São Petersburgo, a cidade responsável por exportar o estrogonofe para o mundo, foi também a capital do Império Russo de 1732 a 1918. Em 2018, será a segunda cidade a receber mais partidas da Copa do Mundo. São sete jogos no total, desde a primeira fase até a decisão do terceiro lugar. Por lá, seleções como o Brasil e a Argentina já têm passagem garantida.

Pode até não ser o centro administrativo e financeiro da Rússia. Mas quando o assunto é arte, nenhuma cidade russa brilha mais do que São Petersburgo. O local fica especialmente animado durante o Festival Noites Brancas. O evento foi criado em 1993 para celebrar a época do ano em que o sol mal se põe. De lá para cá, cresceu demais. Passou de duas para oito semanas de duração. E o número de visitantes ultrapassou um milhão na edição mais recente.

 

Neste outro post concentrado em Moscou, falei sobre a época do ano em que estive na Rússia. Compartilhei algumas impressões gerais sobre o país, as dificuldades de comunicação que enfrentei e, entre outras coisas, prometi uma sugestão de itinerário para três dias em São Petersburgo. Como promessa é dívida, então vamos lá.

 

Primeiro Dia – Palácios ao Sul

Por causa dos horários de funcionamento dos lugares que queríamos conhecer, escolhemos, em nosso primeiro dia, sair da cidade e visitar dois palácios que ficam ao sul. Eles ficam a pouco mais de 30km de São Petersburgo e distam 6km entre si: o Pavlovsk e o Palácio da Catarina I (em Tsarskoe Selo).

Fica aqui uma dica para os marinheiros de primeira viagem. Sempre verifique o endereço e o horário de funcionamento de todas as atrações que quer visitar, com antecedência e de preferência no site oficial do lugar. Isto para evitar dar de cara com uma porta fechada porque a atração mudou de endereço ou não funciona naquele dia/horário.

Pavlovsk

Há alguma discussão na internet sobre qual dos dois palácios visitar primeiro. Nós decidimos começar pelo mais distante. Para chegar lá, pegamos o trem que parte da estação Vitebsky (витебск). Depois de uns 35 minutos, descemos na parada que leva o mesmo nome do palácio (Павловск). Ao sair da estação, acompanhamos o fluxo dos turistas e entramos em um amplo parque em estilo inglês. Fomos seguindo a sinalização até chegar ao Pavlovsk. Incrivelmente, não havia qualquer informação em outro idioma que não fosse o russo. A solução foi colar em uma família que tinha contratado uma guia que falava em inglês. A convite da família, é claro.

Pavlovsk. São Petersburgo.

Pavlovsk, localizado há aproximados 30km ao sul de São Petersburgo. Foto: André Orengel.

 

Em estilo neoclássico, o palácio foi construído a mando de Catarina II entre 1781 e 1786, para o seu filho Paulo (Pavel em russo, por isso o nome: Pavlovsk) e sua segunda esposa Maria Fyodorovna. A tarefa foi inicialmente confiada ao arquiteto escocês Charles Cameron, que caiu nas graças da imperatriz pelo trabalho realizado em Tsarskoe Selo. O projeto modesto e a tendência à simplicidade, no entanto, não agradaram a Paulo e sua mulher. Por isso, deram a Vicenzo Brenna (assistente de Cameron) a missão de dar um ar de imponência e realeza ao prédio. O serviço de Brenna foi muito apreciado pelo futuro imperador e sua esposa. Tanto que o arquiteto voltou a trabalhar para o casal na remodelação do palácio em Gatchina e no Castelo Mikhailovsky, em São Petersburgo.

O design de interior ficou a cargo da própria Maria Fyodorovna, que encheu o Pavlovsk com obras de arte locais e importadas dos quatro cantos da Europa. A coleção de mobiliário em exposição no palácio é impressionante e, por si só, justifica a visita.

O palácio que visitamos é uma réplica do original. Este, após servir de residência real por mais de cem anos (1786-1917), foi reduzido a cinzas duas semanas após o fim da 2ª Guerra Mundial. Foi o resultado do vacilo de um soldado soviético que jogou um cigarro em uma mina alemã (quanta ironia!).

 

Palácio de Catarina I

Em seguida, pegamos o ônibus da linha 370, perto da entrada do Pavlovsk pela Rua Sadovaya Ulitsa, e descemos próximo ao Palácio de Catarina I. Esse palácio fica na cidade de Tsarskoe Selo (também conhecida por Pushkin), localizada uma parada antes da que descemos para ir ao Pavlovsk. Anotei também que poderíamos pegar os ônibus das linhas K286 e K513, dependendo da hora que terminássemos o passeio no primeiro palácio.

Ao chegar nessa grandiosa residência dos Czares russos, ficamos maravilhados com a sua grandiosidade, superando o Pavlovsk neste quesito. Mais de 100kg de ouro foram utilizados só para enfeitar a fachada. Outra coisa que nos chamou a atenção foi a imensa fila para comprar os ingressos. Ficamos umas três horas nela, e quase nem entramos, pois a bilheteria só estava aberta até as 17h. A fila era muito desorganizada, sendo constantemente furada por grupos de russos. Imagina na Copa!

 

Catherine's Palace. Tsarkoe Selo. São Petersburgo.

Fila em frente ao Palácio Cataria I, em Tsarskoe Selo. Foto: André Orengel.

 

Porém, tudo vale a pena quando se entra no museu.

O palácio foi construído inicialmente como uma casa de veraneio pela esposa do imperador Pedro o Grande, a Catarina I. Posteriormente, foi remodelado pela filha do, Elizabeth, com a ajuda do arquiteto Bartolomeo Rastrelli (que também assina o projeto do Palácio de Inverno, onde se encontra a principal coleção do museu Hermitage).

Infelizmente, um dos estragos impostos pelas tropas alemãs durante a Segunda Guerra Mundial foi o completo saqueamento do Museu. O que vemos hoje é uma belíssima reconstrução do original. Todas as salas são estonteantes, destacando-se a sala de âmbar (réplica), toda adornada com painéis sólidos desta preciosidade. Ao todo, eles pesam cerca de 450kg. A decoração original desta sala foi um presente de Frederico Guilherme I da Prússia, que a removeu de sua própria residência, o Palácio Charlottenburg em Berlim, para dar a Pedro o Grande.

Catherine's Palace. Tsarskoe Selo. São Petersburgo.

Palácio Catarina I, em Tsarskoe Selo. Foto: André Orengel.

Retornando para São Petersburgo

Para voltar, regressamos à parada em que descemos anteriormente e pegamos o mesmo ônibus de nº 370, que nos levou à estação de Tsarskoye Selo. De lá, pegamos o trem para São Petersburgo.

Pedro, Paulo, Maria, Elizabete, Catarina I e II; são muitos nomes e personagens em uma longa e instigante história de guerras, traições, ambições, poder e absurda riqueza. Para aprender mais sobre a vida dos Czares da Dinastia Romanov antes de pisar em solo russo, recomendo o excelente documentário da BBC Empire of the Tsars: Romanov Russia with Lucy Worsley, disponível na Netflix.

 

Segundo Dia – O Centro Histórico

Começamos o dia seguinte com o Free Walking Tour conduzido pela Anglo Tourismo. O esquema você já conhece: um guia lhe acompanha por um passeio pela cidade, contando a história e curiosidades de seus principais pontos turísticos. Ao final, você decide quanto quer pagar pelos serviços prestados, a título de gorjeta. A excursão dura cerca de três horas, começando as 10h30 em frente ao Diner (Столовая) na Nab. Reki Fontanki, nº 27.

Os destaques do passeio são: o Palácio Vorontsov, a Catedral de Nossa Senhora de Kazan, a Catedral de São Isaac, o Cavaleiro de Bronze, o Hermitage e a Igreja da Ressurreição do Salvador sobre o Sangue Derramado (ô nomezinho estranho!). Isso sem falar das várias histórias sobre a vida de Catarina II e de Pedro o Grande, a Revolução de Outubro, a Segunda Guerra Mundial e a vida moderna em São Petersburgo.

Church of the Savior on Spilled Blood. São Petersburgo.

Igreja da Ressurreição do Salvador sobre o Sangue Derramado, em São Petersburgo. Foto: André Orengel.

O Palácio de Inverno e o Museu Hermitage

Finalizado o tour, almoçamos e entramos no impressionante Palácio de Inverno, que hoje abriga a principal coleção do museu Hermitage. Antes disso, o prédio foi a residência oficial dos Czares, quase ininterruptamente, desde sua construção até a queda da monarquia russa.

Palácio de Inverno. Winter Palace. Hermitage. São Petersburgo.

Patio Interno do Palácio de Inverno (Museu Hermitage), São Petersburgo. Foto: André Orengel.

Construído com o objetivo de definitivamente inserir São Petersburgo no rol das mais magníficas capitais europeias de seu tempo, este pomposo palácio em tom pistache esbanja a extravagância e a ornamentação típicas da versão russa barroco europeu.

É difícil de acreditar, mas o acervo do Hermitage conta com mais de 3 milhões de obras de arte. Para se ter uma ideia, se você demorar um minuto para apreciar cada uma delas, somente após uns onze anos você estará liberado para voltar para a sua casa. Obviamente, nem todas as peças estão expostas. Os enormes salões do Palácio de Inverno exibem as principais obras desta que é uma mais importantes coleções de arte do mundo.

Throne Room. Palácio de Inverno. Winter Palace. Hermitage. São Petersburgo.

Sala do Trono, no interior do Palácio de Inverno (Museu Hermitage), São Petersburgo. Foto: André Orengel.

 

Dentre as obras em apresentação que vimos, algumas merecem atenção especial. O Gold Treasure Room, o Relógio do Pavão Dourado e os trabalhos de Leonardo da Vinci, Raphael, Michelangelo, Caravaggio, Peter Paul Rubens, Pierre-Auguste Renoir, Claude Monet e Henri Matisse.

Golden Peacock Clock. Hermitage. São Petersburgo.

O Relógio do Pavão Dourado, no museu Hermitage, São Petersburgo. Foto: André Orengel.

 

Encerramos o dia com um passeio e jantar às margens do rio Neva.

 

Terceiro Dia – Peterhof e Noites Brancas

No último dia em São Petersburgo visitamos o Peterhof (Petrodvorets). Aqui, constatamos que palácio suntuoso é o que mais há na cidade.

O que mais destaca o Peterhof dos demais é o conjunto de mais de 170 fontes e canais. É uma magnífica composição aquática, desenhada, em parte, por Pedro o Grande. Não há nada igual no planeta. As dezenas de estátuas douradas que cospem água em todas as direções são realmente extraordinárias. O estandarte da decoração é a apoteótica representação de Sansão batalhando com um leão. Ela foi feita para para celebrar a vitória russa contra os suecos em 1709.

 

Peterhof. Petrodvorets. São Petersburgo.

Destaque para a estátua no centro do lago artificial, que representa Sansão batalhando com um leão. Peterhof, em São Petersburgo. Foto: André Orengel.

 

Para chegar neste palácio, fomos de metrô até a estação Avtovo. De lá, pegamos o ônibus de número 210, que passa bem na frente do Palácio. Voltamos pelo mesmo caminho. O traslado levou quase 1h30, cada perna.

 

O Mariinsky

Para fechar com chave de ouro a visita à cidade, assistimos a um dos mais disputados espetáculos do festival Noites Brancas: o balé de “Romeo e Julieta”, apresentado no fabuloso Mariinsky.

Esse teatro é enorme e, sem dúvida, um dos mais bonitos que já estive. Com certeza vale a pena incluir o Mariinsky em qualquer visita a cidade. Mesmo que só para conhecer a sua estrutura.

Mariinsky. São Petersburgo.

Mariinsky, em São Petersburgo. Foto: André Orengel.

 

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