Antes que digam que este é um post para falar mal do Marrocos, já quero adiantar que não se trata disso. Em quatro dias que passei por lá com a Janaína em abril de 2016, fiquei absolutamente encantado. Um país cujo território cabe dentro da Bahia consegue ter uma convivência harmoniosa de várias referências: árabes, judaicas, andaluzes, seja na religião, na arquitetura, na gastronomia… É tudo muito diferente do que estamos acostumados a ver no Brasil, com uma história bem mais antiga que a nossa e mais vasta do que qualquer guia de turismo pode contar.

Mas, como em qualquer destino turístico, o Marrocos está cheio de armadilhas para os viajantes. E essas diferenças de histórias e origens fazem com que os costumes locais sejam quase sempre um mistério para nós, brasileiros ou ocidentais em geral. Por isso, não acho que o país seja o melhor lugar para uma estreia em viagens para o exterior ou para quem mal sabe onde fica Marrocos. E mesmo os viajantes mais experientes podem cair em alguma pegadinha ou se aborrecer com algumas situações que podem ser inevitáveis, mas não imprevisíveis.

O que as medinas têm de fascinantes também têm de traiçoeiras para o turista desavisado

O que as medinas têm de fascinantes também têm de traiçoeiras para o turista desavisado

Baseado na experiência que tivemos na viagem a Fez, enumerei alguns perrengues para os quais é imprescindível se preparar psicologicamente antes de chegar ao Marrocos. E este preparo vai influenciar diretamente na percepção que você terá sobre o país ao final da viagem. Saber o que vai encontrar por lá vai fazer a diferença entre os motivos que vão fazer do passeio inesquecível. A viagem pode se tornar memorável por causa das boas lembranças, da boa comida e das lindas paisagens. Mas também pelo assédio ostensivo, por aborrecimentos e pelas dificuldades de comunicação.

Anote aí as dicas de viagem que posso te passar:

1. Tenha paciência com o excesso de segurança nos aeroportos

Nem nos Estados Unidos pós-11 de setembro os aeroportos têm uma segurança tão ostensiva. Já há máquinas de raio-X (daquelas que estamos acostumados a ver apenas na entrada da sala de embarque) logo no acesso aos terminais. E só passa por elas quem tiver bilhete de embarque em mãos. Ou seja: esperar no saguão por um parente que volta de viagem? Não pode. A espera é do portão para fora.

Outra coisa: policiais circulam o tempo inteiro com armas em punho. E não são pistolas ou cassetetes. São fuzis ou metralhadoras. Não vi nenhuma abordagem inadequada por parte dos policiais dentro do terminal em nenhum momento, mas a imagem assusta à primeira vista.

Também juro que nunca precisei mostrar meu passaporte a tanta gente num aeroporto. Esteja você chegando ao Marrocos ou indo embora, vão lhe pedir para apresentar o documento várias vezes. Não importa se você acabou de passar pelo procedimento de imigração. Não importa se você está apenas pedindo uma informação simples.

 

2. “La, shukran”, aprenda essa expressão em árabe

Comerciantes marroquinos poderão testar o limite da sua paciência

Comerciantes marroquinos poderão testar o limite da sua paciência

“Não, obrigado”. Você vai precisar falar isso um zilhão de vezes por dia. Quanto mais turístico for o lugar do seu passeio, mais ostensiva pode ser a abordagem. Vão lhe oferecer bugigangas das quais você não precisa, passeios que você pode fazer por conta própria, comidas que você não está a fim de experimentar. Sempre misturando inglês, francês e espanhol. Responder enfaticamente em árabe é uma forma gentil de pedir para não ser importunado.

 

3. Contrate um guia, mas defina bem a relação de trabalho

Alguns passeios no Marrocos são mais bem aproveitados se você tiver um guia local. As medinas, por exemplo, são emaranhados de ruelas estreitas sem nenhuma lógica. A não ser que você seja um prodígio do senso de navegação, o risco de se perder é enorme. E não vá confiando no Google Maps. A maior parte das ruas das medinas simplesmente não está no aplicativo.

Tendo tudo isso em vista, segui a dica de um blog brasileiro. Ele indicou um guia em Fez que falava português e dava até o e-mail do cara. Dois meses antes da viagem, entrei em contato com ele, que foi muito solícito e amável. Acertamos o preço de uma diária e, inclusive estava disposto a pagar uma gorjeta a mais pela ajuda que ele deu para reservar a nossa hospedagem. Quando o encontramos pessoalmente, eu realmente acreditei que estava contratando o serviço de um “amigo”.

Guias vão te mostrar vários detalhes escondidos nas medinas, como esta mesquita, mas também podem te colocar em roubadas

Guias vão te mostrar vários detalhes escondidos nas medinas, como esta mesquita, mas também podem te colocar em roubadas

Quando fomos para a medina com ele, no entanto, as coisas foram mudando aos poucos. Ele começou a dar a entender que já tinha uma programação para quatro dias conosco, sem que tivéssemos sequer cogitado isso. Quando nos levou ao curtume da cidade, não nos deu tempo de olhar a loja, dizendo que nos levaria a um lugar “menos turístico, mais barato e de boa qualidade” para que comprássemos couro. E mais: sempre falava em árabe com meio mundo de gente que encontrava pela medina. Inclusive com os donos das lojas em que nos levava. Pode parecer paranoia, mas isso nos deixou um pouco inseguros.

A desconfiança acabou se confirmando no segundo dia de passeio guiado (que marcamos meio que para nos livrar de uma possível encheção de saco). O guia nos perguntou se queríamos conhecer como se faziam os belos tapetes marroquinos. Achando que iríamos ter uma espécie de experiência “making of”, topamos. Mas acabou se tornando um dos momentos mais tensos da viagem. O dono da loja nos recebeu amigavelmente a princípio, mas poucos minutos depois estava nos coagindo a comprar pelo menos um tapete. Falava alto, nos pedia para que déssemos um preço que podíamos pagar, pediu para ver nossos cartões de crédito… A Janaína quase deixou 700 reais lá só para se livrar, mas acabei conseguindo demovê-la da ideia e sair com a fatura do cartão ilesa. Quando deixamos a loja sem nada, o guia falou algo como “é, não se pode comprar tudo”, meio ironicamente.

Com essa experiência, a dica que dou a vocês é: deixem tudo bem claro com o guia antes de o trabalho dele começar. Pesquisem bastante e tenham um roteiro o mais definido possível em mente. Se não quiserem comprar nada, sejam diretos e não deem margem para um mal entendido. É possível que eles cobrem uma diária diferente para um passeio sem compras, já que costumam receber comissão dos comerciantes. Mas fique de olho nas tabelas de preços dos guias credenciados. No hotel em que nos hospedamos, havia uma dessas tabelas afixada na recepção. Imagino que seja de praxe que essa informação seja bem acessível. É imprescindível para que você saiba o melhor preço a pagar pelo serviço.

 

4. Não confie plenamente em ninguém

Não tivemos a melhor das acolhidas em Fez. Pousamos à 1h30 da manhã, pegamos um transfer pré-agendado em direção a um estacionamento próximo ao nosso hotel, que ficava dentro da medina, onde carros não entram. O recepcionista estava nos esperando, mas não demorou para que reclamasse do horário, dizendo que eu havia dito que chegaríamos à 1h30 da tarde. Chequei toda a nossa troca de mensagens e confirmei que não tinha deixado a menor dúvida sobre o horário da chegada. Mas preferi não comprar briga.

Além disso, ele disse que faria o nosso procedimento de check-in pela manhã. Mesmo assim pediu nossos passaportes antes de subirmos para o quarto, dizendo que nos devolveria no dia seguinte. Na hora, não me dei conta do quanto isso foi arriscado, mas a Janaína chegou a dormir muito mal durante a noite por causa da preocupação. Os passaportes foram devolvidos pela manhã, mas o episódio nos deixou ressabiados pelo restante da estadia.

Mas o pensamento de “trust no one” ficou ainda mais claro quando percebi uma certa cadeia: hotéis falam mal dos guias, guias falam mal dos hotéis, comerciantes falam mal dos guias, e por aí vai. O guia que contratamos, por exemplo, não pôde entrar no nosso hotel e nos esperar na recepção. O recepcionista disse que ele era clandestino (e ele realmente não nos mostrou credencial alguma), mas chegamos a achar que ele dizia isso para nos convencer a contratar passeios oferecidos pelo próprio hotel. Apesar de nos ter indicado este hotel entre alguns outros, o guia disse que o estabelecimento “era uma máfia”. Quando saímos pela medina sem o guia, nos sentimos muito mais à vontade para comprar. E alguns comerciantes nos disseram que precisam fazer “preços turismo” para clientes acompanhados por guias, pois eles cobram comissões generosas.

Sem guias por perto, dá pra pechinchar ainda mais por belezuras como estas

Sem guias por perto, dá pra pechinchar ainda mais por belezuras como estas

Felizmente o Marrocos também tem muita gente amável e correta nesses serviços relacionados ao turismo. Mas vá com o espírito preparado para a lei do cão.

 

5. Mulheres atraem olhares (e muito mais)

Uma coisa que fica muito clara numa visita ao Marrocos é que o povo de lá tem uma sexualidade bastante reprimida. A maioria das mulheres locais sai de casa com pelo menos uma parte do corpo bastante coberta. Seja um lenço na cabeça, seja uma blusa de mangas longas, seja a burka que deixa apenas os olhos descobertos. Por isso, os homens marroquinos costumam olhar para uma mulher não-islâmica como o Coiote olha para o Papa Léguas.

Quando passeamos pela medina de Fez nos três dias em que estivemos lá, a Janaína estava sempre ao meu lado. Mesmo assim, não deixou de receber olhares “incomuns” (para usarmos um eufemismo bem suave) nem de ouvir algumas cantadas incompreensíveis em árabe. Várias vezes ela se queixou, dizendo que se sentia devorada com os olhos. Talvez não seja muito diferente do que acontece numa balada em alguma grande cidade brasileira. Mas é um país com costumes e códigos diferentes dos nossos, portanto é mais prudente não reagir do jeito que se reagiria a um assédio no Brasil. O melhor a se fazer é tentar abstrair. Por mais que você não esteja usando uma roupa ~~~provocante~~~, você será significada como “novidade” para eles.

E você? Já foi ao Marrocos? Tem alguma história de perrengue para contar? Tem alguma dica para acrescentar a estas? Manda ver nos comentários!