Se você acha que a relação entre Niemeyer e Brasília é a maior simbiose entre criador e criatura que se pode ver na arquitetura é porque não conhece Lanzarote. Ou nunca ouviu falar em César Manrique. Manrique teve uma visão única da relação entre natureza e homem para tornar alguns espaços de Lanzarote ainda mais interessantes. Além disso, ajudou a pensar num futuro sustentável para o turismo na região. Acabou colocando a assinatura dele em cada belo detalhe da ilha. E acredite: são muitos!

Na viagem que Janaína e eu fizemos às Ilhas Canárias em abril de 2016 (aqui você confere todos os posts a respeito deste roteiro), dedicamos um dia em Lanzarote apenas para conhecer o legado de César Manrique. Entre as criações dele que se tornaram atrações da ilha, estão centros turísticos, mirantes, obras de paisagismo, a casa onde ele viveu e o atelier onde trabalhava.

Anote aí: Jardín de Cactus, Mirador del Río, Jameos Del Agua, Cueva de los Verdes, Casa Museo del Campesino, Fundación César Manrique e Museo César Manrique.  Ainda que Lanzarote seja pequena (cerca de 850 quilômetros quadrados), não conseguimos dar conta de ver todos num dia só. Acabamos deixando de fora o Museo del Campesino e o Museo César Manrique. Volto a falar sobre cada um mais adiante. Afinal, antes é preciso conhecer o homenageado deste roteiro…

César Manrique em uma paisagem bem típica de Lanzarote

César Manrique em uma paisagem bem típica de Lanzarote

Quem é César Manrique?

César Manrique nasceu em Lanzarote em 1919, mas fez seus estudos em Madri. Era polivalente: arquiteto, pintor, escultor e, ainda por cima, foi pioneiro no debate sobre o desenvolvimento sustentável da região. Não queria que a ilha fosse degradada pelo crescimento da indústria do turismo nem que a natureza única de Lanzarote se perdesse em modelos engessados de progresso. Acabou transformando a ilha em sua grande obra, onde deixou um legado de arte e ideias.

Até os carros das locadoras das Ilhas Canárias têm a arte de Manrique

Até os carros das locadoras das Ilhas Canárias têm a arte de Manrique

Ao longo de sua vida, Manrique projetou centros turísticos que se tornaram cartões postais de Lanzarote. E ainda escreveu um ousado manifesto pela sustentabilidade da ilha (a íntegra para você ler aqui) que, entre outras coisas, sugeria a proibição de construção de novos leitos turísticos por dez anos. Além disso, se você notar que todos os imóveis de Lanzarote são brancos e padronizados, saiba que esta foi mais uma medida sugerida por Manrique.

O artista morreu em 1992, depois de ser atropelado quase em frente à casa onde morou por vinte anos. Mais de duas décadas depois, o pensamento de Manrique continua pautando as políticas públicas de Lanzarote e ajuda a tornar a ilha cada vez mais atraente.

A entrada da Fundação

A entrada da Fundação

No ambiente externo, cores e paisagismo

No ambiente externo, cores e paisagismo

Fundación César Manrique

Nossa jornada começou na Fundaçión César Manrique, que funciona na casa onde o artista viveu e perto do local do acidente que lhe tirou a vida. Ouvimos alguém na cidade dizer que a fundação era uma “casa de artista” em estado puro: um projeto arquitetônico incomum, uma coleção numerosa de obras de arte e algumas extravagâncias que resultavam num lugar bastante inspirador.

Só que o mais incomum é a história do local onde a casa foi construída. Ela foi erguida numa área bastante afetada pelas erupções vulcânicas do século 18. O piso inferior, por exemplo, aproveita cinco bolhas vulcânicas naturais que se comunicam por meio de túneis escavados na lava. Só olhando de perto para acreditar. O piso superior une a arquitetura tradicional de Lanzarote com elementos mais modernos de iluminação, ventilação e decoração. Além disso, há os jardins e as piscinas, com visuais que alternam entre os cactos desérticos e as palmeiras tropicais.

Um ambiente construído em uma das bolhas vulcânicas. Aqui, dizem os guias, rolavam altas festinhas

Um ambiente construído em uma das bolhas vulcânicas. Aqui, dizem os guias, rolavam altas festinhas

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Esta outra bolha foi dedicada ao paisagismo

Jardín de Cactus

A segunda parada do dia foi no Jardín de Cactus de Lanzarote. Entre os centros turísticos criados por Manrique, este foi o último a ser construído. Tem 5 mil metros quadrados de extensão e uma coleção de cactos que ultrapassa as mil espécies e os 7 mil e 200 exemplares. Eles vêm de toda parte do mundo e estão sempre ganhando companhia, com a plantação periódica de novos espécimes.

Se você já achou essa foto alucinante, acredite: ao vivo é ainda melhor

Se você já achou essa foto alucinante, acredite: ao vivo é ainda melhor

Os cactos estão dispostos num caminho meio labiríntico, que sobe até um moinho que já existia antes da criação do Jardim e foi restaurado para fazer parte do projeto. De junto do moinho, a vista é impressionante: dá para ver a variedade da coleção botânica e o relevo de Lanzarote, com algumas montanhas e vulcões no horizonte. É como se a mão do homem jogasse no mesmo time que a natureza, e não no adversário.

Welcome to the desert

Welcome to the desert

O Jardín de Cactus tem um café onde dá para fazer um lanche e também uma lojinha de souvenirs. Lá você pode comprar mudinhas de cactos ou sementes para plantar em casa.

Jameos Del Agua

Em seguida, fomos aos Jameos del Agua, que foi o primeiro dos centros turísticos idealizados por Manrique a ser inaugurado. Ele foi construído numa gruta aberta por um túnel vulcânico após as erupções do século 18. Esse túnel tem algumas aberturas (os tais “jameos” do nome) por onde se acessa o caminho. Dentro da gruta, há um lago natural onde estão alguns exemplares de uma espécie de caranguejo albino que só existem lá. A altura da gruta, a iluminação natural que penetra nela e a perfeição da harmonia entre homem e natureza impressionam.

O caranguejo raro é o mascote dos Jameos del Agua

O caranguejo raro é o mascote dos Jameos del Agua

A gruta acessível pelo principal "jameo"

A gruta acessível pelo principal “jameo”

Um lugar para atiçar o gênio fotógrafo que existe em cada um de nós

Um lugar para atiçar o gênio fotógrafo que existe em cada um de nós

Além do lago, o centro turístico possui uma espécie de anfiteatro para receber apresentações musicais, um café, um lago artificial e um paisagismo de palmeiras na área externa. Fora do turismo, os Jameos del Agua abrigam a Casa de los Volcanes, um projeto de estudo de sismologia e geodinâmica realizado por várias instituições e universidades. Para pesquisar os vulcões, poucos lugares são tão apropriados como uma ilha repleta deles.

Cueva de los Verdes

Bem perto dos Jameos, está outro centro que tem origens bem semelhantes. A Cueva de los Verdes também surgiu a partir de um túnel vulcânico. Esse túnel interliga os dois centros, mas essa ligação não está acessível aos visitantes. Na Cueva de los Verdes, esse túnel (que chega a ter 50 metros de altura em alguns trechos) formou três galerias subterrâneas, que proporcionam que se veja um mesmo ponto de várias perspectivas.

É preciso andar em fila e em grupos espaçados dentro da Cueva de los Verdes

É preciso andar em fila e em grupos espaçados dentro da Cueva de los Verdes

O visual dentro da caverna é impressionante

O visual dentro da caverna é impressionante

A intervenção humana na Cueva foi muito mais sutil que nos Jameos. Por isso, ao caminhar pelas galerias, você só verá os paredões de rocha talhados pela lava há trezentos anos. Mas no final de um dos caminhos, há um local interessantíssimo. Um auditório natural, que na verdade é uma caverna com o formato de uma concha acústica, onde é montado um palco para concertos de música clássica. Os guias dizem que a acústica é impecável e que ver um espetáculo desse tipo ali é imperdível. Como não tinha nada na agenda nos dias que ficamos em Lanzarote, ficamos só na imaginação.

Imagine ver um concerto aqui...

Imagine ver um concerto aqui…

Mirador del Río

O passeio pelas obras de César Manrique terminou no centro que nos trouxe uma das vistas mais lindas da viagem. O Mirador del Río fica no extremo norte da ilha, a 48 quilômetros de Puerto del Carmen, onde estávamos hospedados. Como este foi o último ponto de parada do dia, o cansaço já estava batendo forte. Mas a recompensa veio com louvor.

Tá bom pra você?

Tá bom pra você?

É contemplar e nada mais

É contemplar e nada mais

O mirante fica numa falésia a 400 metros de altitude e proporciona uma vista espetacular: de frente para a ilha de La Graciosa (que também faz parte do arquipélago das Canárias) e outras duas ilhotas. Quero apostar desde já com você: é impossível não tentar tirar todo tipo de foto panorâmica com este cenário.

Minha panorâmica definitiva do Mirador del Río

Minha panorâmica definitiva do Mirador del Río

O edifício do mirante foi construído entre dois acidentes geológicos e dentro dele há corredores que serpenteiam até chegar à cafeteria de onde já se tem uma ótima visão panorâmica. Mas, a partir deste pavimento, há mais dois acessíveis por uma escada caracol e que têm o horizonte completamente livre para contemplação. Um belo final pra um belo dia.

Obviamente odiamos a vista #sqn

Obviamente odiamos a vista #sqn

Dicas práticas para visitar os centros

Cada um dos centros turísticos tem um tempo sugerido de visitação de 45 minutos a 1 hora. Os preços dos ingressos variam de 4,50 a 9 euros. Mas a dica para economizar é a seguinte: a maior parte deles está dentro de um pacote de ingressos casados (Mirador del Río, Cueva de los Verdes, Jameos del Agua, Jardín de Cactus e o parque das Montanhas de Fogo, que mostramos neste outro post). Você pode comprar combos de entradas que ajudam a economizar alguns trocados. É possível adquirir esses combos nas bilheterias de qualquer um dos centros.

A Fundación César Manrique não faz parte deste combo, mas dá para comprar um ingresso casadinho com uma atração que não visitamos: o Museo César Manrique, construído no atelier onde o artista trabalhava. Em qualquer um dos dois locais você pode adquirir essa promoção.

Outra dica importante: não dá para fazer grandes refeições em nenhum dos centros turísticos. Onde dá para comer melhor é no Jardín de Cactus, que tem uma cafeteria com algumas tapas. Já na Cueva de los Verdes, por outro lado, não tem nada para comer. Nos outros, apenas lanchonetes e cafés. Caso queira comer melhor, uma indicação é parar na vila de Punta Mujeres (que fica bem perto dos Jameos del Agua) e procurar um restaurante por lá. Aproveite para dar uma voltinha pela bela orla antes de seguir seu roteiro.

Um vistaço na orla de Punta Mujeres

Um vistaço na orla de Punta Mujeres

Links úteis

Mais informações sobre os centros turísticos de Lanzarote neste link.

Este outro traz informações em português sobre César Manrique e algumas de suas obras.

E este aqui é o da Fundación, em que você pode se informar sobre a Fundação e o Museu que levam o nome do artista.

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