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Como Felipe viajou o Egito inteiro fazendo intercâmbio social

Pensar em viagem de intercâmbio geralmente leva a algumas ideias bem formatadas. O pacote padrão inclui morar na casa de uma família, estudar o idioma numa escola destinada a estrangeiros…

Pensar em viagem de intercâmbio geralmente leva a algumas ideias bem formatadas. O pacote padrão inclui morar na casa de uma família, estudar o idioma numa escola destinada a estrangeiros e se divertir no tempo que sobra. Mas o que fazer quando você quer extrair um pouco mais dessa experiência? Que tal conhecer um lado do mundo que não costuma ser vivenciado nos intercâmbios tradicionais? Talvez seja interessante para você conhecer o intercâmbio social.

O intercâmbio social é uma tendência recente e crescente. É baseado em trabalho voluntário, mas um pouco diferente da experiência da mochileira Luna que contamos neste post. Assim como nos intercâmbios tradicionais, existe uma agência que intermedia a viagem, que oferece assistência no país de destino e que organiza os projetos em forma de pacotes. Mas, em vez do estudo do idioma, o foco é outro tipo de imersão: o apoio para o cumprimento das metas globais de desenvolvimento sustentável em países subdesenvolvidos.

O que é intercâmbio social?

A gente vai destrinchar para você o que é intercâmbio social com base na experiência do Felipe Balota. Ele tem 28 anos, é engenheiro de alimentos numa multinacional, mora em Campinas e passou quatro semanas no Egito em agosto de 2016. Felipe participou do programa Cidadão Global da AIESEC, uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo a formação de lideranças jovens ao redor do mundo. O projeto no Egito foi a terceira experiência desse tipo que Felipe viveu.

“Trabalhei na Eslovênia em 2014, dando aulas de cultura brasileira para alunos de terceira a nona série. E em 2015 participei de um projeto de empreendedorismo social na Indonésia numa espécie de ‘jogo de empresas’ entre escolas públicas. Escolhi o Egito desta vez porque queria fazer o intercâmbio social num continente diferente, queria fugir do eixo cultural-educacional e também procurava um projeto que me deixasse mais solto para explorar a cidade”, explica.

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Zerando o Egito

Felipe participou do Explore Egypt, um projeto de turismo para ajudar o Egito a atingir uma das metas globais da ONU: melhorar os índices de emprego e crescimento econômico. O turismo é uma das principais atividades que sustentam a economia egípcia. Mas, segundo Felipe, tem sido comprometido por conflitos como os que levaram à Primavera Árabe de 2011: as tensões religiosas e uma ditadura que só foi derrubada depois de 30 anos.

“A ideia do projeto era tentar recuperar o turismo, viajando pelas 12 cidades mais turísticas do país e mostrando isso para o mundo. No edital do projeto, era citado um blog para mantermos depoimentos, fotos e vídeos. Assim, tentaríamos dar um impulso no interesse pelo Egito”, conta Felipe.

Mas aí você pode se perguntar: em quatro semanas deu para conhecer todo o país?

Zerei o Egito”, responde Felipe, brincando. Ele passou pelas seguintes cidades: Cairo, Gizé, Damieta, Porto Said, Ras El-Bar, Sharm el-Sheikh, Dahab, Sinai do Sul, Alexandria, Luxor, Aswan, 6 de Outubro, Mansura e Porto Sokhna.

Ufa!

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Nem tudo são flores…

Felipe aponta que, por mais que tenha sido uma viagem extensa, o projeto não saiu tão bem quanto o esperado. “Foi bonito na teoria, mas nem tanto na prática. A unidade da AIESEC que me recebeu no Egito era bem desorganizada. Não existiu blog e as viagens foram muito mal planejadas”, relata.

Por outro lado, Felipe reforçou a impressão que já tinha das outras viagens que fez nos anos anteriores. “Para mim, o intercâmbio social é o melhor jeito possível de viajar. A intensidade é diferente e o propósito final não é financeiro. Então você enriquece em outros aspectos. Quando você trabalha, mesmo que voluntariamente, você mergulha na cultura, convive com várias gerações e consegue voltar para casa com um olhar mais crítico”, explica.

Não faltou matéria-prima para que Felipe aprimorasse essa sintonia no olhar de viajante durante o intercâmbio social. O Egito é um dos maiores países islâmicos do continente africano. São mais de 70 milhões de muçulmanos, o equivalente a 85% da população. As quatro semanas por lá foram suficientes para ter noção da interferência religiosa nos cidadãos. “Eles são conformados com a situação econômica e social do país. Para qualquer questionamento, a resposta é igual: o Egito é assim mesmo, não tem o que fazer. A parte mais triste é que os jovens não se esforçam para tentar fazer diferente em nenhum aspecto”, conta.

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Ficou interessado em fazer um intercâmbio social semelhante ao do Felipe no Egito? Então passe no site do programa Cidadão Global da AIESEC. Há oportunidades na América Latina, Ásia, África, Leste Europeu e no Mundo Árabe. Pelo site, também é possível descobrir se há um escritório da AIESEC na sua cidade: http://aiesec.org.br/estudantes/cidadao-global/

Top 5 passeios no Egito – por Felipe Balota

O intercâmbio do Felipe teve trabalho, mas também teve passeios. Afinal de contas, o cara diz que zerou o Egito! Então a gente propôs a ele que enumerasse os cinco programas mais legais que fez por lá. Assim, você pode pautar a sua viagem mesmo que não seja num intercâmbio social. Saque as dicas:

 

1. Monte Sinai

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Segundo a Bíblia, é o local onde Moisés cunhou a tábua dos Dez Mandamentos seguindo a orientação de Deus. Mas também foi local de passagem de profetas das outras duas grandes religiões monoteístas atuais: judaísmo e islamismo. O monte fica na Península de Sinai, a única parte do território egípcio que fica na Ásia e é banhada pelo Mar Mediterrâneo ao norte e pelo Mar Vermelho ao sul.

Para chegar ao Monte Sinai, o ponto de partida mais comum é a cidade de Taba, na fronteira do Egito com Israel. A partir de lá, são 182 km de estrada. E é apenas o começo… Para subir os quase 2300 metros de altitude, há uma escada com 4 mil degraus. A caminhada dura cerca de três horas. Muita gente enfrenta o frio para fazer essa peregrinação durante a madrugada e chegar ao topo antes dos primeiros raios da manhã. “É o nascer do sol mais incrível que já vi na vida”, relata Felipe.

 

2. Pirâmides de Gizé

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Com mais de 4500 anos desde que foram erguidas, as pirâmides do Egito representam a única maravilha do mundo antigo que continua de pé. O imaginário clássico do imenso deserto ao redor das pirâmides está ficando cada vez mais distante da realidade. Isso porque a urbanização cresceu demais ao redor delas. Além do mais, o movimento de ônibus, excursões, turistas e vendedores ambulantes fazem com que o passeio tenha um nível alto no grau de irritabilidade. Mesmo assim, dar de cara com as gigantes milenares de pedra é inesquecível. “Cartão postal clássico e imperdível. Fiquei sem palavras”, conta Felipe.

3. Cruzeiro pelo Rio Nilo

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

O segundo maior do mundo está presente em vários capítulos dos livros de História, inspirou obras da literatura, da música e do cinema. Hoje, pode ser conhecido pelos turistas em alto estilo. Navios de vários padrões e preços percorrem grande parte dos quase 7 mil quilômetros de extensão do Nilo. A bordo, têm alojamentos, bares, restaurantes, terraços com piscina e conforto proporcional ao preço que se paga.

Felipe Balota, nosso personagem do post, fez um cruzeiro de três dias entre as cidades de Luxor e Aswan. Vejam o relato dele:

“Durante a travessia, você vai parar em uns 8 templos, cada um com sua particularidade, todos sensacionais! É indispensável a presença de um guia local que fale inglês pra que você aproveite a experiência ao máximo. Na lista de paradas você encontra o Vale dos Reis, local escolhido por algumas dinastias de faraós como local para construírem suas tumbas. Lá já foram encontradas 63, a última em 2005”.

 

4. Buraco Azul em Dahab

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Quem acha que o Egito só tem pirâmides, camelos e faraós vai ter uma surpresa em tanto se conhecer Dahab. A cidade fica na península do Sinai e é um destino muito turístico, bem servido de opções para viajantes de todos os bolsos. É uma vila à beira mar e um dos carros-chefes é a prática de esportes aquáticos de aventura, como windsurf e kitesurf. “A cidade lembra muito Paraty e Trindade”, explica Felipe.

Mas a maior pedida é o Buraco Azul, que fica alguns quilômetros ao norte do centro da vila. Buracos azuis são formados em áreas costeiras que ficavam acima do nível do mar há alguns milhares de anos. O de Dahab tem 130 metros de profundidade e, dizem, é um dos mais perigosos do mundo. Mesmo assim, há passeios de mergulho por lá para iniciantes e iniciados. Leve sua câmera à prova d’água.

 

5. Biblioteca de Alexandria

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

A biblioteca que está de pé hoje às margens do Mar Mediterrâneo não é a mesma que surgiu nos primeiros séculos do calendário cristão. No entanto, impressiona pelo tamanho (capacidade para armazenar 8 milhões de livros) e pela modernidade do projeto, inaugurado em 2002. A biblioteca original tinha o objetivo de difundir o conhecimento produzido pelos gregos para o Oriente. Hoje, funciona junto à Universidade de Alexandria e recebe mais de um milhão e meio de visitantes por anos. “A cidade de Alexandria também não deixa a desejar, bem moderna e tem outros pontos turísticos pra se visitar”, acrescenta Felipe.

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Aula de culinária no Marrocos: conhecendo o país pela cozinha

Você pode discordar de mim, mas acho que o melhor jeito de conhecer um país é a gastronomia. Saber como um povo come tem mil coisas embutidas. A história, a…

Você pode discordar de mim, mas acho que o melhor jeito de conhecer um país é a gastronomia. Saber como um povo come tem mil coisas embutidas. A história, a colonização, os fluxos migratórios, a miscigenação, a natureza, os costumes e muito mais. Portanto, quando Janaína e eu fizemos nossa viagem de férias em abril de 2016, não tivemos dúvida. Uma aula de culinária no Marrocos deveria estar no roteiro.

Como já expliquei neste post anterior, tivemos apenas quatro dias no Marrocos. Portanto, o tempo era bem apertado para visitar mais de uma cidade. Escolhemos Fez, que é apontada por muitos guias (inclusive o Lonely Planet) como a capital cultural do país. Além disso, seguimos a recomendação de amigos que já estiveram por lá.

Antes de você planejar uma ida a Fez, é fundamental dizer: a malha aérea da cidade é muito restrita. Pelo que contei no aeroporto, são cerca de 15 voos por dia. Muito menos do que Casablanca, o principal hub do país. Portanto, chegar até lá pode demorar um bocado. Nós, por exemplo, saímos de Tenerife e ficamos cerca de 5 horas aguardando conexão em Casablanca até embarcar para Fez. Portanto, minha dica é: tenha paciência porque vale a pena.

Pois bem, somos apaixonados por comer, a Janaína adora cozinhar e sempre fomos instigados com a comida marroquina. Portanto, procurar uma aula de culinária no Marrocos fez parte do princípio do planejamento da viagem para lá.

Em Fez, as aulas mais bem recomendadas são as do Café Clock. Pelo site você já consegue ver que é um lugar apaixonante. Além de Fez, ele tem uma filial em Marrakech. Ambas são uma boa mistura das tradições marroquinas com uma roupagem contemporânea. O Clock oferece três tipos de aula de um dia: culinária marroquina tradicional, panificação e doceria. Mas o que nos afastou de lá foi o preço: 600 dirham por pessoa. O equivalente a 55 euros.

O simpático terraço do Café Clock de Fez

O simpático terraço do Café Clock de Fez

Fuçando um pouco mais (obrigado por existirem, Google e Trip Advisor!), chegamos a uma agência chamada Fez Guide. É uma agência local que faz city tours, organiza excursões para o deserto e também passeios temáticos: cidades históricas, fotografia e artesanato por exemplo. O curso de um dia por esta agência custou 36 euros por pessoa. Ou seja, uma economia de 38 euros para nós dois, praticamente pela mesma aula de culinária no Marrocos.

Não sei se a aula do Café Clock é melhor, mas a que tivemos pelo Fez Guide foi excelente. E o programa é basicamente o mesmo. O Abdul, instrutor do curso, foi nos buscar no riad onde estávamos hospedados. Como a pousada ficava dentro da medina (o bairro antigo de Fez), a aula já começou praticamente no instante em que colocamos o pé fora da porta. Caminhamos pelos souks (como os mercados são chamados por lá) e fomos escolher os ingredientes.

Os souks marroquinos

Os souks marroquinos

Paramos em várias barraquinhas que o Abdul já conhecia e então compramos: berinjelas, tomates, cebolas, carne e temperos. Os temperos no Marrocos são coisa de maluco: você anda pelas vielas da medina e já sente aquele aroma delicioso de especiarias. Já a carne tem um detalhe meio bizarro. A carne de camelo é bastante consumida no país e muitas barracas a vendem com um atrativo um pouco asqueroso: a cabeça do camelo pendurada.

Isso aqui realmente não foi legal

Isso aqui realmente não foi legal

Mas a carne que compramos foi bovina mesmo (até onde sabemos, hehehe).

Quando terminamos as compras, fomos para um riad diferente do nosso. Lá, fomos recebidos muito gentilmente pela dona, uma tailandesa que virou uma espécie de co-anfitriã da nossa aula de culinária no Marrocos. Ela cedeu a cozinha ao Abdul para que nos mostrasse o passo a passo de duas receitas bem tradicionais: a salada marroquina e o tajine de carne.

Janaína e Abdul na cozinha do riad

Janaína e Abdul na cozinha do riad

A salada marroquina é um troço fora de série. Ela tem o aspecto semelhante ao de um molho de tomate e é comida com pão. Ela tem dois segredos. O primeiro é que o tomate é ralado, e não picado. Assim, a pele fica toda do lado de fora e apenas a polpa é cozida. O segundo é a forma de pré-cozimento da berinjela. Ela é levada inteira diretamente à boca do fogão. Assim fica mais fácil de descascá-la depois e ela ainda fica com um gostinho meio queimado, meio defumado.

Salada marroquina on the way

Salada marroquina on the way

O tajine é uma espécie de cozido à marroquina. A diferença principal está na panela, que informalmente batizamos de tajineira. Ela é feita de cerâmica e tem uma tampa alta e pontuda. Se for para escolher uma equivalente brasileira, eu apontaria a panela em que se faz moquecas de peixe. Pois bem: levamos à panela a carne, cebolas cortadas e os temperos, especialmente o açafrão. Por isso, a comida fica com um aspecto levemente amarelado.

Tajine de carne fervendo na tajineira

Tajine de carne fervendo na tajineira e a salada marroquina do lado de cá

Já parecia bom o suficiente, mas ainda havia o toque final: o molho agridoce do tajine. À parte da tajineira, aprendemos a fazer uma calda de ameixa. Leva-se ao fogo ameixas secas, um pouco de água, manteiga e açúcar. Essa calda é misturada na carne depois do cozimento. Não sei vocês, mas eu sou alucinado por esses molhos doces. E confiem em mim: o sabor da ameixa com o açafrão é um troço espetacular.

O banquete completo

O banquete completo

Nossa aula de culinária no Marrocos terminou com o resultado prático sendo saboreado por nós. No restaurante do riad, pudemos dizer que preparamos nossa própria comida. A experiência foi diferente de tudo o que já tínhamos vivido em termos de gastronomia. Não só por se tratar de uma cozinha exótica, mas por ter participado passo a passo desde o começo.

Já repetimos a receita uma vez na volta ao Brasil e garanto a vocês: a Janaína lembra de tudo direitinho. Eu, por outro lado, acho que escrevo melhor do que cozinho…

Abdul, nosso professor marroquino de culinária

Abdul, nosso professor marroquino de culinária

Nossa co-anfitriã tailandesa, cujo nome cometi o vacilo de não perguntar

Nossa co-anfitriã tailandesa, cujo nome cometi o vacilo de não perguntar

Serviço

O site da Fez Guide é bem completinho. Mostra todos os passeios disponíveis e todos os contatos. Não sei como são os city tours deles, mas recomendamos fortemente a aula de culinária. Talvez tenha sido o momento em que nos sentimos totalmente livres dos perrengues (que já relatei neste outro post). Também contratamos deles o serviço de transfer do aeroporto, que custou 11 euros (mais barato que um táxi).

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Volta ao mundo pelos países que não existem

A volta ao mundo pode não ser o suficiente para algumas almas viajantes. Veja o caso de Guilherme Canever. O engenheiro florestal fazia uma viagem ao redor do planeta em…

A volta ao mundo pode não ser o suficiente para algumas almas viajantes. Veja o caso de Guilherme Canever. O engenheiro florestal fazia uma viagem ao redor do planeta em 2009 quando conheceu a Somalilândia, um país que não está nos atlas ou nos almanaques. A partir daí, teve o estalo: quantos outros países e regiões vivem sob a mesma condição? Autonomia política, moeda própria, exército nacional, visto específico para a entrada, mas sem o reconhecimento da comunidade internacional. Nascia ali a ideia de um projeto que o acompanhou nos anos seguintes e virou um livro lançado em agosto de 2016.

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“Uma Viagem Pelos Países Que Não Existem” (editora Pulp, 192 páginas) traz uma pauta surpreendente em vários aspectos. O principal é apresentar dez regiões não reconhecidas como países pelas Nações Unidas. São regiões autônomas, territórios disputados por mais de uma nação e repúblicas que têm um futuro duvidoso sobre uma possível anexação a outro país. Portanto, não “existem” oficialmente, dependendo do referencial que você consulta.

Entre essas regiões, além da Somalilândia, estão nomes familiares como Taiwan, Kosovo e Palestina, que, por exemplo, tiveram delegações nos Jogos Olímpicos do Rio 2016. Mas há também outros menos conhecidos como Transnístria, Abecásia e Ossétia do Sul. Outra grande surpresa é que vários desses “não-países” possuem belezas naturais, patrimônio arquitetônico e sítios arqueológicos que poderiam ser grandes atrações turísticas, mas acabam sendo tesouros escondidos da rota comum de viajantes.

O palácio presidencial da República da Transístria. Foto: Guilherme Canever

O palácio presidencial da República da Transístria. Foto: Guilherme Canever

Entrada de um jardim botânico na Abecásia. Foto: Guilherme Canever

Entrada de um jardim botânico na Abecásia. Foto: Guilherme Canever

Trocar dinheiro na Somalilândia não parece ser algo assim muito formal. Foto: Guilherme Canever

Trocar dinheiro na Somalilândia não parece ser algo assim muito formal. Foto: Guilherme Canever

As viagens relatadas no livro foram realizadas em várias etapas entre 2009 e 2014. Guilherme fez uma imersão não só nas paisagens desses países, como também em aspectos culturais, sociais, políticos e diplomáticos. “Muitos países são completamente diferentes entre si. Todos eles conseguiram independência através de guerras. Então na maioria deles ainda existe uma forte presença militar”, conta Guilherme. “Os que são reconhecidos por poucos países sofrem com a falta de ajuda externa e investimentos. É um jogo geopolítico, e a aliança com algum país pode significar a sanção de outro”, completa.

Ministério das Relações Exteriores da República de Nagorno Karabakh. Foto: Guilherme Kanever

Ministério das Relações Exteriores da República de Nagorno Karabakh. Foto: Guilherme Kanever

Bases militares são comuns no Saara Ocidental. Foto: Guilherme Canever

Bases militares são comuns no Saara Ocidental. Foto: Guilherme Canever

Essas alianças diplomáticas fazem a diferença na hora de cruzar a fronteira. Em regiões amplamente reconhecidas por Estados membros da ONU, como Kosovo e Palestina, brasileiros não precisam de visto de entrada. Mas há casos bem diferentes, como o da Abecásia, uma república que pertence à Geórgia e é reconhecida como independente por apenas 7 Estados (sendo 3 não membros da ONU). Para entrar na Abecásia, é necessário solicitar uma autorização por e-mail.

Em meio a tantas andanças, deu pra ver de tudo. Na Transnístria, por exemplo, Guilherme conheceu uma espécie de pedaço da União Soviética que sobreviveu: estátua de Lênin em praça pública, o símbolo da foice e martelo por todas as partes e memoriais de guerra. Na Somalilândia, pinturas rupestres com mais de 5 mil anos descobertas apenas em 2003. E no Chipre do Norte, vários sítios arqueológicos, monastérios e outros belos exemplares arquitetônicos.

Pinturas rupestres na Somalilândia. Foto: Guilherme Canever

Pinturas rupestres na Somalilândia. Foto: Guilherme Canever

Monastério no Chipre do Norte. Foto: Guilherme Canever

Monastério no Chipre do Norte. Foto: Guilherme Canever

Além das lembranças que podem ser registradas em fotos, Guilherme levou outras mais abstratas, porém não menos memoráveis. “Eu sempre tive um sentimento de libertação dos povos. Lembro da minha revolta com os chineses quando visitei o Tibete em 2005, por exemplo. Continuo sendo um grande defensor das culturas, mas virei um crítico ferrenho das fronteiras. Não adianta elas mudarem de lugar ou serem criadas. Nunca uma região será homogênea, e nem deveria ser”, explica.

Os dez países (ou “não-países”) que inspiraram o livro

Transístria (pertencia à Moldávia, ex-república soviética)

Kosovo (região historicamente disputada por sérvios e albaneses)

Abecásia (ex-território da Geórgia que busca reconhecimento)

Chipre do Norte (região disputada por turcos e gregos e reconhecida como independente apenas pela Turquia)

Nagorno-Karabakh (região historicamente disputada por Armênia e Azerbaijão)

Somalilândia (região da Somália que teve colonização inglesa e onde não há guerra civil)

Palestina (eterna questão do Oriente Médio, que motiva guerras entre árabes e judeus)

Saara Ocidental (teve colonização espanhola, mas foi invadido pelo Marrocos)

Ossétia do Sul (outra região que fica dentro do território da Geórgia)

Taiwan (reconhecido como independente da China por apenas 21 Estados membros da ONU)

Além deles, “Viagem Pelos Países Que Não Existem” fala sobre regiões autônomas que já foram ou buscam ser independentes, como o Tibete, a Caxemira e o Curdistão.

O livro faz contextualizações históricas sobre os “não-países”, explica como é a relação diplomática do Brasil com cada um deles e traz dicas para quem quiser conhecer os atrativos turísticos desses lugares cercados de conflitos e que vivem sem esse reconhecimento oficial.

Dicas de uma volta ao mundo que podem servir para você

Antes de decidir desbravar lugares que sequer são reconhecidos como países pela comunidade internacional, Guilherme Canever já era um viajante inveterado. No blog dele, o Saí Por Aí, tem um mapa em que estão marcados todos os países que visitou. E, sério, se fosse o tabuleiro de um jogo de War, o cara já teria dominado a maioria absoluta dos territórios. Sendo assim, ele tem várias dicas que podem servir para você planejar uma viagem longa ao redor do planeta ou até mesmo para as suas férias mais “normais”.

Essa é a mochila do Guilherme. O cara rodou por aí, hein?

Essa é a mochila do Guilherme. O cara rodou por aí, hein?

Bagagem não pode ser muita

“Eu viajo leve, minha mochila dificilmente pesa mais do que 7 quilos. Poucas roupas, equipamento fotográfico, um pequeno kit de primeiros socorros. Levo uma lanterna também. Dependendo da região, um lençol de baixo para garantir uma noite bem dormida caso o hotel seja meio sujinho. Mas o que você realmente precisa para viajar é teu passaporte e dinheiro. O resto são detalhes”.

O mínimo de gentileza na comunicação já ajuda muito

“Levar um bom tradutor ou dicionário é essencial. É preciso ter no mínimo as principais palavras na língua do país que vai visitar. ‘Por favor’, ‘obrigado’ e ‘com licença’ abrem muitas portas. Já viajei para muitos lugares onde não falava o idioma local. Mas é interessante que, com o tempo, você pode ter longas conversas através de mímicas e tentativas. Claro que fica em um nível mais superficial, mas não deixa de ser divertido. Quando duas pessoas estão dispostas a se comunicar, a conversa sai”.

Fotografias às vezes podem te colocar em roubadas

“Todo mundo sabe que não se deve tirar fotos perto das fronteiras. Eu arrisquei e fui interrogado. Foi uma situação que consegui contornar, mas sabia do risco. Já tive problemas em tirar fotos no centro da cidade também. Regiões mais sensíveis são assim. Na Transnístria levei só uma máquina pequena e a GoPro. Hoje me arrependo, pois perdi fotos incríveis com melhor resolução. Se você vai para uma região que teve conflito há não muito tempo, precisa saber o que está fazendo”.

Cada viagem é um aprendizado para a próxima

“A cautela, o planejamento, a comunicação e até o reconhecimento dos teus instintos são muito testados nos locais mais difíceis de se viajar. Isso transforma outras viagens bem mais simples. Problemas que antes pareciam grandes se tornam irrisórios”.

Outras aventuras

Para conhecer os relatos de outros viajantes como o Guilherme, é só navegar pela categoria Mochileiros.

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5 perrengues para evitar numa viagem ao Marrocos

Antes que digam que este é um post para falar mal do Marrocos, já quero adiantar que não se trata disso. Em quatro dias que passei por lá com a…

Antes que digam que este é um post para falar mal do Marrocos, já quero adiantar que não se trata disso. Em quatro dias que passei por lá com a Janaína em abril de 2016, fiquei absolutamente encantado. Um país cujo território cabe dentro da Bahia consegue ter uma convivência harmoniosa de várias referências: árabes, judaicas, andaluzes, seja na religião, na arquitetura, na gastronomia… É tudo muito diferente do que estamos acostumados a ver no Brasil, com uma história bem mais antiga que a nossa e mais vasta do que qualquer guia de turismo pode contar.

Mas, como em qualquer destino turístico, o Marrocos está cheio de armadilhas para os viajantes. E essas diferenças de histórias e origens fazem com que os costumes locais sejam quase sempre um mistério para nós, brasileiros ou ocidentais em geral. Por isso, não acho que o país seja o melhor lugar para uma estreia em viagens para o exterior ou para quem mal sabe onde fica Marrocos. E mesmo os viajantes mais experientes podem cair em alguma pegadinha ou se aborrecer com algumas situações que podem ser inevitáveis, mas não imprevisíveis.

O que as medinas têm de fascinantes também têm de traiçoeiras para o turista desavisado

O que as medinas têm de fascinantes também têm de traiçoeiras para o turista desavisado

Baseado na experiência que tivemos na viagem a Fez, enumerei alguns perrengues para os quais é imprescindível se preparar psicologicamente antes de chegar ao Marrocos. E este preparo vai influenciar diretamente na percepção que você terá sobre o país ao final da viagem. Saber o que vai encontrar por lá vai fazer a diferença entre os motivos que vão fazer do passeio inesquecível. A viagem pode se tornar memorável por causa das boas lembranças, da boa comida e das lindas paisagens. Mas também pelo assédio ostensivo, por aborrecimentos e pelas dificuldades de comunicação.

Anote aí as dicas de viagem que posso te passar:

1. Tenha paciência com o excesso de segurança nos aeroportos

Nem nos Estados Unidos pós-11 de setembro os aeroportos têm uma segurança tão ostensiva. Já há máquinas de raio-X (daquelas que estamos acostumados a ver apenas na entrada da sala de embarque) logo no acesso aos terminais. E só passa por elas quem tiver bilhete de embarque em mãos. Ou seja: esperar no saguão por um parente que volta de viagem? Não pode. A espera é do portão para fora.

Outra coisa: policiais circulam o tempo inteiro com armas em punho. E não são pistolas ou cassetetes. São fuzis ou metralhadoras. Não vi nenhuma abordagem inadequada por parte dos policiais dentro do terminal em nenhum momento, mas a imagem assusta à primeira vista.

Também juro que nunca precisei mostrar meu passaporte a tanta gente num aeroporto. Esteja você chegando ao Marrocos ou indo embora, vão lhe pedir para apresentar o documento várias vezes. Não importa se você acabou de passar pelo procedimento de imigração. Não importa se você está apenas pedindo uma informação simples.

 

2. “La, shukran”, aprenda essa expressão em árabe

Comerciantes marroquinos poderão testar o limite da sua paciência

Comerciantes marroquinos poderão testar o limite da sua paciência

“Não, obrigado”. Você vai precisar falar isso um zilhão de vezes por dia. Quanto mais turístico for o lugar do seu passeio, mais ostensiva pode ser a abordagem. Vão lhe oferecer bugigangas das quais você não precisa, passeios que você pode fazer por conta própria, comidas que você não está a fim de experimentar. Sempre misturando inglês, francês e espanhol. Responder enfaticamente em árabe é uma forma gentil de pedir para não ser importunado.

 

3. Contrate um guia, mas defina bem a relação de trabalho

Alguns passeios no Marrocos são mais bem aproveitados se você tiver um guia local. As medinas, por exemplo, são emaranhados de ruelas estreitas sem nenhuma lógica. A não ser que você seja um prodígio do senso de navegação, o risco de se perder é enorme. E não vá confiando no Google Maps. A maior parte das ruas das medinas simplesmente não está no aplicativo.

Tendo tudo isso em vista, segui a dica de um blog brasileiro. Ele indicou um guia em Fez que falava português e dava até o e-mail do cara. Dois meses antes da viagem, entrei em contato com ele, que foi muito solícito e amável. Acertamos o preço de uma diária e, inclusive estava disposto a pagar uma gorjeta a mais pela ajuda que ele deu para reservar a nossa hospedagem. Quando o encontramos pessoalmente, eu realmente acreditei que estava contratando o serviço de um “amigo”.

Guias vão te mostrar vários detalhes escondidos nas medinas, como esta mesquita, mas também podem te colocar em roubadas

Guias vão te mostrar vários detalhes escondidos nas medinas, como esta mesquita, mas também podem te colocar em roubadas

Quando fomos para a medina com ele, no entanto, as coisas foram mudando aos poucos. Ele começou a dar a entender que já tinha uma programação para quatro dias conosco, sem que tivéssemos sequer cogitado isso. Quando nos levou ao curtume da cidade, não nos deu tempo de olhar a loja, dizendo que nos levaria a um lugar “menos turístico, mais barato e de boa qualidade” para que comprássemos couro. E mais: sempre falava em árabe com meio mundo de gente que encontrava pela medina. Inclusive com os donos das lojas em que nos levava. Pode parecer paranoia, mas isso nos deixou um pouco inseguros.

A desconfiança acabou se confirmando no segundo dia de passeio guiado (que marcamos meio que para nos livrar de uma possível encheção de saco). O guia nos perguntou se queríamos conhecer como se faziam os belos tapetes marroquinos. Achando que iríamos ter uma espécie de experiência “making of”, topamos. Mas acabou se tornando um dos momentos mais tensos da viagem. O dono da loja nos recebeu amigavelmente a princípio, mas poucos minutos depois estava nos coagindo a comprar pelo menos um tapete. Falava alto, nos pedia para que déssemos um preço que podíamos pagar, pediu para ver nossos cartões de crédito… A Janaína quase deixou 700 reais lá só para se livrar, mas acabei conseguindo demovê-la da ideia e sair com a fatura do cartão ilesa. Quando deixamos a loja sem nada, o guia falou algo como “é, não se pode comprar tudo”, meio ironicamente.

Com essa experiência, a dica que dou a vocês é: deixem tudo bem claro com o guia antes de o trabalho dele começar. Pesquisem bastante e tenham um roteiro o mais definido possível em mente. Se não quiserem comprar nada, sejam diretos e não deem margem para um mal entendido. É possível que eles cobrem uma diária diferente para um passeio sem compras, já que costumam receber comissão dos comerciantes. Mas fique de olho nas tabelas de preços dos guias credenciados. No hotel em que nos hospedamos, havia uma dessas tabelas afixada na recepção. Imagino que seja de praxe que essa informação seja bem acessível. É imprescindível para que você saiba o melhor preço a pagar pelo serviço.

 

4. Não confie plenamente em ninguém

Não tivemos a melhor das acolhidas em Fez. Pousamos à 1h30 da manhã, pegamos um transfer pré-agendado em direção a um estacionamento próximo ao nosso hotel, que ficava dentro da medina, onde carros não entram. O recepcionista estava nos esperando, mas não demorou para que reclamasse do horário, dizendo que eu havia dito que chegaríamos à 1h30 da tarde. Chequei toda a nossa troca de mensagens e confirmei que não tinha deixado a menor dúvida sobre o horário da chegada. Mas preferi não comprar briga.

Além disso, ele disse que faria o nosso procedimento de check-in pela manhã. Mesmo assim pediu nossos passaportes antes de subirmos para o quarto, dizendo que nos devolveria no dia seguinte. Na hora, não me dei conta do quanto isso foi arriscado, mas a Janaína chegou a dormir muito mal durante a noite por causa da preocupação. Os passaportes foram devolvidos pela manhã, mas o episódio nos deixou ressabiados pelo restante da estadia.

Mas o pensamento de “trust no one” ficou ainda mais claro quando percebi uma certa cadeia: hotéis falam mal dos guias, guias falam mal dos hotéis, comerciantes falam mal dos guias, e por aí vai. O guia que contratamos, por exemplo, não pôde entrar no nosso hotel e nos esperar na recepção. O recepcionista disse que ele era clandestino (e ele realmente não nos mostrou credencial alguma), mas chegamos a achar que ele dizia isso para nos convencer a contratar passeios oferecidos pelo próprio hotel. Apesar de nos ter indicado este hotel entre alguns outros, o guia disse que o estabelecimento “era uma máfia”. Quando saímos pela medina sem o guia, nos sentimos muito mais à vontade para comprar. E alguns comerciantes nos disseram que precisam fazer “preços turismo” para clientes acompanhados por guias, pois eles cobram comissões generosas.

Sem guias por perto, dá pra pechinchar ainda mais por belezuras como estas

Sem guias por perto, dá pra pechinchar ainda mais por belezuras como estas

Felizmente o Marrocos também tem muita gente amável e correta nesses serviços relacionados ao turismo. Mas vá com o espírito preparado para a lei do cão.

 

5. Mulheres atraem olhares (e muito mais)

Uma coisa que fica muito clara numa visita ao Marrocos é que o povo de lá tem uma sexualidade bastante reprimida. A maioria das mulheres locais sai de casa com pelo menos uma parte do corpo bastante coberta. Seja um lenço na cabeça, seja uma blusa de mangas longas, seja a burka que deixa apenas os olhos descobertos. Por isso, os homens marroquinos costumam olhar para uma mulher não-islâmica como o Coiote olha para o Papa Léguas.

Quando passeamos pela medina de Fez nos três dias em que estivemos lá, a Janaína estava sempre ao meu lado. Mesmo assim, não deixou de receber olhares “incomuns” (para usarmos um eufemismo bem suave) nem de ouvir algumas cantadas incompreensíveis em árabe. Várias vezes ela se queixou, dizendo que se sentia devorada com os olhos. Talvez não seja muito diferente do que acontece numa balada em alguma grande cidade brasileira. Mas é um país com costumes e códigos diferentes dos nossos, portanto é mais prudente não reagir do jeito que se reagiria a um assédio no Brasil. O melhor a se fazer é tentar abstrair. Por mais que você não esteja usando uma roupa ~~~provocante~~~, você será significada como “novidade” para eles.

E você? Já foi ao Marrocos? Tem alguma história de perrengue para contar? Tem alguma dica para acrescentar a estas? Manda ver nos comentários!

4 comentários em 5 perrengues para evitar numa viagem ao Marrocos

Escolhendo o destino: por que Ilhas Canárias e Marrocos?

Quando conversava com amigos, parentes e colegas de trabalho sobre o destino das minhas férias de 2016, ouvi pelo menos umas 471 vezes a mesma indagação: “Mas por que Ilhas…

Quando conversava com amigos, parentes e colegas de trabalho sobre o destino das minhas férias de 2016, ouvi pelo menos umas 471 vezes a mesma indagação: “Mas por que Ilhas Canárias e Marrocos? Que diferente…”

Realmente essa combinação não é a mais comum em se tratando de destino de férias de brasileiros. Quando se imagina destinos de lua de mel então… Sempre se pergunta: por que não Paris? Roma? Caribe? Por isso, achei pertinente começar este blog explicando os motivos que nos levaram a escolher nosso roteiro.

Praia de El Golfo, nas Ilhas Canárias

Essa foto ajuda a responder sua pergunta? Foto: Leonardo Aquino

Passo 1: a logística dos voos

Janaína e eu moramos no Recife, que tem algumas boas ofertas de voos internacionais diretos. Companhias como American Airlines, Copa, Condor, TAP e TAM ligam a capital pernambucana a destinos no exterior sem escalas. Alguns deles eram ótimos hubs para outros cantos. Quanto menos a gente trocasse de avião, melhor.

No começo do planejamento, fomos seduzidos por uma ideia de destino ainda mais incomum: Cabo Verde. A TACV começou em junho de 2015 uma rota semanal entre Recife e Praia, a capital do arquipélago que fica na costa ocidental da África. Apenas seis horas de voo, preços bem em conta (voos que custavam, na época, cerca de 300 dólares ida e volta) e um novo continente no currículo.

Pronto! Agora era só combinar Cabo Verde com outro país para uma “casadinha” na viagem e um carimbo extra no passaporte.

 

Passo 2: o dilema da casadinha

Fomos então para o mapa-múndi estudar quais poderiam ser destinos interessantes para combinar com a terra de Cesária Évora. E aí encontramos outro conjunto de ilhas: as Canárias, que pertencem à Espanha, mas estão mais próximas do continente africano que da Península Ibérica.

Las Palmas, nas Ilhas Canárias

Tem foto também para quem gosta de cidade. Foto: Leonardo Aquino

Nosso roteiro deveria ter quinze dias. Mas à medida que íamos pesquisando sobre as Canárias, desejávamos que fossem vinte, trinta, quarenta… Nos apaixonamos pelas fotos dos lugares, pela variedade de paisagens (praias, montanhas, vulcões, vinícolas, museus, centros históricos…) e pelos relatos que lemos (especialmente os do blog Turomaquia, de uma brasileira que vive nas Canárias).

O que também contou muitos pontos: as Ilhas Canárias se gabam de ter o melhor clima do mundo. A média de temperatura fica o ano todo entre 20 e 22 graus. Céu azul, sol brilhando e clima de ar condicionado ligado. Acabamos comprovando que era tudo verdade! Além disso, havia voos diretos ligando os principais aeroportos de Cabo Verde aos das Canárias.

 

Passo 3: olho na reputação da companhia aérea

Aí resolvemos pesquisar melhor a TACV. Afinal de contas, havia alguns grandes riscos embutidos. Além de ser uma rota nova saindo aqui do Recife e de não conhecermos ninguém que havia voado por esta companhia, o voo era semanal. Ou seja, perder o avião tinha grandes riscos de implicar num grande perrengue, principalmente na volta para o Brasil.

Outras duas coisas que contaram negativamente: alguns relatos sobre atrasos rotineiros, como o que lemos no Melhores Destinos. Além disso, vimos poucos comentários sobre a TACV no Reclame Aqui. Pode significar que não há problemas, mas também que pouca gente voa por esta companhia, não? As poucas reclamações sobre a empresa por lá sequer foram respondidas.

Mas o fato decisivo para termos desistido de voar pela TACV foi uma ida ao aeroporto do Recife na hora do embarque do voo para Praia, que é o único momento da semana em que a loja da companhia aérea na cidade está aberta. Qual não foi nossa surpresa ao ver que o voo havia sido cancelado?

Bab Boujloud, em Fez (Marrocos)

Sobrou pra ti, Marrocos. Foto: Leonardo Aquino

Passo 4: um passo atrás para dar dois à frente

Voltamos para o mapa-múndi para pesquisar a nova metade da casadinha da viagem. Acabamos escolhendo o Marrocos por ser um país muito rico em história, cultura e, principalmente, gastronomia. Mas, para manter a combinação com outro país, teríamos que escolher apenas uma cidade marroquina para visitar. Consultamos alguns amigos que já haviam estado por lá e acabamos optando por Fez, a chamada capital cultural do país.

O negócio foi fechado de vez na Black Friday de 2015, quando fuçamos as promoções das companhias aéreas e encontramos um preço imbatível: de Salvador até Las Palmas de Gran Canária (com uma conexão em Madri) por pouco menos de 1600 reais. A Air Europa, que tem três voos semanais entre as capitais da Bahia e da Espanha, estava dando descontos de 20% em todas as passagens.

Entre Recife e Salvador, conseguimos outro valor sensacional: 222 reais por pessoa, ida e volta, pela Avianca. Passaríamos um dia descansando na Bahia antes e depois da grande viagem.

Farol da Barra, em Salvador

Antes da viagem principal, ainda deu para conferir o novo som de Salvador (paquerê, paquerô). Foto: Leonardo Aquino

Essas foram as primeiras compras de passagens que fizemos. Ainda faltaria posteriormente pesquisar os bilhetes para o Marrocos e entre as Ilhas Canárias, que detalharemos em outros posts.

Passo final: o checklist definitivo

Portanto, nossa dica de passo a passo para a escolha de um destino de férias:

1) Conheça a malha aérea a partir da sua cidade ou do aeroporto internacional mais próximo. Quanto menos voos você fizer até chegar ao seu destino (ou voltar dele), melhor!

2) Caso queira conhecer outro(s) país(es) combinado(s) na mesma viagem, pense na melhor logística. Há voos diretos? São voos curtos ou demorados? Há alternativas como trens? Viajar de carro é viável?

3) Pesquise MUITO as companhias aéreas pelas quais você vai voar. Índice de atrasos e cancelamentos, qualidade do serviço e a dinâmica de preços e promoções. Às vezes uma passagem muito barata tem alguma pegadinha “nas letras miúdas”, como cobrança extra para bagagem despachada.

O passo seguinte foi decidir quais ilhas visitaríamos e quantos dias ficaríamos em cada uma. Os detalhes você encontra no próximo post. Valeu!

Veja também:
Ilhas Canárias: um roteiro completo de viagem

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