Quando a gente planeja uma viagem, costuma lembrar de um conselho bem comum: quanto menos tempo de deslocamento, melhor. Isso faz com que procuremos o voo com menos escalas, o trem com menos conexões, a estrada mais curta, etc. Mas guarde pra você um asterisco nesta regra de ouro: há ocasiões em que ignorar este conselho vale a pena. E a viagem ao arquipélago de San Blas, no Panamá, é uma delas.

Com o mapa nessa escala, nem dá pra enxergar as ilhas

Confesso a vocês que nunca tinha ouvido falar neste conjunto de ilhas no Mar do Caribe antes de escutar o relato do meu amigo Marcus Alves. O Marcus é jornalista, repórter do site da ESPN e um viajante inveterado. Onde tiver praia e alto astral, o cara está lá. Se for um lugar fora dos destinos comuns, aí é que ele vai mesmo. E se houver uma forma de desfrutar essa viagem de um jeito especial, ainda que tome muito mais tempo, é a instigação máxima.

Aproximando um pouco, dá pra ver algumas (poucas) das quase 400 ilhas

Pois bem: só de ouvir as histórias, fiquei tão encantado que pedi ao Marcus que escrevesse um relato sobre essa viagem para o Mochileza. É mais um guest post amigo que vai fazer você ter vontade de se teletransportar.

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Foto: Marcus Alves

Navegar é preciso

Fim da cobertura da Copa do Mundo de 2014, mais de 50 mil milhas acumuladas. Resolvi, então, gastar 30 mil delas em uma passagem de ida e volta para Cartagena, com conexão em Bogotá. Em cada uma de suas esquinas recheadas de história, um hostel. Um deles, em especial, o Media Luna, recebe a festa mais tradicional das quartas-feiras.

Em minha breve passagem naquela oportunidade, fui conferir e, entre uma cerveja Club Colombia e outra, fiz amizades. Entre elas, a de um israelense, que me contou que, no dia seguinte, estaria indo fazer uma viagem de veleiro até o arquipélago de San Blas, no Panamá. Demorei a processar o que seria aquilo e, a cada detalhe, fiquei mais curioso ainda. Ao retornar ao Brasil e ver mais a fundo do que se tratava, pus na cabeça que um dia faria o mesmo trecho.

A princípio, seria em 2015. Não deu.

Ficou para 2016. Queria cruzar toda a América Central. Por que não, então, começar em grande estilo arrancando ainda em Cartagena, passando por San Blas e, enfim, desembarcando em terra no Panamá?

A sugestão foi de minha namorada Bia (que tem um Instagram de viagens muito legal, o Bia Viaja). Confesso que, naquela altura, estava um pouco desconfiado se funcionaria. Eu tinha uma logística complicada de dias pela frente: apenas 35 ou um pouco para chegar até ao México. E, como se sabe, o mar é imprevisível.

Foi, assim, que, na noite de 27 de outubro de 2016, cheguei em Cartagena.

A viagem toda é feita num veleiro como este. Foto: Marcus Alves

O caro que sai barato

No outro dia pela manhã, estava logo cedo na porta do escritório da Blue Sailing. Esta é uma das poucas empresas que faz a viagem de veleiro entre Cartagena, San Blas e chegando a Puerto Lindo, no Panamá. Não é uma viagem barata. Paguei US$ 550 (R$ 1831 em 21/12/16), mas existem barcos mais baratos (US$ 450) e até mais caros (US$ 600). Um detalhe que você precisa ter em mente, e desde o início eu tinha claro comigo mesmo: não estava pagando pela travessia e, sim, pela experiência de vida.

E, acredite, vale a pena.

Clima de hostel em alto mar. Foto: Marcus Alves

Ainda assim, se você resolver se apegar à matemática, as contas são razoavelmente simples. Nos US$ 550, estão incluídos naturalmente o transporte – você não terá nenhum gasto durante o período –, a hospedagem – você dorme todos os dias no barco – e também a alimentação – café da manhã, almoço e jantar. No meu caso, tive como capitão Mike, que foi chef na Itália por dez anos. Ou seja, cada refeição era espetacular, passando por spaghetti com polvo, lagosta e peixe pescado na hora. Em solo, você estaria tendo esses custos.

E ainda tem comida de primeira a bordo! Foto: Marcus Alves

Ainda não se convenceu? Se o visual de San Blas não o fizer, nada mais o fará.

Não, não é uma piscina. Foto: Marcus Alves

Já viajei um pouco por esse mundo e posso dizer. Em poucos lugares, a água é tão cristalina quanto nas ilhas comandadas pelos índios Kuna. Os Kuna são uma sociedade matriarcal formada por pessoas que fugiram da Colômbia, se refugiaram nelas e, por acordo com o Governo do Panamá, se tornaram donas. Basicamente, cada ilha pertence a uma família.

A viagem começa

Deixei Cartagena pelo porto de Manga numa sexta-feira à noite. Estávamos em 11 turistas e tivemos ali mesmo, antes de içar a vela, a nossa primeira refeição.

A recomendação é para que você compre antes snacks que queria levar a bordo e também bebidas alcoólicas. Essas últimas não poderão ser consumidas durante o período de travessia em águas internacionais até a chegada a San Blas.

Depois de embarcamos por volta das 21h de sexta, passamos todo o sábado em alto mar, acompanhados apenas por golfinhos e um ou outro peixe voador. Tivemos o primeiro sinal de terra no caminho somente às 5h da manhã de domingo. Além do capitão Mike e de seu assistente Edwin, eu era o único no veleiro que se encontrava acordado naquele momento. Aos poucos, cada um foi acordando e, enfim, após pouco mais de 30 horas de viagem, a âncora foi lançada ao mar. Era chegada a hora de curtir o paraíso.

É assim que se acorda no Mar do Caribe. Foto: Marcus Alves

Praticando o nadismo em alto mar

Passamos o domingo, a segunda e a terça-feira velejando entre as ilhas.

O mar, claro, é calmo, perfeito para snorkelling – existem equipamentos no veleiro, se precisar – ou mesmo nadar de um lado para o outro. Ainda tive a chance de disputar uma espécie de desafio internacional. Meus adversários eram membros do exército panamenho que fazem a segurança noturna nas ilhas para evitar a entrada de drogas através do mar. Foi possível também acompanhar o confronto entre Besiktas e Lazio pela Liga dos Campeões em uma das ilhas. E, por fim, relaxar com cerveja em mão na água quente.

Os dias passam devagar e não existe praticamente nenhuma agitação.

Nada melhor do que não fazer nada. Foto: Marcus Alves

Quem quiser passar alguns dias a mais na ilha, pode se hospedar em bangalôs como estes. Foto: Marcus Alves

Esta imagem é uma amostra do ~agito~ que rola em San Blas. Foto: Marcus Alves

A sua experiência passará, também, por quem o acompanhará no barco. No Sailing Koala, eram 11 pessoas: quatro casais, um inglês, uma colombiana e eu. Sem férias, a Bia não pôde me acompanhar. Pode soar chato? Pode. Mas não foi.

Foto: Marcus Alves

Na ponta do lápis

Ao longo dos dias, o seu gasto será nulo, a não ser que você queira consumir nas ilhas e comprar artesanato, por exemplo. Não foi o meu caso. Eles ficarão restritos apenas à taxa de US$ 20 a ser paga aos kunas. Ainda é preciso pagar US$ 25 para a van que nos levaria para a imigração e depois para a Cidade do Panamá no lugar que escolhêssemos.

Além da cervejinha e dos snacks para quem gosta, é imprescindível levar em sua mochila de ataque três coisas. Lenço umedecido – não existe água potável para banho –, protetor solar e uma garrafinha para repor a água para beber.

Essa é uma viagem sem qualquer luxo e recomendada, sobretudo, para quem sonha em ter uma dessas experiências inesquecíveis que acumulamos ao longo da vida.

Foto: Marcus Alves

 

Foto: Arquivo pessoal/Marcus Alves

Uma viagem mais curta

Se você se encantou com San Blas, mas não encara os quase dois dias num veleiro, fique tranquilo. Há alternativas. O jeito mais rápido de chegar a San Blas é por voos de 20 minutos saindo da Cidade do Panamá (aeroporto de Albrook, PAC) até o aeroporto de El Porvenir (PVE). A única companhia comercial que oferece esta rota é a Air Panamá, mas os voos não estão disponíveis todos os dias.

A forma mais comum é uma viagem de 2h30 de carro saindo da capital até os portos de Barsukun ou Cartí + uma travessia de barco que pode durar de 10 a 30 minutos.