Você já desistiu de planejar uma longa viagem por achar que não tinha dinheiro suficiente? Não vai ser surpresa se sua resposta tiver sido “sim”. Afinal de contas, passar perrengues por falta de grana é um terror. Mas será que você tomaria a mesma decisão se soubesse que sua força de trabalho poderia ajudar nas suas despesas? Trocar labuta por hospedagem e, de quebra, conhecer pessoas do mundo inteiro e mergulhar sem pressa numa cidade ou numa região. É a ideia do mochilão voluntário. Uma combinação bem consistente para fazer você mudar de ideia, não?

Mochilão voluntário. Esta é uma boa definição para a prática que tem se difundido e se juntado a outras que compõem o chamado turismo colaborativo. Em vez de uma relação de consumo, a viagem passa a focar mais nas experiências. E, aqui entre nós, isso é o que mais importa. Entre os meios de difusão desse turismo colaborativo estão redes sociais como Couchsurfing e Trip Advisor e serviços como o Airbnb.

Em um milharal de Memphis (EUA). Foto: Luna Markman/Arquivo pessoal

Em um milharal de Memphis (EUA). Foto: Luna Markman/Arquivo pessoal

A jornalista pernambucana Luna Markman fez duas viagens quase toda pautada em trabalho voluntário, entre 2015 e 2017. Quando conversou com o Mochileza, em setembro de 2016, estava trabalhando num hostel em Moscou. Já era a segunda etapa de um longo mochilão que começou nos Estados Unidos em maio de 2015 e só foi interrompido pelo carnaval de Olinda (“é de lei”, conta). Luna ainda passou pela Índia e pelo sudeste asiático antes de voltar a Pernambuco.

Em um jantar russo organizado no hostel de Moscou. Foto: Luna Markman/Arquivo pessoal

Em um jantar russo organizado no hostel de Moscou. Foto: Luna Markman/Arquivo pessoal

Como a jornada começou

A viagem de Luna começou quando decidiu sair de um emprego como repórter num portal de notícias no Recife. Foram seis anos trabalhando e juntando o máximo de dinheiro possível até que surgiu um gatilho para o mochilão: o convite para um trabalho remunerado de três meses nos parques da Disney, na Flórida. As economias engordaram e Luna pôde fazer a primeira parte da viagem: México, Belize, Guatemala, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina e Uruguai. Tudo isso ao longo de cinco meses.

A segunda parte do mochilão foi puxada pelo voluntariado. Luna saiu de Pernambuco rumo à França, onde trabalhou por dois meses numa pousada. “Sou bem flexível: já trabalhei arrumando quartos num camping e catando ervas daninhas numa fazenda de oliva, por exemplo. Faço o voluntariado por três motivos: quando quero ficar mais tempo em algum lugar para conhecer melhor, quando quero ficar mais tempo num país que tem o custo de vida mais alto ou quando quero me fixar num lugar para descansar. Meu descanso é trabalhando, diferente de todo mundo normal”, brinca.

Em uma praia do litoral francês. Foto: Luna Markman/Arquivo pessoal

Em uma praia do litoral francês. Foto: Luna Markman/Arquivo pessoal

Depois que deixou a França, Luna já passou por Itália, Suíça, Reino Unido, Irlanda, Espanha e Croácia até chegar à Rússia, onde fez outra parada dedicada ao trabalho voluntário. Cuidou das redes sociais e da organização de eventos de um hostel em Moscou. “Cada lugar oferece benefícios em troca do seu trabalho, como acomodação, refeição, dias livres e lavanderia, por exemplo. Além da economia que você faz, ainda pode ter uma vivência real no país escolhido e até sentir um impacto positivo na vida de outras pessoas”, explica Luna.

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Cachoeira na Croácia. Foto: Luna Markman/Arquivo pessoal

Nas Higlands, Escócia. Foto: Luna Markman/Arquivo pessoal

Nas Higlands, Escócia. Foto: Luna Markman/Arquivo pessoal

Como encontrar trabalho voluntário para o meu mochilão?

Entre as principais plataformas para encontrar destinos para trocar trabalho por hospedagem, Luna recomenda as seguintes:

Worldpackers: foi criada por dois amigos brasileiros, Riq Lima e Eric Faria. Viajantes e hosts fazem perfis como numa rede social. Depois que o viajante postula a vaga disponível, é preciso que “dê match”, ou seja, que o host aceite o voluntário baseado no perfil dele. Entre as categorias de trabalho disponíveis, estão: fotografia, impacto social, mídias sociais, culinária e ensino de idiomas, entre outras. Há vagas em 98 países.

Workaway: a dinâmica é a mesma do Worldpackers, mas com um alcance maior. São 24 mil hosts ativos com vagas em 155 países.

Volunteer HQ: tem uma curadoria de oportunidades mais específica. O foco são projetos de saúde, impacto social, conservação do meio ambiente, desenvolvimento de comunidades e atenção a crianças e idosos.

WWOOF: sigla em inglês para “world wide oportunities in organic farms”, ou seja, oportunidades ao redor do mundo em fazendas de orgânicos.

 

Dicas da Luna que podem servir para a sua viagem

Por mais que você não esteja interessado em trabalhar no meio de uma viagem, a Luna tem altas dicas que podem servir para você. Afinal de contas, ela já rodou um bocado e tem o passaporte bastante carimbado. Então anota aí:

Luna a caminho de São Petersburgo, na Rússia, com sua bagagem-padrão

Luna a caminho de São Petersburgo, na Rússia, com sua bagagem-padrão

Até para um roteiro sem muitos planos, é preciso planejar

“Eu tenho apenas a ideia dos países que eu quero conhecer e tento seguir um roteiro lógico, tipo sempre ir em uma direção. Faço o máximo para não planejar com muita antecedência para poder mudar de plano sem muita perda financeira (cancelar um voo ou hospedagem, por exemplo). Geralmente, eu sei o que vou fazer nos próximos 30 dias. Por um lado, pode ser ruim porque às vezes não há mais passagem barata para um determinado lugar. No entanto, você pode encontrar uma promoção que te leva para outro destino. Assim eu acho mais legal: não ficamos presos a um roteiro e abrimos espaço para boas surpresas”.

Abra a mente para o Couchsurfing

“Conheci o Couchsurfing nesta viagem, alguém me deu a dica. Pensei: ‘ir para a casa de um estranho? Por que não?”. Pode ser constrangedor no começo, mas depois você vai saber como se comportar em cada caso. Até agora, só tive hosts incríveis, que me ensinaram muito sobre suas cidades, me mimaram com jantares típicos, me levaram para passear. Alguns serão amigos para a vida, com certeza!”.

Economizar é prolongar a viagem

“Viaje de ônibus (aproveitando as lindas vistas ou lendo um bom livro) ou em companhias aéreas low cost. Neste caso, use sempre uma mochila pequena (de até 50 centímetros) e outra bolsa pequenina para não pagar os caríssimos check-ins de bagagem. Procure a Cruz Vermelha para comprar roupas de frio baratas e doe as suas roupas gastas para abrir espaço na mala. Coma em padaria, em restaurante local, aprenda a cozinhar. Veja em quais dias o museu é de graça. E quando for fazer um tour, pergunte o preço em pelo menos três agências para não ser enganado. Ah, e diga que é brasileiro! Sempre ajuda!”

Itens indispensáveis na bagagem

“Sempre ando com uma canga: ela protege do frio da Rússia, do sol do México, do vento do Saara. É cobertor em ônibus frio e lençol em sofá sujinho. Te dá espaço na areia da praia e na grama do parque. Tenha também cadeado, lenço umedecido e ziplocs. Além disso, um casaco de chuva e um par de tênis para caminhadas pesadas, tipo North Face”.

Dica bônus: a carteira internacional de jornalista dá direito a entrada grátis em alguns museus. Foto: Luna Markman/Arquivo pessoal

Dica bônus: a carteira internacional de jornalista dá direito a entrada grátis em alguns museus. Foto: Luna Markman/Arquivo pessoal

Para acompanhar o mochilão da Luna no Instagram é só segui-la: @lunamarkman