos e decidimos fazer o upgrade, não sem antes dar uma olhada no espaço do “Clube do Almirante”.

O espaço do “Clube do Almirante” tem 16 lugares bem mais confortáveis, com duas varandas privativas, junto do comandante do barco. Além disso, tem guia exclusivo, serviço de bordo incluído, com direito a open bar, café da manhã, lanche e almoço, além de um garçom que falava português.

El Calafate, Lago Argentino

Icebergs no lago Argentino. Foto: Márcio Cabral de Moura

No passeio vimos muitos icebergs e três geleiras. Uma, bem de longe, por questões de segurança e as outras bem mais de perto. A última geleira, segundo o guia, era um paredão de gelo, com altura variando entre 80 e 130 metros, saindo do lago. Espetacular à vista, mas exceto nos momentos em que o barco estava parado, fazia muito frio na varanda, por conta do vento gelado. A empresa que faz este passeio é a Solo Patagonia.

 

El Chaltén

El Calafate

Foto: Márcio Cabral de Moura

Ficamos em dúvidas se faríamos ou não este passeio. Pelo que havíamos lido na internet, o ideal era pernoitar em El Chaltén, já que a distância a El Calafate era muito grande (mais de 200 quilômetros) e o tempo disponível para fazer alguma trilha terminava sendo muito curto. Mas como estávamos com a um dia livre e sem nenhuma programação, resolvemos arriscar um bate-volta com a agência South Road.

No caminho, depois de vermos alguns guanacos na beira da estrada, paramos em La Leona (a 95 km de El Calafate). Ainda paramos mais uma vez para tirarmos fotos da paisagem e finalmente, depois de 220 km, chegamos a El Chaltén. Mas passamos direto da mais nova cidade argentina (fundada em 1985) e fomos para o Chorrillo del Salto, uma cachoeira a 1,5 km do centro da cidade.

Depois de visitarmos essa bela cascata, fomos para um ponto de apoio da excursão onde pudemos usar o banheiro e onde nos entregaram uma sacola com o almoço (incluso nessa excursão). A sugestão é que fizéssemos a trilha para o lago Capri (4 a 5 km de ida, numa trilha de nível fácil com duração estimada de 2 horas). Cinco horas mais tarde o ônibus retornaria para El Calafate.

A trilha começa com muita subida e depois de muito tempo, chegamos no quilômetro 1. Com 1h30 de andada/subida, que não era exatamente fácil, chegamos no quilômetro 2, onde encontramos um casal de alemães retornando, que nos disse que a trilha ficava mais fácil a partir dali, mas ainda faltava uns dois quilômetros. Resolvemos comer alguma coisa e voltar, pois ou não daria tempo, ou ficaria muito corrido.Saindo da trilha 2h30 depois de iniciada e tendo feito apenas metade do trajeto (ou um pouco menos).

 

Calafate Mountain Park

El Calafate, Calafate Mountain Park

Foto: Márcio Cabral de Moura

No nosso último dia inteiro em El Calafate, tivemos uma programação light. Apenas um passeio de meio dia rumo ao Calafate Mountain Park, à tarde, feito com a agência Viva Patagonia.

A excursão é feita num ônibus/caminhão 4×4 e com vista panorâmica. A cidade de El Calafate fica entre o Lago Argentino e duas montanhas e foi justamente numa dessas montanhas que começamos a subir. Entramos por uma estância pequena (para padrões patagônicos) de “apenas” 14.000 hectares, onde subimos até 1.000 acima do nível do mar (uns 800 metros acima de El Calafate).

Lá em cima tivemos muita sorte de o céu estar limpo e de não estar ventando. Conseguimos avistar o monte Fitz Roy, a 150 km de distância e a geleira Perito Moreno a 65 km.

Depois descemos um pouco, passando por outra estância, esta sim, grande (90 mil hectares, uma das dez maiores da Argentina), até o Mountain Park, que é administrado por um grupo de Andorra. O espaço funciona como parque de Mountain Bike no verão e estação de esqui no inverno.

El Calafate, Calafate Mountain Park

Calafate Mountain Park. Foto: Márcio Cabral de Moura

Fizemos uma pequena caminhada por lá e depois fizemos um lanche, que estava incluso no passeio, mas não sabíamos. Na volta, ainda vimos uma formação geológica única da região, o sombreiro mexicano.

 

Ushuaia

 

Lagos Escondido e Fagnano

Ushuaia, Lago Fagnano

Lago Fagnano. Foto: Márcio Cabral de Moura

O voo de El Calafate até Ushuaia (pronuncia-se USSuaia) dura 1h20. Na chegada, estava ventando muito e não descemos num finger. O funcionário do aeroporto que estava ao pé da escada estava dançando, para se aquecer.

A primeira excursão que fizemos por lá foi um passeio de 4×4 para os lagos Escondido e Fagnano, com a empresa Baqueanos.

A primeira parada foi num criadouro de Huskies, onde aproveitamos para poder ir ao banheiro e andar na tundra que forma o solo dos vales em Ushuaia. Voltamos à estrada e começamos a subir os Andes, no único trecho em que é Argentina dos dois lados. No passo Garibaldi, saímos da estrada asfaltada e pegamos a antiga estrada, hoje uma trilha. Paramos para ver os lagos do alto e depois seguimos a pé por uns 150 metros, até uma pequena cachoeira.

Essa é a famosa tundra. Foto: Márcio Cabral de Moura

De volta ao carro, descemos a trilha e, em seguida, pegamos uma estrada regional de barro, para logo depois entrarmos numa trilha dentro de uma propriedade privada, Lá, paramos para ver a devastação nos bosques que os castores provocam.

Voltando ao carro, fomos até a beira do lago Fagnano, onde a guia entrou com o carro dentro d’água depois de uma descida, fingindo ser sem querer. Uma das nossas companheiras de passeio chegou a ficar preocupada, pois não sabia nadar.

Estava ventando muito e o lago é impressionante. Apesar de não ser muito largo, ele tem cerca de 100 quilômetros de comprimento. E como forma um corredor de vento, tem ondas de tamanho até razoável. Chegando no refúgio, havia uma fogueira do lado de fora, junto da churrasqueira e dentro do refúgio um fogão de lenha aceso para esquentar o ambiente (e a água do chá/café pós-refeição).

 

Passeio de helicóptero por Ushuaia

Ushuaia, vista aérea

A Terra do Fogo vista do alto. Foto: Márcio Cabral de Moura

Essa excursão estava marcada para o meio-dia. Portanto, deu para dormir até um pouco mais tarde. Um carro de aluguel nos leva até o antigo aeroporto de Ushuaia, dentro de uma base militar. Fomos muito bem recebidos na agência Heliushuaia. Depois vimos um filminho com instruções de segurança em português e em seguida fomos conduzidos para a pista, para entrarmos no helicóptero.

Era um helicóptero pequeno, com capacidade para três passageiros. O passeio durou 15 minutos e foi fantástico. Depois de sobrevoarmos o canal de Beagle e a cidade de Ushuaia (com informações turísticas repassadas pelo piloto), sobrevoamos os Andes e passamos em cima de uma glaciar e uma lagoa lá em cima. Depois passamos por cima da lagoa esmeralda e voltamos pra cidade.

No aeroporto, recebemos um certificado de voo no fim do mundo e depois um carro de aluguel nos deixou no hotel. O custo total foi de US$ 180 por pessoa.

 

Valle Hermoso

Ushuaia, Valle Hermoso

Castores pegos no flagra. Foto: Márcio Cabral de Moura

No mesmo dia do passeio de helicópteros, tivemos outra programação: o avistamento de castores no Valle Hermoso. Já era final de tarde quando chegamos numa casa de madeira, onde fomos recebidos pelos dono e por Kiwi (um cachorro). Entramos na casa e fomos instruídos a deixar nossas coisas e trocar nossos sapatos por botas de borracha. Recebemos uma capa de chuva e saímos da casa seguindo o guia.

Caminhamos por encharcados e turva (a tundra do sul) até a primeira castoreira, onde pudemos observar três castores. Depois do um tempo, continuamos a caminhada até uma segunda castoreira, onde avistamos dois castores. Só que depois de uns cinco minutos, um dos castores nos viu, bateu com a cauda na água e foi se refugiar em sua casa. O outro, que estava comendo, meio que se escondeu, mas não voltou pra casa.

Ushuaia, Valle Hermoso

Parece imagem de desenho animado. Foto: Márcio Cabral de Moura

Em seguida fomos andando até a terceira castoreira, onde tinham feito a maior represa. Havia duas casas, mas não avistamos nenhum castor. Ficamos um tempo, tomando vinho quente com especiarias e falando de política e depois retornamos pra casa-sede. Chegamos no hotel quase meia-noite, tendo que acordar cedo no dia seguinte.

 

Caminhada com pinguins

Ushuaia, pinguins

Foto: Márcio Cabral de Moura

Este passeio sai cedo. Tínhamos que chegar ao porto às 8h30 para partida às 9h. Antes de embarcar, era preciso fazer check-in e pagar a taxa portuária de 20 pesos por pessoa. Nosso passeio era pela Piratour, a única agência que faz a caminhada com os pinguins. Todas as outras fazem a observação de dentro de seus barcos. Isso porque a Piratour é a dona da ilha onde os pinguins fazem seus ninhos.

O barco da Piratour é pequeno (capacidade para umas 40 pessoas), com lugares sentados no “térreo” e um deck aberto (sem teto) de observação.

Primeiro passamos na ilha dos pássaros, depois na ilha dos leões-marinhos e depois na ilha do farol (onde tinha leões-marinhos e pássaros). Em seguida, passamos por Puerto Williams, vilarejo chileno de 2.000 habitantes que fica mais ao sul que Ushuaia e finalmente paramos na Estância Herberton. Lá o grupo foi dividido em dois, de acordo com o cartão de embarque (que era um crachá de embarque). O grupo verde (o nosso) ia para a ilha ver os pinguins enquanto o grupo laranja ia almoçar (no restaurante deles, mas não incluso no passeio). Depois invertia.

Ushuaia, pinguins

Os pinguins de Papua, de pés amarelos. Foto: Márcio Cabral de Moura

Pegamos uma lancha (com cobertura) e fomos para a ilha dos pinguins. Dá pra ir de tênis, pois não chegamos a pisar na água. Na ilha, vários pinguins na praia, onde temos que manter uma distância de pelo menos 2 metros. Depois subimos uma escada para o interior da ilha e tivemos que ficar na região demarcada (onde eventualmente os pinguins entram). Nessa parte, temos que respeitar o pinguim como se ele fosse um ciclista: 1,5 m de distância. São centenas de pinguins (todos da espécie pinguim de Magalhães), além de gansos sul-americanos e alguns outros pássaros.

Saindo dessa região, caminhamos pela praia, onde vimos mais pinguins de Magalhães. Seguindo pela praia, finalmente avistamos os pinguins de Papua, que são maiores e têm pés amarelos.

Ushuaia, pinguins

Mais pinguins de Papua. Foto: Márcio Cabral de Moura

Depois de uns 40 a 50 minutos na ilha, voltamos pra lancha (ela veio até nós, para ser mais preciso) e fomos almoçar. Em seguida, fomos para um museu de fósseis marinhos que fica a uns 300 metros do restaurante. Fizemos uma visita guiada e em seguida fomos pro ônibus (a volta é de ônibus).

 

Museo Maritimo y del Presidio

No nosso último dia em Ushuaia, fomos ao museu que fica na antiga penitenciária da cidade (a entrada custa 250 pesos pra residentes em países do Mercosul).

Na realidade é um complexo de museus. Não há nada muito diferente do que poderíamos encontrar numa página de Internet, mas valeu a visita num dia chuvoso.

Os nativos da região morreram quando passaram a ser obrigados a usar roupas. E até mil oitocentos e pouco não se conhecia o canal de Beagle, que tem esse nome por conta do navio que em sua segunda viagem pra essas bandas teve a bordo Charles Darwin. E os pinguins mais ao norte que existem são encontrados nas Ilhas Galápagos.

*** Como escrevemos lá em cima no post, esta viagem foi feita em fevereiro de 2017. Portanto, os preços relatados no texto estão sujeitos a atualização.

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Círio de Nazaré: um guia para quem vai acompanhar pela primeira vez

Para quem nasce em Belém do Pará, é impossível desenvolver uma relação de indiferença com o Círio de Nazaré. A cidade é tão invadida por Nossa Senhora em outubro quanto…

Para quem nasce em Belém do Pará, é impossível desenvolver uma relação de indiferença com o Círio de Nazaré. A cidade é tão invadida por Nossa Senhora em outubro quanto por Papai Noel em dezembro. A publicidade local ganha peças especiais para a época. Os parentes que moram longe desembarcam quase todos na mesma semana. Quem é de rezar tem uma quinzena inteira para dedicar à devoção. Quem não é de rezar tem uma grande dose de confraternização, comida e algumas festas. Ou então se limita a reclamar do trânsito, que realmente fica insuportável.

É o maior evento de Belém, que leva mais de um milhão de pessoas às ruas da cidade, entre moradores e visitantes. E no meio dessa multidão, tem gente de vários perfis. De turistas que gastam uma nota para ver o Círio da varanda de um hotel cinco estrelas até peregrinos de cidades vizinhas que vêm a pé. Tem gente que vem de longe para expressar sua fé. E tem gente que vai contemplar a fé alheia. Os promesseiros do Círio de Nazaré atraem tantos olhares e suspiros quando a própria padroeira dos paraenses.

Minha relação com o Círio de Nazaré começou como a de quase qualquer belenense. Quando eu era muito pequeno, meus pais não costumavam me levar para a procissão por causa do sufoco e da aglomeração. Quando eu tinha 10, 11 anos, comecei a acompanha-los. Aos 19, já na faculdade de jornalismo, o Círio virou sinônimo de trabalho para mim. E muito! Jornalista que folga no Círio é tão raro quanto a neve em Belém.

Trabalhar no Círio de Nazaré distanciou um pouco a minha visão do lado espiritual da coisa. Mas ajudou a compreender questões mais práticas e objetivas do evento. Talvez tenha mesclado a minha vivência de nativo com um olhar de visitante. E acho que é uma mistura interessante para falar do Círio num blog de viagens.

Decidi escrever este post não com o objetivo de ser a principal fonte de informações históricas sobre o Círio. E sim pensando no viajante que pretende acompanhar a festividade pela primeira vez. Sei que chegar a Belém na segunda semana de outubro sem referência nenhuma deve deixar os romeiros estreantes meio baratinados. Espero que este artigo possa ajudar a facilitar a vida (e o planejamento da viagem) dessas pessoas!

 

Um pouco de história

Círio de Nazaré, Basílica Santuário

A Basílica Santuário de Nazaré. Foto: Sidney Oliveira – Agência Pará

A devoção a Nossa Senhora de Nazaré no Pará tem origem numa lenda do início do século 18. Um pescador chamado Plácido encontrou uma imagem da santa às margens de um igarapé, palavra amazônica para riacho. Ele levou a imagem para casa. Mas, no dia seguinte, ela sumiu e reapareceu no mesmo local onde havia sido encontrada. A história se repetiu outras duas vezes até Plácido entender a mensagem: a santa queria permanecer naquele lugar.

O igarapé Murutucu, onde a imagem foi encontrada, acabou recebendo uma pequena capela para sediar a adoração a Nossa Senhora. A primeira procissão foi realizada em 1793. De lá para cá, o número de fiéis se multiplicou exponencialmente. A romaria se transformou em uma das maiores do mundo e a capelinha à beira do riacho virou a hoje imponente Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré.

Para conhecer um pouco mais sobre a história do Círio de Nazaré, acesse o site oficial do evento.

Quando acontece o Círio de Nazaré?

Círio de Nazaré, promesseira

Sempre há promesseiros que fazem o percurso do Círio de joelhos. Foto: Sidney Oliveira – Agência Pará

Os primeiros Círios foram realizados em dezembro. Mas, desde 1901, a procissão ganhou a data fixa que tem até hoje: o segundo domingo de outubro. Essa não foi a única mudança em mais de 200 anos de história. Nas primeiras edições, a romaria saía à tarde. Hoje, a saída é às 6 da manhã. As alterações provavelmente foram para fugir do clima chuvoso de Belém, já que dezembro é um mês mais úmido e as chuvas são tradicionalmente vespertinas.

Há muito tempo o Círio de Nazaré não é apenas a procissão do domingo. Ao longo do século 20, foram criadas várias outras romarias para engordar a programação. A santinha viaja por terra e água para alcançar mais fiéis e percorre 140 quilômetros em doze procissões somadas. No total, entre eventos e romarias, a festa da padroeira dos paraenses dura vinte dias.

Para facilitar o seu planejamento, vamos organizar os eventos pelas datas em que são realizados. Usamos o calendário de 2017 como base, mas o post será editado nos anos seguintes com as datas atualizadas.

Antes do fim de semana do Círio

Círio de Nazaré, abertura oficial

Abertura do Círio de Nazaré. Foto: Mácio Ferreira (Agência Pará)

Na terça-feira que antecede a grande procissão, é realizada a abertura oficial do Círio. Em 2017, ela cai no dia 3 de outubro. É uma missa solene na Basílica Santuário, com a presença da diretoria da festa, da arquidiocese de Belém e de autoridades da cidade. Começa às 18h.

Mas o primeiro evento cercado de expectativa dos fiéis acontece na quinta-feira (em 2017, 5 de outubro): a missa de apresentação do manto, também na Basílica Santuário. A cada ano, o manto que cobre a imagem de Nossa Senhora em todas as romarias é diferente. A confecção é mantida sob sigilo absoluto pela diretoria da festa até o dia do evento, que começa às 18h. Não são eventos para pautar a data da sua chegada. Só se você já estiver na cidade e for muito devoto.

Apresentação do manto de Nossa Senhora. Foto: Divulgação / Fundação Nazaré

 

Sexta-feira, 06/10/2017

Círio de Nazaré, Traslado

As ruas movimentadas no dia do Traslado. Foto: Sidney Oliveira – Agência Pará

Traslado

A antevéspera do Círio de Nazaré é o dia da primeira das doze romarias, o Traslado. Ela sai às 7 da manhã e é a mais longa de todas. O percurso tem 52 quilômetros e vai da Basílica Santuário, em Belém, até a Igreja de Matriz de Ananindeua, município vizinho à capital paraense. A imagem de Nossa Senhora é colocada sobre um carro da Polícia Rodoviária Federal. O roteiro passa por vários bairros de Belém, Ananindeua e Marituba (outra cidade da região metropolitana). No caminho, o comboio faz algumas paradas para homenagens em frente a prédios de órgãos públicos e hospitais.

 

Auto do Círio

À noite, o centro histórico de Belém é ocupado por um dos eventos mais tradicionais da programação extraoficial da festividade. O Auto do Círio é um cortejo organizado há mais de duas décadas pela UFPA, por meio da Escola de Teatro e Dança. Pelas ruas da Cidade Velha, artistas profissionais e amadores encenam um espetáculo que celebra a cultura e a história de Belém e do Círio.

Círio de Nazaré, Auto do Círio

Auto do Círio. Foto: Cristino Martins – Agência Pará

 

Festival Lambateria

Você pode aproveitar a ida à Cidade Velha para curtir uma noite de música paraense no Festival Lambateria. A Lambateria é uma festa (da qual já falamos no post sobre dicas de Belém) em que toca guitarrada, carimbó, tecnobrega e outros ritmos tradicionais e modernos da Amazônia. A escalação do festival está imperdível e tem como principais atrações Dona Onete, Pinduca, Combo Cordeiro e Félix Robatto. Outras informações você pode encontrar na página do evento no Facebook.

 

 

O que vale a pena?

O Traslado não vale a pena. Como a romaria é conduzida por um carro e há várias interdições no trânsito no caminho, é praticamente impossível seguir o comboio. Mas, se você quer colocar esta romaria no currículo, o melhor é ver a saída nos arredores da Basílica ou escolher um ponto de passagem. Minha sugestão: o Hospital Ophir Loyola, na avenida Magalhães Barata. Não é longe do centro de Belém e é uma parada tradicional da procissão.

Já o Auto do Círio vale demais. Tanto pela manifestação artística quanto para conhecer o bairro mais antigo de Belém. O Auto do Círio geralmente tem “estações” em frente a alguns dos lugares mais bonitos da Cidade Velha, como a Catedral e a Igreja de Santo Alexandre.

Sábado, 07/10/2017

Círio de Nazaré, Romaria Rodoviária

Fiéis à espera da Romaria Rodoviária. Foto: Sidney Oliveira – Agência Pará

O dia mais importante da programação do Círio de Nazaré é o domingo. Mas o mais movimentado é o sábado. São quatro romarias, começando nas primeiras horas da manhã e terminando já no início da madrugada de domingo.

Romaria Rodoviária

O dia começa com a Romaria Rodoviária, que sai às 5h30 da Igreja Matriz de Ananindeua, onde a imagem de Nossa Senhora pernoitou na véspera. Esta romaria é realizada desde 1989 no sábado anterior e foi criada para atender a um pedido do Sindicato das Empresas de Transporte de Carga. São 24 quilômetros de percurso pelas rodovias BR-316 e Augusto Montenegro até o trapiche de Icoaraci, onde começa o segundo evento do dia.

Romaria Fluvial

A Romaria Rodoviária termina onde a Romaria Fluvial começa. Depois de uma missa no trapiche, a imagem embarca numa corveta da Marinha. A saída costuma ser por volta de 9 da manhã. É um dos eventos mais bonitos de toda a festividade. A padroeira é seguida por embarcações de diversos tamanhos e padrões, desde lanchas turísticas até barcos simples de madeira. A romaria tem um percurso de 10 milhas náuticas (o equivalente a 18,5 quilômetros) e costuma durar 2h30. A chegada é na escadinha do Cais do Porto, no centro de Belém.

Círio de Nazaré, Romaria Fluvial

Romaria Fluvial. Foto: Carlos Sodré – Agência Pará

Moto Romaria

No final da Romaria Fluvial, a festa se divide em duas. A imagem de Nossa Senhora segue para a terceira procissão do dia: a Moto Romaria. Milhares de motociclistas acompanham a santa num trajeto de 2,5 quilômetros até o Colégio Gentil Bittencourt, na avenida Magalhães Barata. Geralmente, esta romaria dura em torno de uma hora.

Moto Romaria. Foto: Sidney Oliveira – Agência Pará

Arrastão do Círio

Quem não está de moto pode participar de outra programação que começa bem perto, em frente à Praça dos Estivadores: o Arrastão do Círio. É um evento organizado pelo Instituto Arraial do Pavulagem, um dos principais difusores da cultura popular no Pará. É um cortejo embalado por tambores, danças e cantos em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré.

Círio de Nazaré, Arrastão do Pavulagem

Arrastão do Círio. Foto: Dah Passos – Instituto Arraial do Pavulagem

Trasladação

No final da tarde, começa a segunda procissão mais importante da programação do Círio de Nazaré: a Trasladação. Ela tem um trajeto quase igual à da grande romaria do domingo, mas no sentido contrário. Sai do Colégio Gentil Bittencourt em direção à Catedral Metropolitana. Como é uma caminhada noturna, geralmente é embelezada pelas velas que muitos fiéis levam. A iluminação da berlinda que leva a santa também é um dos pontos altos. O percurso tem 3,7 quilômetros, mas a duração é menos previsível. Costuma terminar por volta da meia-noite.

Círio de Nazaré, Trasladação

Trasladação. Foto: Thiago Gomes – Agência Pará

Festa da Chiquita

Pensa que acabou? A noite do sábado para o domingo tem um evento que costuma fazer os católicos mais tradicionalistas torcerem o nariz. A Festa da Chiquita é um evento organizado pela comunidade LGBT de Belém e é realizada no Bar do Parque, em frente ao Theatro da Paz. Assim que a Trasladação passa em frente ao bar, a festa começa e costuma entrar pela madrugada. Nos últimos anos, a Festa da Chiquita sempre foi uma incógnita até a última hora. Sem o apoio da diretoria do Círio e das últimas gestões da prefeitura, ela foi marginalizada. Até o fechamento deste texto, não havia uma confirmação sobre a realização em 2017.

A Festa da Chiquita foi tema de um documentário lançado há alguns anos. O nome do filme é “As Filhas da Chiquita” e está disponível na íntegra no Vimeo. Aqui, um trechinho para você ter uma noção do que rola no Bar do Parque depois que a santa passa.

O que vale a pena num dia tão movimentado?

Eu recomendo fortemente a Romaria Fluvial. Ela é muito simbólica dentro da programação, dado o significado dos rios para a região amazônica. Algumas agências de turismo preparam embarcações para acompanhar a romaria. O barco da Valeverde Turismo é um dos mais tradicionais. Oferece bebidas quentes e água, tem venda de lanche a bordo, música ao vivo e show folclórico.

Se o passeio de barco não tiver tirado toda a sua energia, passe algumas horas no Arrastão do Pavulagem. É uma lindíssima manifestação artística, além de ser um ponto de encontro de gente descolada.

A Trasladação também vale muito a pena. Se você quiser acompanhar caminhando, chegue ao Colégio Gentil Bittencourt pelo menos uma hora antes da procissão. Veja a saída da santa e siga andando na frente da romaria até onde seu fôlego permitir. Se quiser ver tudo sentadinho, o melhor custo/benefício é comprar um ingresso para as arquibancadas montadas na avenida Presidente Vargas. Para a Trasladação, o preço é R$ 35. A venda é pela internet.

A Festa da Chiquita é divertida, mas tem uma aglomeração que permite pequenos furtos. Se você for conservador a ponto de se incomodar com a celebração da diversidade num evento católico, melhor não ir. Mas se você estiver no espírito, não perca. Só tenha as mesmas preocupações que você teria num evento de carnaval de rua. Ah, e não perca a hora para o dia seguinte!

 

Domingo, 08/10/2017

Círio de Nazaré, berlinda

Foto: Thiago Gomes – Agência Pará

É o grande dia da festividade. O Círio de Nazaré propriamente dito. A movimentação começa ainda de madrugada, antes mesmo do sol nascer. Os promesseiros que querem acompanhar a procissão na corda (vamos falar dela mais adiante) passam a madrugada no Boulevard Castilhos França. Mas o início do dia para valer é às 5h, com a missa na Catedral Metropolitana. A missa termina e o Círio começa. A berlinda que leva a imagem da padroeira sai da Praça Frei Caetano Brandão, em frente à Catedral, e começa um percurso de 3,6 quilômetros.

Em frente à Praça do Pescador, no Boulevard Castilhos França, acontece um dos momentos mais emocionantes do Círio de Nazaré. É quando a corda, um dos símbolos mais especiais da festa, é atrelada à berlinda. A corda tem 800 metros de comprimento, dividido em dois pedaços de 400. Cada centímetro é disputado à exaustão pelos promesseiros, que se espremem para pedir ou agradecer alguma realização atribuída à fé na padroeira.

Círio de Nazaré, corda

No meio dos promesseiros da corda, nem se vê a corda. Foto: Alessandra Serrão – Agência Pará

Na frente da corda e da berlinda, vão outros elementos importantes na simbologia do Círio de Nazaré. Treze carros de promessas começam o percurso um pouco mais adiante, na avenida Presidente Vargas. Alguns deles recebem os ex-votos, que são objetos representando os pedidos ou as graças alcançadas. Os mais comuns: velas, partes do corpo esculpidas em cera (para pedidos relacionados a saúde), tijolos e miniaturas de barcos e casas. Outros carros levam crianças vestidas de anjos, geralmente pagando promessas feitas pelos pais.

Foto: Thiago Gomes – Agência Pará

Tem gente que acompanha o Círio caminhando. Tem gente que fica à espera da passagem da procissão em algum ponto do percurso. Edifícios, hotéis, arquibancadas são locais em que se tem conforto e segurança. Quem prefere não pagar (ou não pode), fica na rua mesmo. Não é a melhor escolha para quem tem mais idade ou alguma dificuldade de locomoção.

Quanto tempo dura?

A duração da romaria é uma controvérsia entre os fiéis. Já houve um Círio de Nazaré que durou dez horas. Foi o de 2004, que chegou ao ponto final (a Praça Santuário) às 16h. E já houve outros que chegaram antes do meio-dia. Tem quem prefira que o Círio seja mais rápido, para que as famílias possam aproveitar o tradicional almoço e o restante do domingo. Tem quem ache que uma procissão mais longa é um sacrifício que vale a pena, para não se ver a santinha passando “a jato” diante dos olhos.

Dicas para acompanhar

Círio de Nazaré

A Praça do Relógio, em frente à chamada “pedra do peixe” no Ver-o-Peso. Foto: Mácio Ferreira – Agência Pará

O esquema que aprendi com meus pais para acompanhar o Círio a pé é o seguinte. Chegar por volta de 5h30 da manhã à Praça do Relógio, que fica nos primeiros metros do percurso. De lá, ver a passagem da berlinda e então cortar caminho por dentro do bairro do Comércio. Assim, chega-se à avenida Presidente Vargas bem à frente da procissão, sem muito sufoco. Meus pais costumam fazer o atalho pela rua João Alfredo ou Treze de Maio. Mas qualquer rua da região estará muito movimentada no domingo do Círio.

Corda

Se você quiser encarar a corda, vá com a preparação de uma corrida de longa distância. O aperto é grande e o calor, insuportável. Chegue cedo, no máximo às 3 da manhã, ao Boulevard Castilhos França. Vá de chinelos, sabendo que vai precisar descartá-los. É proibido acompanhar a corda calçado. Deixe em casa também acessórios que possam machucar, como anéis, relógios e brincos. Alguns promesseiros da corda levam acompanhantes para dar alguma assistência em caso de necessidade. Muita gente desmaia no percurso. Mas há uma grande quantidade de voluntários da Cruz Vermelha trabalhando no atendimento médico ao longo da procissão.

Segurança

É uma festa religiosa, mas os descuidistas não tiram folga. Portanto, cuidado com objetos de valor. Deixe a carteira em casa. Leve dinheiro trocado e um documento apenas.

Arquibancadas

Para quem preferir comodidade, as arquibancadas oficiais na avenida Presidente Vargas custam R$ 70 e estão à venda neste site.

Hotéis

Se seu orçamento estiver bem mais folgado, hospede-se em um hotel no percurso do Círio de Nazaré. Dois dos mais tradicionais de Belém estão no caminho. O Princesa Louçã (antigo Hilton) na avenida Presidente Vargas e o Grand Mercure (antigo Crowne Plaza) na avenida Nazaré. Eles geralmente fecham pacotes com muita antecedência para o Círio, mesmo cobrando os olhos da cara.

Transporte público

Funciona normalmente e ganha reforço durante o fim de semana do Círio, inclusive de madrugada. Os ônibus que passam perto do percurso geralmente circulam com uma placa “Círio de Nazaré” no vidro dianteiro.

 

Almoço do Círio

Círio de Nazaré, maniçoba

A famosa maniçoba. Foto: Cristino Martins – Agência Pará

Muitos restaurantes fecham no domingo do Círio de Nazaré. É o caso de alguns dos mais tradicionais e conceituados da cidade. O Remanso do Bosque, do badalado chef Thiago Castanho, fecha no domingo, mas abre normalmente para almoço e jantar na segunda-feira. O Lá Em Casa, com mais de 40 anos de tradição, também fecha, assim como todos os outros restaurantes da Estação das Docas. Mas abre no sábado desde cedo, aproveitando a chegada da Romaria Fluvial, inclusive servindo café da manhã.

O Avenida é uma das melhores pedidas. Não só pela tradição, mas pela localização. Ele fica a poucos metros da Praça Santuário. A procissão do Círio passa bem em frente. Para 2017, as reservas abriram em 1º de setembro. E, dependendo do dia em que você ler este post, é possível que não haja mais vagas.

O restaurante do Hotel Mercure (sobre o qual já falamos alguns parágrafos acima) tem um pacote para não-hóspedes. Tem almoço com água, refrigerante e sobremesa inclusos. A programação também tem uma missa no hotel. O valor é um pouco salgado: R$ 350 por pessoa. Mas, se você tiver esse dinheiro sobrando, a comodidade e a localização compensam. As reservas podem ser feitas pelo telefone (91) 3202.2100.

Fora do circuito da procissão, existem boas opções. O Manjar das Garças fica dentro do parque Mangal das Garças. O Spazzio Verdi fica a um quarteirão da Praça Santuário e pode ser uma solução próxima. E o Avuado, que já indicamos no post com as dicas de Belém, também abrirá normalmente. É um bom lugar para comer peixes de rio e frutos do mar.

O prato mais típico nesta celebração é a maniçoba, que, numa tentativa simplória de explicar, é uma espécie de feijoada amazônica. É um cozido de partes menos nobres do porco. Mas, no lugar do feijão, entra a maniva, que é a folha da mandioca brava. Ela precisa passar uma semana fervendo para perder uma toxina natural que possui. Visualmente, o prato não é bonito, mas é muito saboroso.

 

Depois da grande procissão

Foto: Sidney Oliveira – Agência Pará

Quando a romaria do domingo termina, a programação do Círio de Nazaré arrefece um pouco. Todas as manhãs, às 5h30, fiéis celebram o Terço da Alvorada no entorno da Basílica Santuário. Eles se revezam em orações e conduzem uma réplica da imagem da padroeira. À noite, também na área próxima à Basílica, há duas pedidas. O Círio Musical, programação de shows católicos gratuitos na Praça Santuário; e o Arraial de Nazaré, no parque de diversões ao lado da Praça.

Últimas romarias

Mas lembra que eu falei que eram doze romarias? Até agora, falei apenas de seis. No sábado seguinte ao Círio (em 2017, 14 de outubro), são realizadas duas. A primeira é a Cicloromaria, dedicada aos ciclistas. A segunda é a Romaria da Juventude, organizada pelos jovens das paróquias e comunidades da Arquidiocese de Belém.

O dia seguinte (em 2017, 15 de outubro), tem a Romaria das Crianças, com um percurso na medida para que as famílias com filhos pequenos possam celebrar sem sufoco.

No último sábado da festividade (em 2017, 21 de outubro), tem a Romaria dos Corredores. São 7 quilômetros em que a imagem de Nossa Senhora é conduzida numa velocidade para ser acompanhada numa corrida leve.

No domingo seguinte (em 2017, 22 de outubro), tem a Procissão da Festa. É uma romaria dedicada aos membros da diretoria da festa e às comunidades da paróquia de Nazaré. Pra fechar o calendário, tem ainda a missa de encerramento às 19h30 na Basílica Santuário e o Espetáculo Pirotécnico. Este é um momento bastante aguardado e pode ser visto de longe, de vários bairros de Belém. Ele começa às 21h na Praça Santuário.

O que vale a pena acompanhar?

Se sua estadia em Belém para o Círio for mais longa, vale você arrumar uma bicicleta e seguir a Cicloromaria. Ela sai às 8h da Praça Santuário. Tem um percurso de 14 quilômetros por alguns bairros do centro de Belém, até voltar ao local de partida Se você viaja com filhos pequenos, a Romaria das Crianças também é uma boa pedida. A saída e a chegada são na Praça Santuário. O Espetáculo Pirotécnico é bonito, mas a movimentação na Praça Santuário é muito grande. Além disso, é muito comum o relato de pequenos furtos na multidão. Pense duas vezes antes de decidir acompanhar tão de perto.

O que mais fazer em Belém?

Foto: Facebook/Estação das Docas

Estação das Docas. Foto: OS Pará 2000

Além dos passeios clássicos que você já deve ter visto por aí, a gente tem algumas indicações mais “outsiders”. Falamos sobre elas neste post com o guia de Belém que os guias não contam. Mas para não dizer que ignoramos as tradições, sugerimos também a Estação das Docas, sua vista e seus sabores imperdíveis!

O Círio de Nazaré é uma boa época para comprar artesanato em Belém. Duas feiras são tradicionais nesta época. A Feira do Artesanato do Círio, organizada pelo Sebrae na Praça Waldemar Henrique; e a Feira do Miriti, realizada pela cooperativa dos artesãos de Abaetetuba (cidade a 121 quilômetros de Belém), na Praça Dom Pedro II. A primeira é mais completa, com mais tipos e estilos de artesanato. A segunda é focada no miriti, uma palmeira cujo tronco é conhecido como “isopor amazônico”. Abaetetuba é o principal pólo de produção de arte em miriti. São feitas esculturas de todo tipo. Mas o carro-chefe são os brinquedos de miriti, que fazem parte das tradições do Círio.

Mapa do Círio de Nazaré

Aqui você vai encontrar todos os locais citados no texto para que você tenha em conta as distâncias de Belém.

 

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Cinco coisas para fazer na Estação das Docas em Belém

Quem vai a Belém costuma receber duas dicas de passeios. Os moradores da cidade sempre sugerem um fim de tarde na “Estação”, com beira de rio e pôr do sol….

Quem vai a Belém costuma receber duas dicas de passeios. Os moradores da cidade sempre sugerem um fim de tarde na “Estação”, com beira de rio e pôr do sol. Os turistas que já andaram por lá indicam um happy hour nas “Docas”, com chopinho de qualidade e petiscos regionais. O melhor de tudo é que as duas dicas apontam para o mesmo destino: a Estação das Docas.

Costumo desconfiar de dicas “obrigatórias”, mas esta compensa. Na Estação das Docas, é possível ter uma espécie de “menu degustação do Pará” ao longo de 32 mil metros quadrados. Gastronomia, natureza, cultura… tem tudo lá. E o local está acessível a todos os bolsos. Há desde shows gratuitos até restaurantes refinados.

Inaugurada em 2000, a Estação das Docas teve o projeto inspirado no Puerto Madero de Buenos Aires. Ela fica numa região portuária de Belém que estava desativada no final do século passado. Três galpões foram revitalizados e transformados em uma janela para a Baía do Guajará. Além disso, foram instalados restaurantes, bares, lojas, palcos para as mais diversas manifestações artísticas e um auditório que também funciona como cinema e teatro.

Foto: OS Pará 2000

A ideia foi tão bem sucedida que se transformou na principal atração turística de Belém. A circulação de pessoas ultrapassa a marca de 1 milhão por ano, entre turistas e moradores da cidade. O projeto também ajudou a inspirar iniciativas semelhantes em outras cidades brasileiras, como os Armazéns do Porto, no Recife.

Mas, afinal, o que é tão imperdível assim na Estação das Docas? Resolvi criar essa lista com cinco coisas que sempre faço quando vou a Belém. Espero que as dicas sejam inspiradoras!

 

1) Tomar cerveja na Amazon Beer

Foto: Divulgação

Bem antes das cervejas artesanais virarem uma moda hypada, a Amazon Beer foi uma visionária. É um dos poucos estabelecimentos que está na Estação das Docas desde a inauguração. E trouxe para Belém a cultura de tomar um chope diferente daqueles que você encontra em todo canto.

A Amazon Beer produz oito tipos de cerveja, sendo seis delas com algum ingrediente regional na sua composição. A stout, por exemplo, é feita com açaí. A witbier, com taperebá (fruta que você talvez conheça como cajá na sua região). A red ale, com priprioca, uma raiz amazônica costumeiramente usada na indústria de cosméticos. Todas elas estão disponíveis em torneira e em garrafa (para tomar no bar ou levar para casa).

Unha de caranguejo for the win. Foto: Leonardo Aquino

Para acompanhar seu chopinho regional, a Amazon Beer tem um vasto cardápio de petiscos. Os campeões são a linguiça de metro e os pastéis de tacacá. Mas anote aí a dica esperta do Mochileza: unha de caranguejo. É um misto de bolinho e coxinha, recheado com carne desfiada e temperada de caranguejo. A da Amazon Beer é uma das melhores de Belém. Pode ir sem erro.

 

2) Fechar o cardápio de sorvetes da Cairu

Foto: Facebook/Cairu

A Cairu é outro top of mind entre as dicas de quem já conheceu Belém. É a sorveteria mais tradicional da cidade e tem como carro-chefe os sorvetes de frutas regionais. Algumas delas você já deve ter experimentado por aí, como açaí e cupuaçu. De outras você dificilmente ouviu falar, como uxi, sapotilha e muruci.

Há alguns sabores autorais com os ingredientes regionais que valem muito a pena. O carimbó, por exemplo, é um sorvete de castanha do pará com doce de cupuaçi. O paraense é açaí com farinha de tapioca.

Para quem quer fazer apostas seguras, a Cairu tem os clássicos. Chocolate, creme, frutas vermelhas e muitos outros. Mas vá por mim. Faça uma roleta russa do sorvete, escolha algum sabor pelo nome e faça uma experiência inédita para o seu paladar.

 

3) Fazer compras descoladas na Ná Figueredo

Foto: Facebook/Ná Figueredo

Ná Figueredo não é apenas um estabelecimento comercial. É uma marca que se confunde com a cena musical de Belém, com a realização de eventos e o lançamento de discos há quase 30 anos. O carro-chefe são as roupas e calçados, seja as criações próprias da loja ou peças de marcas como AMP, Blunt, Converse e Vans. Também há acessórios como brincos, anéis e pulseiras.

A música é outro ponto forte das prateleiras da Ná Figueredo. São centenas de discos e DVDs de artistas nacionais e internacionais, mas com destaque para músicos paraenses. Alguns deles foram lançados pelo selo da loja, o Ná Music.

Para conferir um pouco sobre o estilo da loja, confira a página da Ná Figueredo no Facebook.

 

4) Conhecer a orla de Belém num passeio de barco

Foto: Divulgação/Valeverde Turismo

Uma famosa canção de Paulo André Barata, compositor paraense, diz: “esse rio é minha rua”. A gente só se dá conta do sentido que ela faz quando conhece Belém e seus rios tão largos a ponto de não se ver a outra margem. Passear por esses caminhos fluviais é um grande programa para se fazer na cidade. E a Estação das Docas é um ponto de partida para vários roteiros desse tipo.

Na Estação, está localizado o trapiche da empresa Valeverde Turismo, que opera os passeios fluviais mais conhecidos de Belém. Numa embarcação tipicamente amazônica, os passageiros contemplam a natureza, a orla da cidade e ainda se entretêm com apresentações de música e danças regionais a bordo.

A Valeverde oferece sete tipos de passeios fluviais. Eles duram de 1h30 a 7h e alguns deles incluem refeições a bordo. Dá para ver as luzes da cidade no entardecer ou conhecer algumas das ilhas próximas a Belém. Nos passeios mais longos, é possível ter um contato bem próximo com a vida da população ribeirinha.

Confira no site da Valeverde os perfis de cada um dos passeios realizados pela empresa.

 

5) Pegar um cinema

Um dos espaços internos da Estação das Docas é o teatro Maria Sylvia Nunes. Nele, são realizados eventos públicos e privados. Mas a sala também recebe o projeto Cine Estação. A programação de cinema foge do circuito comercial e traz títulos alternativos ou clássicos de várias épocas. É comum ver na programação mostras temáticas e filmes que emplacaram em festivais internacionais.

Para acompanhar a programação do Cine Estação, confira a página da Estação das Docas no Facebook.

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Caudalosa América: a América do Sul a bordo de um carro

A América do Sul é um continente ao mesmo tempo familiar e estranho para nós, brasileiros. Estamos no mesmo território, mas falamos um idioma diferente do espanhol predominante. Além disso,…

A América do Sul é um continente ao mesmo tempo familiar e estranho para nós, brasileiros. Estamos no mesmo território, mas falamos um idioma diferente do espanhol predominante. Além disso, temos colonizações, origens e referências distintas de nossos vizinhos. Para completar, os principais destinos turísticos dos brasileiros em terras sul-americanas poucas vezes fogem de algumas capitais e uma ou outra estação de esqui.

O casal Arthur Chacon e Sophia Reis, de São Paulo, resolveu criar uma experiência pessoal para contrariar este estranho distanciamento. Eles decidiram pegar a estrada e viajar o continente inteiro num Land Rover. A expedição, que deve durar perto de um ano e meio, ganhou o nome de Caudalosa América. O casal tem compartilhado fotos e vídeos nas redes sociais, contando relatos inspiradores e apresentando lugares tão lindos quanto desconhecidos.

Foto: Sophia Reis

Arthur é historiador e faz pesquisas nas áreas de música e cultura popular brasileira. Sophia é jornalista, já trabalhou na TV Bandeirantes, na MTV e no canal por assinatura Multishow. Ela é filha do músico Nando Reis, ex-baixista dos Titãs e hoje em bem sucedida carreira solo.

A aventura dos dois com um financiamento coletivo na internet. Por meio de uma campanha de crowdfunding, Arthur e Sophia arrecadaram o dinheiro para transformar o Land Rover inteiro. Investiram na mecânica do carro para diminuir o risco de panes e fizeram várias adaptações funcionais. Um tanque de 40 litros para água abastece duas torneiras e um filtro. Uma bateria extra fornece energia para uma mini-geladeira e para tomadas que carregam celulares e computadores. Para completar, o casal equipou uma pequena cozinha com presentes de casamento.

“Além do conforto, isso gera economia. São raríssimas as vezes em que a gente compra água ou come em restaurante. Todos os serviços que uma casa oferece a gente conseguiu compactar dentro do nosso carro”, explica Arthur.

Foto: Arthur Chacon

Arthur e Sophia caíram na estrada de fato em fevereiro de 2016. Saíram de São Paulo rumo ao Rio Grande do Sul, por onde cruzaram a primeira fronteira. De lá, passaram pelo Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia. Um ano depois de iniciada a aventura, o casal já está de volta ao Brasil. Já passaram pelo Acre e por Rondônia e ainda devem andar um bocado pela região Norte.

A viagem tem um roteiro maleável. A princípio, ela deveria ter como destino final o Alasca. Mas, por conta dos altos custos, o casal decidiu ficar apenas do lado de cá do continente. “Era preciso atravessar com o carro da Colômbia para o Panamá e é uma das travessias mais caras do mundo. São cerca de 80km de distância e ia custar 1000 dólares. Então a gente desistiu. Não tinha como gastar essa grana. Achamos mais interessante investir numa continuação pela América do Sul”, conta Arthur.

O casal no bairro Candelaria, em Bogotá. Foto: Sophia Reis

A imersão no continente permitiu a eles desbravar facetas pouco conhecidas. A aventura passou por lugares turísticos (como Bogotá e Machu Picchu), mas também por vilarejos e pequenas cidades aparentemente sem apelo algum. “A gente não se orienta muito por guias de viagem. Nosso roteiro é baseado nos encontros que a viagem proporciona. O que faz a gente ficar no lugar é a experiência que a gente tem nele”, relembra Arthur. Assim, Arthur e Sophia conheceram festas religiosas, se hospedaram em escolas e até trabalharam numa agência de turismo para continuar bancando a viagem.

Um dos encontros mais marcantes aconteceu no Uruguai. O casal conheceu o ex-presidente e hoje senador uruguaio José Mujica. Pepe, como é conhecido, já era uma figura admirada pelos dois viajantes antes mesmo da expedição Caudalosa América começar. Mas ainda assim conseguiu surpreender aos dois. “Ele tem um conhecimento muito grande sobre a história sul-americana, além de uma visão muito integrada sobre tudo. Ele deu uma série de exemplos para dizer que a solução para o continente é a integração econômica, social, turística e isso passa pela educação. A luta dele hoje passa muito pela educação e isso nos chamou muito a atenção”, conta Arthur.

Após a entrevista com Pepe Mujica. Foto: Sophia Reis

Inclusive foi Pepe Mujica quem batizou a companheira de viagem do casal: uma gata que foi resgatada ainda no Sul do Brasil. “Nós tínhamos acabado de descobrir que era fêmea quando fomos entrevistá-lo e ela ainda não tinha nome. Pedimos a ele que desse o nome, ele olho nos olhos dela e falou: Catalina”, conta Arthur. Catalina segue como passageira VIP do Land Rover e estrela algumas fotos nas redes sociais do Caudalosa América.

Catalina, super bem instalada no Land Rover. Foto: Sophia Reis

 

E os lugares favoritos?

A cratera no vulcão Quilotoa, no Equador, virou um lago. Foto: Sophia Reis

Arthur e Sophia estiveram em alguns dos lugares mais bonitos do continente sul-americano. O deserto do Atacama, no Chile. A praia de Cabo Polonio, no Uruguai. As ruínas incas de Machu Picchu, no Peru. Mas as três paisagens mais marcantes para os aventureiros da Caudalosa América são outras.

Em primeiro lugar, o Vale Sagrado, no Peru. A região, que já foi habitada pelos incas, possui vários monumentos arqueológicos e povoados indígenas. “Ele tem uma fertilidade, uma riqueza de água, de plantação, de animais. Além disso, ele é um polo cultural muito forte com a tecelagem”, explica Arthur. O vale compreende diversas cidades às margens do rio Urubamba, ao norte de Cusco.

Vale Sagrado, no Peru. Foto: Sophia Reis

A segunda paisagem mais marcante citada pelo casal da Caudalosa América é o vulcão Chimborazo, no Equador. “Ele tem uma magnitude absurda. A gente deu muita sorte porque ele não estava encoberto por nuvens. A gente passou uma noite aos pés do Chimborazo, ele é de tirar o fôlego”, conta. O vulcão tem 6.268 metros de altitude e fica a cerca de 180 quilômetros ao sul da capital Quito.

Vulcão Chimborazo, no Equador. Foto: Sophia Reis

Completando o pódio, o Salar de Uyuni, na Bolívia. É a maior planície de sal do mundo, com mais de 10 mil quilômetros quadrados. Um lugar para contemplar a imensidão do continente e desejar conhecer cada cantinho dele.

Salar de Uyuni. Foto: Sophia Reis

 

E os perrengues?

Foto: Arthur Chacon

Uma viagem tão longa de carro não consegue escapar de imprevistos. Para Arthur e Sophia, o pior deles aconteceu na Ruta 40, uma famosa estrada argentina que percorre o país de norte a sul. O casal dirigia próximo ao Abra Del Acay, um ponto na província de Salta onde a rodovia atinge sua maior altitude: 4.895 metros acima do nível do mar. “Já era de noite, fazia muito frio, a gente estava congelando e o carro forçou muito”, relembra Arthur. O catalisador, que é uma peça que fica dentro do escapamento do veículo entupiu. O calor do motor e a pressão fizeram com que um pequeno incêndio ocorresse.

“A gente estava dirigindo à noite e, de repente, olhou para trás e viu um fogo saindo do carro”, conta Arthur, totalmente refeito do susto. A solução foi entrar em contato via Whatsapp com um mecânico amigo que virou o anjo do momento mais difícil da viagem. “Ele falou que era preciso soltar um parafuso. A gente soltou um errado primeiro, depois soltou o certo. Fomos até a cidade de Salta rodando sem poder passar de 40 km/h. E a cada meia hora, parávamos para ver se o carro não estava incendiando de novo”, relembra. “Mas de momentos como este você sai mega fortalecido. De perrengue em perrengue, você toma confiança para seguir viagem”, completa.

 

E os próximos passos?

Cruzando a fronteira da Bolívia com o Acre. Foto: Sophia Reis

De volta ao Brasil, a Caudalosa América pretende manter o espírito da viagem. Conhecer tradições e cenas urbanas, história e pautas incandescentes, personagens e circuitos alternativos. A Região Norte, por onde esse retorno começou, tem proporcionado vivências surpreendentes aos dois. O casal chegou ao Norte pelo Acre e, enquanto deu a entrevista para o Mochileza, estava prestes a embarcar numa balsa para sair de Rondônia rumo ao Amazonas.

“A Região Norte era um lugar que a gente pesquisou pouco e não tinha muita expectativa. Rio Branco surpreendeu muito a gente pela organização e pela relação muito próxima com a própria cultura. Porto Velho, onde a gente está agora, não só nos surpreendeu como nos absorveu por uma semana. Primeiro pela hospitalidade das pessoas. Também chamou a atenção também a juventude empenhada em gerar um impacto cultural e político muito interessante”, conta Arthur.

Depois do Amazonas, o casal da Caudalosa América pretende rumar para o Pará (onde pretendem passar o carnaval) e seguir por Maranhão, Piauí, Ceará, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. A aventura deve terminar em junho de 2017, com um projeto que ainda está amadurecendo.

“A gente quer coletar todos os registros. Entrevistas, vídeos, textos, coisas postadas na internet e fotos. A ideia é elaborar um livro. A gente ainda não sabe o formato que ele vai ter. Mas certamente a gente vai transmitir de forma muito passional toda a nossa aventura chamada Caudalosa América”, adianta Arthur.

Quer conhecer mais o Caudalosa América? Eles vão passar pela sua região? Quer dar alguma dica bacana para o Arthur e para a Sophia? O site deles é http://www.caudalosaamerica.com/ (onde estão todos os links para redes sociais) e o e-mail é [email protected]

 

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La Plata: a capital desconhecida da arquitetura

Buenos Aires? Gostamos. Mas já deixamos bem claro aqui no site que a repetição dos passeios clássicos pela cidade não merece nosso troféu joinha. Dá para ir muito além do…

Buenos Aires? Gostamos. Mas já deixamos bem claro aqui no site que a repetição dos passeios clássicos pela cidade não merece nosso troféu joinha. Dá para ir muito além do combo Caminito + show de Tango + compras na Calle Florida + jantar no Puerto Madero. E nas infinitas possibilidades que a capital argentina proporciona, tem a de um bate-volta interessantíssimo: La Plata.

Vai parecer estranho: a capital da província de Buenos Aires não é Buenos Aires. E sim La Plata. É que Bs As tem o status de distrito federal autônomo (assim como Brasília por aqui) desde que se transformou em capital do país em 1880. O governador na época, Dardo Rocha, decidiu construir uma nova sede administrativa para a província, a 60 quilômetros de Buenos Aires. E então convidou o engenheiro Pedro Benoit para desenhar a nova cidade.

O fato de La Plata ser uma cidade planejada é uma atração por si só. Seus quarteirões são quadrados perfeitos e alguns deles são cortados por grandes avenidas diagonais que conectam as principais praças. As ruas são identificadas por números e isso confunde um bocado o turista de primeira viagem. Mas se eu não me perdi na época em que não existia internet móvel, não é hoje que você vai se perder por lá.

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Fui a La Plata duas vezes. A primeira em abril de 2008 e a segunda em novembro de 2010. Em ambas as viagens, percebi o quanto a arquitetura é a principal atração da cidade. La Plata se comunica com seus moradores e visitantes por meio de suas linhas, projetos e fachadas.

Catedral de La Plata

E o centro exato do mapa é o principal cartão postal da cidade planejada. A imponente Catedral de La Plata faz você se sentir rapidamente no interior da Alemanha. É a primeira igreja de estilo neogótico construída na América do Sul e é inspirada na catedrais de Colônia (Alemanha) e Amiens (França). Tem duas torres enormes, com 112 metros de altura.

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Um projeto tão imponente quanto este não foi erguido da noite para o dia. A construção começou em 1884 e teve uma inauguração oficial em 1932, data que marcou os 50 anos de fundação de La Plata. Mas as torres só foram concluídas em 1999, fazendo com que a Catedral completasse 115 anos de trabalho em progresso até ganhar suas formas atuais.

Além das torres, a fachada tem imagens religiosas que oscilam entre três e quatro metros de altura. A cada zoom na câmera, você pega um detalhe que não tinha notado. Dentro da igreja, um museu conta como foi o processo de construção secular. Outro passeio imperdível é subir aos mirantes das torres e ter uma vista panorâmica da cidade. São três visitas guiadas por dia (11h, 14h30 e 16h) de terça a sexta. Informações no site da Catedral: http://www.catedraldelaplata.com/

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Detalhe de uma das torres vista a partir do mirante da outra

Palácio Municipal

Mais um belo exemplar de arquitetura está exatamente em frente à Catedral. Separado do templo gótico apenas pela Plaza Moreno está o Palácio Municipal. Quando a cidade foi fundada, o edifício foi tema de um concurso internacional de projetos. O vencedor foi o do arquiteto alemão Uberto Stier, que deu ao palácio um estilo renascentista na fachada. Do lado de dentro, ele tem jardins, escadas de mármore e referências romanas, francesas e gregas.

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O Palácio Municipal de La Plata visto a partir do mirante da torre da Catedral

Museo de La Plata

Outra obra que é da época da fundação da cidade e segue imponente é o Museo de La Plata. É um museu de ciência e história natural que abriu suas portas em 1888. Do lado de fora, um estilo arquitetônico neoclássico, que faz do museu um monumento histórico nacional. Do lado de dentro, uma coleção de mais de 3,5 milhões de itens nas áreas de geologia, biologia, paleontologia, antropologia e arquivo histórico.

Foto: site oficial Museo de La Plata

Foto: site oficial Museo de La Plata

O museu abre o ano inteiro de terça a domingo, das 10 às 18h. Terça-feira é dia de entrada gratuita. Menores de 12 anos e aposentados não pagam entrada em dia nenhum. Mais informações no site do museu: http://www.museo.fcnym.unlp.edu.ar

Casa Curuchet

Uma obra mais contemporânea que faz de La Plata uma cidade ímpar é a Casa Curutchet. Trata-se do único projeto com a assinatura do franco-suíço Le Corbusier em toda a América Latina. Obedece aos cinco pontos da Nova Arquitetura, elaborados por ele: planta livre, fachada livre, pilotis, terraço jardim e janelas em fita.

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A casa foi encomendada pelo médico Pedro Curutchet a Le Corbusier em 1948. Em 1987, foi declarada Monumento Histórico Nacional. E hoje abriga a sede do Colégio de Arquitetos da Província de Buenos Aires. Há alguns anos, foi cenário de um dos melhores filmes latino-americanos deste início de século: “O Homem Ao Lado”, de Gastón Duprat e Mariano Cohn.

A Casa Curutchet é aberta a visitantes. Para informações, acesse o site: http://www.capba.org.ar/curutchet/casa-curutchet-presentacion.htm

República de los Niños

Mas se a conversa sobre arquitetura parece pesada demais para você, La Plata também tem opção: a República de los Niños. É o primeiro parque temático da América Latina, inaugurado em 1951. E reza a lenda que inspirou Walt Disney a criar seus mundialmente famosos parques nos Estados Unidos.

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Foto: Facebook/República de Los Niños

A República é uma cidade em miniatura, feita numa escala para ficar proporcional à altura de crianças de dez anos. Há vários ambientes temáticos, como um centro cívico, um banco municipal e áreas rurais e esportivas. Apesar de ser uma das primeiras atrações que vão lhe recomendar, ultimamente a República anda carecendo de cuidado. Em fevereiro de 2016, um trem descarrilou no parque e feriu 16 pessoas. O acidente evidenciou problemas de manutenção no parque, como conta esta reportagem do jornal argentino La Nación.

Informações sobre horários de visita você confere no site da República de Los Niños: http://www.republica.laplata.gov.ar/

Futebol em La Plata

O que também não dá para ignorar em La Plata é a tradição futebolística. Há dois grandes clubes na cidade. De pelo menos um deles você já deve ter ouvido falar: o Estudiantes, que conquistou quatro vezes a Libertadores e uma vez o Mundial de Clubes. O outro é o Gimnasia y Esgrima La Plata, que não tem o mesmo currículo vencedor. Nunca foi campeão argentino na era do profissionalismo e já andou pela segunda divisão algumas vezes.

O símbolo do Estudiantes em um muro de La Plata

O símbolo do Estudiantes em um muro de La Plata

Mas eu curti mesmo foi o lema da torcida do Gimnasia

Mas eu curti mesmo foi o lema da torcida do Gimnasia

Os dois rivais dividem o recém-reformado Estádio Único Ciudad de La Plata. Construído em 2003 e remodelado para a Copa América de 2011, a arena é a mais moderna do país. É o primeiro estádio coberto da América Latina e, além dos jogos de futebol, tem recebido também grandes shows internacionais. Rolling Stones, U2, Foo Fighters e Britney Spears foram alguns dos nomes que já se apresentaram por lá.

Foto: Secretaria Geral de Governo da Província de Buenos Aires

Foto: Secretaria Geral de Governo da Província de Buenos Aires

Como chegar em La Plata a partir de Buenos Aires???

A forma mais fácil é pegar o ônibus 129, que passa em vários pontos da Avenida 9 de Julio, a principal da capital argentina. Você vai identifica-lo pela cor: ele é todo vermelho. A passagem pode ser paga com o cartão SUBE e você desce na rodoviária de La Plata. O trajeto dura cerca de uma hora.

Para uma viagem mais pitoresca, pegue um trem na estação Constitución do metrô de Buenos Aires. A jornada dura um pouco mais: 1h30. Os trens saem a cada 30 minutos e a tabela completa de horários você confere neste site: http://www.trenroca.com.ar/horarios/constitucion-la-plata-lunes-a-viernes.php

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Dica de passagem barata: Recife-Belém por R$ 600 ida e volta

Já expliquei em alguns posts que nasci em Belém e moro no Recife há cinco anos. Por isso, procurar passagens nesta rota é uma das coisas que mais faço desde…

Já expliquei em alguns posts que nasci em Belém e moro no Recife há cinco anos. Por isso, procurar passagens nesta rota é uma das coisas que mais faço desde então. Numa dessas buscas, encontrei uma oferta que pode ser a grande dica de passagem barata para as suas festas de fim de ano ou férias de janeiro. Ela custa R$ 600 reais ida e volta entre Recife e Belém + as taxas!

Pelo que pude entender, a Gol criou um voo direto entre as duas capitais para os meses de dezembro e janeiro. É algo comum entre as companhias aéreas. Fazer trechos específicos durante um determinado período do ano para atender alguma grande demanda. É por isso, por exemplo, que praticamente só há voos diretos do Brasil a Bariloche em julho.

Pois bem… O voo direto entre Recife e Belém dura duas horas e meia. Ele sai do Recife às 22h e chega em Belém à 0h30. Na volta, ele sai de Belém à 1h e chega no Recife às 3h30. Um voo razoavelmente curto entre duas cidades bem legais!

 

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A rota Recife-Belém é atendida por apenas um voo direto ao longo do ano inteiro: o da Azul. Ele foi inaugurado quando a companhia decidiu criar um hub na capital pernambucana. Quando esse voo foi lançado, a Azul tinha preços bem competitivos: R$ 500, ida e volta. Mas, hoje em dia, é praticamente impossível encontrar passagem barata. Cada trecho sai por pelo menos R$ 500 na promoção. Ainda mais em meses de alta temporada.

Por isso, a oferta “quietinha” da Gol é bem interessante para quem mora numa dessas cidades e quer conhecer a outra. É possível encontrar este valor de R$ 600 ida e volta até mesmo para o Natal e o Ano Novo. Quem for a Belém, pode aproveitar as dicas do Mochileza e também conhecer a Ilha de Marajó. Quem for ao Recife, além das sugestões que já demos aqui, pode curtir as belas praias do litoral sul pernambucano, como Porto de Galinhas, Tamandaré, Carneiros e Serrambi.

Anote aí as datas em que encontrei a passagem barata de R$ 300 o trecho:

Recife-Belém

Dezembro – 14, 17, 18, 19, 20, 21, 25, 26, 27, 28 e 29

Janeiro – 01, 04, 05, 09, 10, 11, 12, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 21, 22, 23, 25, 26, 28, 29, 30

Belém-Recife

Dezembro – 15, 16, 18, 22, 26, 28, 29 e 30

Janeiro – 02, 03, 04, 05, 06, 08, 09, 10, 11, 12, 13, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 22, 23, 24, 26, 27, 29, 30 e 31

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Com as taxas de embarque, o preço final da passagem fica R$ 655,36

Veja a diferença de preços entre Gol e Azul no Natal: quase 100%

Veja a diferença de preços entre Gol e Azul no Natal: quase 100%

No Ano Novo, é a mesma coisa: a Gol tá cobrando quase a metade da Azul

No Ano Novo, é a mesma coisa: a Gol tá cobrando quase a metade da Azul

Para quem nunca foi a nenhuma das duas cidades, uma estadia de quatro a cinco dias é suficiente para ver bastante coisa. Caso você pense em emendar o passeio ao Marajó ou ao litoral sul pernambucano, coloque pelo menos mais três dias.

Boa sorte na compra da passagem e boa viagem! 😀

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