Pensar numa viagem à Argentina é praticamente ter a certeza de que não será preciso falar uma palavrinha sequer em espanhol. Os principais destinos do país já estão tomados pelos brasileiros há pelo menos uma década. No centro de Buenos Aires, os vendedores ambulantes já abordam em português. Bariloche, por sua vez, já é conhecida como Brasiloche. Nessas horas, eu sempre pergunto: por que, quando se fala em viajar pela Argentina, nunca se menciona Rosario?

A cidade é a terceira mais populosa da Argentina, com cerca de 1,2 milhão de habitantes. Tem histórias interessantes, tem a bela orla do rio Paraná, tem um povo acolhedor, parques e mais parques pela cidade afora e uma cultura vibrante. Além do mais, tem voos diretos a partir do Rio de Janeiro e São Paulo. Começou a ser descoberta recentemente por estudantes brasileiros que vão fazer pós-graduação ou até mesmo a graduação por lá.

Aí é quando volto a perguntar: por que nunca se menciona Rosario?

Tive uma experiência em Rosario que foi muito além do que passear pela cidade. Morei lá por oito meses em 2010. Foi um ano que tirei para dar um respiro, curtir um período sabático, estudar espanhol e fazer uma pós-graduação. Hoje, quando me perguntam, respondo que simplesmente fui viver. E digo a vocês que a cidade foi uma ótima escolha que fiz.

Ah, a juventude...

Ah, a juventude…

Acho que o principal fator para eu ter essas boas lembranças de Rosario é o seguinte: talvez tenha sido o primeiro contato que tive com uma cidade bem vivida pelas pessoas. Ainda que não siga um modelo europeu, Rosario tem um planejamento urbanístico bem interessante. Ela possui cerca de 20 quilômetros de orla urbanizada e repleta de equipamentos: parques, museus, centros culturais, bares, restaurantes, terminais de passageiros, tudo isso com a moldura do Paraná.

Uma paisagem típica do outono rosarino

Uma paisagem típica do outono rosarino

Se você não quiser sair direto do Brasil para lá, tudo bem. Rosario não fica tão distante assim de Buenos Aires. São 300km, o que dá uma viagem de quatro horas entre os terminais de ônibus das duas cidades. Caso seja conveniente para você, a empresa Manuel Tienda León oferece um serviço de microônibus entre os aeroportos de Ezeiza e Aeroparque, na capital, até Rosario. Confira os preços nos sites e avalie. Só não deixe de ir!

Vou enumerar alguns dos bons motivos para conhecer Rosario na sua próxima viagem à Argentina. Alguns deles talvez já sejam conhecidos por você. Outros certamente não. Todos serão bem convincentes, prometo! 😉

 

Esse rio (Paraná) é minha rua

O cruzeiro pelo Paraná

O cruzeiro pelo Paraná

Roubei esse título de uma canção popular no Pará, mas que faz muito sentido em Rosario. Como falei alguns parágrafos atrás, são quilômetros e mais quilômetros de orla urbanizada. Além de estar lá para ser completado, o rio Paraná também serve como via de locomoção. Muito perto do centro da cidade, existe o terminal La Fluvial. Lá se embarca para passeios de barco que mostram não só Rosario vista “de fora” como também apresenta zonas dificilmente conhecida por quem não é local. Há pequenas ilhas onde muita gente constrói casas de fim de semana. Muitas delas estão disponíveis para aluguel por temporada.

Um fim de semana aqui não seria ruim, hein?

Um fim de semana aqui não seria ruim, hein?

Rosario também tem uma praia de rio, chamada de La Florida. Durante grande parte do ano, ela fica fechada por causa das temperaturas. O inverno por lá pode ser realmente muito frio. Mas, no verão, quando o termômetro passa fácil dos 30 graus, a areia fica repleta de rosarinos ávidos por sol. Se você não esperar um visual de praia paradisíaca, pode curtir um bocado.

A praia de La Florida

A praia de La Florida

Além disso, muitos equipamentos da cidade estão construídos ao longo do rio. O Parque España é um deles. Além do parque em si, ele tem uma grande pista para skate e patinação e um centro cultural que abriga exposições, eventos e oficinas.

Outra coisa bem legal relacionada ao rio que conheci em Rosario foram os clubes de pesca. Você paga uma entrada individual e uma taxa caso queira reservar churrasqueira e mesas. Se quiser pescar, pode assar ali mesmo os peixes que você pegou. Caso você não tenha essa manha, pode levar a carne de casa sem problema.

O píer de um dos clubes de pesca de Rosario

O píer de um dos clubes de pesca de Rosario

 

Cidade berço da bandeira argentina

Monumento à Bandeira

Monumento à Bandeira

Quem vai a Rosario sempre vê menções à cidade como “cuna de la bandera”, seja em propaganda oficial ou publicidades turísticas. Em português, esta expressão significa “berço da bandeira”. Diz a história que foi às margens do Rio Paraná que surgiu o embrião da bandeira argentina como conhecemos hoje. As cores azul celeste e branco foram usadas pela primeira vez em 1812 numa fortificação em Rosario, ideia do general Manuel Belgrano. Ela tinha apenas uma listra de cada cor. A partir daí, evoluiu muito, mas Belgrano e Rosario seguem ligados à concepção do símbolo.

Para homenagear essa história, foi inaugurado em 1957 aquele que talvez seja o principal cartão postal da cidade: o Monumento à Bandeira. Trata-se de uma torre de 70 metros que é o destaque dentro de um pátio cívico, onde também estão esculturas em mármore e bronze alusivas à história da bandeira.

O pátio cívico do Monumento num dia de jogo da Copa do Mundo de 2010

O pátio cívico do Monumento num dia de jogo da Copa do Mundo de 2010

O Monumento é palco de todo tipo de evento em Rosario. Protestos, manifestações, discursos presidenciais, atos políticos, concertos de música clássica, instalação de telões para jogos da Copa do Mundo e por aí vai. Não deixe de subir no mirante da torre para ter outra perspectiva da cidade.

 

Onde nasceu Messi também surgiu uma rivalidade tremenda

O Gigante de Arroyito com torcida dividida em dia de clássico

O Gigante de Arroyito com torcida dividida em dia de clássico

Não dá para falar de Rosario sem mencionar futebol. Não só pelo fato de ser a cidade natal de Lionel Messi, mas também por causa de uma das maiores rivalidades do futebol sul-americano: Rosario Central x Newell´s Old Boys. As duas equipes se enfrentam desde 1905 e dividem a cidade em territórios por cor. De um lado, os amarelos e azuis do Central. Do outro, os rubro-negros do Newell´s.

Tive a oportunidade de assistir a um jogo entre os dois em maio de 2010. Juro a vocês que poucas vezes vi torcidas tão vibrantes em um estádio de futebol, mesmo em clássicos. Vão tentar convencê-lo a não ir ao jogo por causa de violência. Mas, caso futebol seja a sua (que nem é a minha), não deixe de conferir.

O estádio do Central, o Gigante de Arroyito, fica num bairro ao norte da cidade, um pouco afastado do centro. Voltar de lá depois do jogo pode ser uma missão bem difícil pela distância. Já o estádio do Newell´s, o Coloso del Parque, fica no Parque Independencia e não muito distante do centro, nem a pé.

 

Cultura, cultura e mais cultura por toda parte

O escritor Roberto Fontanarrosa tem uma estátua no bar El Cairo. Foto: Nicolás Pasiecznik

O escritor Roberto Fontanarrosa tem uma estátua no bar El Cairo. Foto: Nicolás Pasiecznik

A Argentina é conhecida por ser o berço de escritores que embarcaram no realismo fantástico, como Borges, Bioy Casares e Cortázar. Mas o rosarino mais famoso na literatura tem outro estilo, completamente diferente. Roberto Fontanarrosa era um escritor que fazia humor com coisas simples, ria do cotidiano. Além disso, era um chargista talentosíssimo. Menções a ele estão em toda Rosario. Desde pinturas em muros até as prateleiras das livrarias ou no famoso café El Cairo, que ele frequentava até perto de sua morte, em 2007.

Inodoro Pereyra, um dos personagens mais conhecidos de Fontanarrosa

Inodoro Pereyra, um dos personagens mais conhecidos de Fontanarrosa

Além de respirar seu escritor mais célebre, Rosario tem outras fontes de cultura. O teatro El Círculo, que fica no centro, é clássico, tradicional e abre suas portas para visitas guiadas em dias sem espetáculo. O Museu de Belas Artes fica bem pertinho do Parque Independencia. O Museu de Arte Contemporânea de Rosario, na beira do rio Paraná. Mas, se você for lá, não chame o museu pela sua sigla MACRO. E sim por “los silos”, já que ele funciona em antigos silos, locais que armazenavam grãos.

E se você for que nem eu, caçador de lojas de discos, não deixe de ir à Utopia Records. O acervo de CDs é gigantesco. O de vinis, não tanto. Há ainda DVDs, fitas K7, camisetas, revistas importadas e vendas de ingressos de shows.

 

A capital argentina do sorvete artesanal

Esse apelido existe de verdade e faz o maior sentido. Há tantas sorveterias em Rosario quanto barbearias hipster em qualquer grande capital brasileira. Com a diferença que os helados não são modinha por lá. E sim negócios que passam de geração para geração. Foi a primeira vez em que vi delivery de sorvete numa cidade. Seja no inverno ou no verão, funcionando sempre!