A cidade de New Orleans é o epicentro da pluralidade cultural do sul dos Estados Unidos. Negros, espanhóis, franceses, caribenhos… Todos passaram por lá ao longo da história da cidade e deixaram suas marcas. É possível ver esta miscelânea na arquitetura, na música e principalmente na gastronomia. Os pratos da cozinha cajun creole misturam referências de todos esses imigrantes que passaram pelo estado da Louisiana. Ainda há o bônus de temperos e pimentas para paladares iniciados e um bocado de diversão em qualquer esquina da Bourbon Street.

Se for para definir em poucas palavras, New Orleans é uma ótima cidade para se divertir. A vida noturna é tão movimentada que se antecipa e invade a luz do dia. No fim da tarde, o movimento no French Quarter (região da cidade que concentra uma grande quantidade de bares, casas noturnas e clubes de jazz) já está movimentado de gente de todo tipo. Jovens, idosos, grupos, casais com carrinhos de bebê… Há farras convidativas para qualquer perfil.

Além de boa comida e de diversão, a cidade oferece muita história.  Seja nas lendas de assombrações, na arquitetura de pelo menos dois bairros da cidade (French Quarter e Garden District) e em museus. Um deles é dedicado à Segunda Guerra Mundial, uma atração imponente e até surpreendente para quem espera apenas solos de trompete e bons drinks.

Os bondes da Canal Street: uma das caras da cidade

Os bondes da Canal Street: uma das caras da cidade

Estive em New Orleans em setembro de 2013 por três dias. E juro para vocês: estenderia minha estadia por pelo menos mais quatro, tamanho o astral da cidade e o conteúdo que ela oferece.

Baseado nessa breve passagem, montei um pequeno roteiro que pode servir de base para você planejar sua própria viagem. Há muito mais que ficou de fora das minhas andanças. Mas o seu ponto de partida pode ser por aqui. Vamos ao passo a passo!

1º dia

O nome do aeroporto internacional de New Orleans já dá uma amostra do quanto a cidade presta tributo a seus heróis musicais: Louis Armstrong, cantor e trompetista lembrado universalmente pelo clássico “What A Wonderful World”. Ao desembarcar, uma boa notícia: tem wi-fi livre por lá. O nome da conexão é LANOIA, sigla para Louis Armstrong New Orleans International Airport.

Com essas boas-vindas, não tem como essa viagem dar errado

Com essas boas-vindas, não tem como a viagem dar errado

O jeito mais econômico de sair do aeroporto, caso você esteja viajando sozinho, é um shuttle, uma van compartilhada. É possível reservar online, mas não se preocupe com isso: existe um balcão de venda de passagens logo no desembarque. O valor é 24 dólares cada viagem e 44 dólares se você comprar a volta antecipada. As empresas já têm os nomes dos principais hotéis. Então nem é preciso se preocupar em passar o endereço certinho caso você vá se hospedar num deles.

French Quarter

Para uma primeira vez na cidade, aconselho: hospede-se no French Quarter. É fácil de sair e chegar, muito simples se localizar e ainda há muita coisa boa para se ver. O bairro foi o ponto inicial da ocupação da cidade, fundada pelos franceses em 1718.

Apesar do nome, grande parte das casas e prédios que se veem na vizinhança tem estilo espanhol. É que dois grandes incêndios no final do século XVIII destruíram muitos exemplares da arquitetura colonial que havia antes. A reconstrução ficou por conta dos espanhóis, que administraram o estado da Louisiana na época. As casas são exuberantes, com paredes espessas, varandas em ferro forjado e fachadas de tijolo.

Passear pelo Quarteirão Francês pode ser um bom começo de roteiro. Entre os belos prédios que você certamente vai fotografar, estão a St Louis Cathedral, o Cabildo e o Presbytère. Além disso, a orla do rio Mississippi está ali, pronta para uma caminhada ou para a prática do “nadismo”.

As fachadas típicas do French Quarter

As fachadas típicas do French Quarter

Onde comer

Um bom lugar para almoçar é a Crescent City Brewhouse. Experimente as cervejas da casa (há um menu de degustação) e a cozinha local. Pratos cajun creole como o gumbo (uma sopa com crustáceos e tomate) e o jambalaya (uma espécie de mistura entre paella e baião de dois). Há também os famosos sanduíches de New Orleans: os po´boys, que existem em diversas versões, com recheios que vão de almôndegas a camarão empanado. Mas na Crescent você vai experimentar uma forma realmente inusitada: po´boy de linguiça de crocodilo, que é muito consumida na região.

Loius Armstrong Park

À tarde, vá andando pela Orleans Avenue até sair do French Quarter e chegar a outro lugar que homenageia Louis Armstrong. Um dos principais parques da cidade leva o nome do músico. Há esculturas dele e de outros jazzistas da cidade. Fotos das estátuas e do icônico pórtico de entrada são imperdíveis. Além da beleza, o Louis Armstrong Park também é especial na história da cidade. Ele fica junto da Congo Square, uma praça que era a porta de entrada para negros escravizados e que foi o berço da música afroamericana na cidade.

O Louis Armstrong Park também é cheio de cor e alegria

O Louis Armstrong Park também é cheio de cor e alegria

Noite na Bourbon Street

Sua primeira noite em NOLA (sigla para New Orleans-Louisiana, que você vai ver por todo canto) não poderia ter outro destino. Certamente você passará pela Bourbon Street, a mais famosa do French Quarter. Mas a fama não se deve exatamente à música. A rua está repleta de clubes de strip tease e bares que servem drinks “para viagem”. Isso é um atrativo, já que New Orleans é um dos poucos lugares dos Estados Unidos em que não é proibido consumir bebida alcoólica na rua. Por isso, turistas desinibidos de todas as idades circulam ali.

A maioria é de jovens, e muitos vão para fazer despedidas de solteiro. Mas também se veem casais idosos, mães com crianças de colo e pessoas em cadeira de rodas. Em meio a elas, mulheres fazendo pole dance, hosts de bares oferecendo cerveja em jarras enormes e um homem fantasiado de Homer Simpson bêbado. Há música, claro. Mas a maioria dos clubes com música ao vivo tem como atrações bandas que tocam covers de pop e rock.

Um início de noite na Bourbon Street

Um início de noite na Bourbon Street

Um lugar aonde fui na Bourbon e curti bastante é o Laffite´s Blacksmith Shop. Fica um pouco afastado do epicentro festivo da rua, mas a caminhada não é tão longa. O bar, que tem uma atmosfera de taverna, chama para si o título de mais antigo dos Estados Unidos. Está em atividade desde 1772. Há um espaço com um piano de cauda que vira mesa quando tem alguém tocando. Além disso, tem uma jukebox bem eclética, com discos que vão do jazz local até Daft Punk.

2º dia

Museu Nacional da Segunda Guerra Mundial

Depois de tomar um café da manhã creole em algum restaurante perto do Mississippi (experimentei o do Jackson Brewery), pegue um bonde na Canal Street. Vá até o surpreendente Museu Nacional da Segunda Guerra Mundial. É a principal atração turística de todo o país quando se quer saber sobre a guerra. E você sabe como os americanos são apegados a este conflito… Por isso, grupos de turistas de toda a parte do país vão lá para conhecer a história ou prestar tributo aos militares mortos.

Há sempre um veterano da guerra de plantão no hall de entrada do museu para receber os visitantes. E o acervo é riquíssimo: veículos, aeronaves, armas, uniformes e painéis contando a história da guerra (na versão dos americanos, óbvio). Outra atração imperdível é o filme 4D “Beyond All Boundaries”, sobre a participação americana desde o ataque a Pearl Harbor até a vitória final.

Museu da Segunda Guerra Mundial

Museu Nacional da Segunda Guerra Mundial

Garden District

O almoço pode ser em algum restaurante ou café na Magazine Street, que também tem loja descoladas de design e roupas. Andando um pouco mais por ela, você chega até outro bairro emblemático de New Orleans. separado do French Quarter por cerca de três quilômetros e um século. O Garden District foi criado para abrigar famílias americanas ricas que administravam as plantations (sistemas de cultivo de produtos como cana de açúcar e algodão, típicos dos anos 1800). Elas não queriam morar junto com os negros no Quarteirão Francês. Eles acabaram construindo mansões de diversos estilos: francês, grego, gótico e vitoriano, entre outros. Algumas das casas são históricas.

Uma delas, no número 2301 da Saint Charles Avenue, foi a residência da escritora Anne Rice durante a infância. Outras celebridades que ainda moram no Garden District são o ator John Goodman e o jogador de futebol americano Archie Manning. Ele é um dos astros do New Orleans Saints, o time local que disputa a NFL. Há agências que organizam tours guiados que contam a história de cada uma das principais mansões. Mas é muito fácil encontrar na internet informações para passeios autoguiados.

Uma típica mansão do Garden District

Uma típica mansão do Garden District

Noite na Frenchmen Street

À noite, saia um pouco do oba-oba da Bourbon Street e vá aonde os moradores de NOLA saem para ouvir música: a Frenchmen Street. Ela fica no final do French Quarter e abriga várias casas de shows. Lá se ouvem novos talentos e bandas conhecidas da cidade. A programação não costuma se restringir ao jazz. Blues, R&B, soul e até música latina pode ser conferida por lá. Bares como o The Maison e o d.b.a não cobram ingresso, mas é de bom tom que o público contribua com uma gorjeta. Em alguns shows, os próprios artistas vão de mesa em mesa pedir o dinheirinho pra garantir a noite.

Palco da Maison, na Frenchmen Street

Palco da Maison, na Frenchmen Street

3º dia

City tour sobre o Katrina

Não costumo gostar de city tours, mas New Orleans tem uma variedade tão grande de passeios temáticos que é difícil não se render a um deles. Quando estive por lá, fiz um sobre o furacão Katrina, que devastou a cidade em 2005. Muitas cicatrizes continuam abertas, especialmente em bairros que foram quase totalmente arrasados como o Ninth Ward. Há muitas casas danificadas, lotes inteiros desocupados e poucos serviços como transporte público e escolas.

Por outro lado, os músicos Harry Connick Jr e Branford Marsalis se juntaram para bancar a construção de um bairro planejado para abrigar os músicos da cidade que perderam suas casas com o furacão. Marcado por habitações multicoloridas, o Musician´s Village virou uma atração à parte em Nova Orleans. Além disso, simbolizou o esforço para que a cidade não perdesse a tradição da música. O Musician´s Village também abriga o Ellis Marsalis Center for Music, uma espécie de híbrido entre escola e centro cultural.

O Musicians Village é um símbolo da resistência da cidade pós-Katrina

O Musicians Village é um símbolo da resistência da cidade pós-Katrina

Mais dicas gastronômicas

Para a tarde, duas sugestões. Uma delas foi opção minha no ano em que conheci NOLA: me afastar um pouco do French Quarter para comer em dois lugares indicados por um amigo que havia visitado a cidade. Um deles é o o Parkway Bakery and Tavern, especializado em po´boys, os sanduíches de que falei algumas linhas acima. Experimente o de camarão empanado!

Perto dali, há uma sorveteria italiana chamada Angelo Brocato. É um daqueles negócios familiares, que passam de geração para geração. E, como em toda gelateria, o sorvete de pistache é espetacular! Na volta ao Quarteirão Francês, é legal tirar uma horinha para conhecer o French Market, que abriga um mercado agrícola e outro de pulgas. Para quem gosta de cozinhar, é o melhor lugar para comprar temperos e condimentos e tentar emular receitas creole quando voltar para casa. Caso você esteja cansado de caminhar, há muitas casas de imigrantes orientais que oferecem massagens nos pés.

Eis um po'boy de camarão empanado

Eis um po’boy de camarão empanado

Última noite tem que ser musical

Para a despedida noturna, minha sugestão é se ligar na agenda de dois dos principais palcos musicais da cidade. Um é o da Preservation Hall, que tem uma banda residente de jazz bastante conhecida. Outro é o da House Of Blues, que não se limita a shows de música. Os sites das duas casas são repletos de informações úteis para que você programe sua visita.

A agenda semanal da House Of Blues tá sempre na fachada. É passar por lá e se programar

A agenda semanal da House Of Blues tá sempre na fachada. É passar por lá e se programar

Bônus: os lugares que não conheci em New Orleans

Como falei, fiquei apenas três dias em NOLA e não tive oportunidade de conhecer tudo o que a cidade oferece. Mas, na conversa com moradores, gente que trabalha no turismo e visitantes de outros locais, peguei algumas dicas que podem ser bem pesquisadas na internet.

Passeios guiados: são literalmente DEZENAS. Cemitérios, música, drinks, pântanos, cruzeiros no Mississippi e até tours de histórias mal assombradas e que contam a história do vudu na cidade. Uma das agências que faz todos esses principais passeios é a Grey Line e o site dela pode ser um ótimo ponto de partida. Mas em qualquer hotel você encontra folhetos de outras agências que podem trazer opções mais interessantes para o que você procura.

Mardi Gras World: é um museu dedicado ao Mardi Gras, o carnaval de New Orleans. É possível conhecer um pouco da história da festa e também ver artistas e escultores preparando as alegorias e fantasias. Veja o site!

Movie Tour: de todos os tour guiados, o que mais me deu arrependimento de não fazer foi este. New Orleans foi locação para filmes e séries de TV, de JFK a True Blood, de Easy Rider a Django Livre, passando por Ray, Entrevista com o Vampiro e O Curioso Caso de Benjamin Button. Dá pra ter uma noção do passeio neste site.