Pensar em viagem de intercâmbio geralmente leva a algumas ideias bem formatadas. O pacote padrão inclui morar na casa de uma família, estudar o idioma numa escola destinada a estrangeiros e se divertir no tempo que sobra. Mas o que fazer quando você quer extrair um pouco mais dessa experiência? Que tal conhecer um lado do mundo que não costuma ser vivenciado nos intercâmbios tradicionais? Talvez seja interessante para você conhecer o intercâmbio social.

O intercâmbio social é uma tendência recente e crescente. É baseado em trabalho voluntário, mas um pouco diferente da experiência da mochileira Luna que contamos neste post. Assim como nos intercâmbios tradicionais, existe uma agência que intermedia a viagem, que oferece assistência no país de destino e que organiza os projetos em forma de pacotes. Mas, em vez do estudo do idioma, o foco é outro tipo de imersão: o apoio para o cumprimento das metas globais de desenvolvimento sustentável em países subdesenvolvidos.

O que é intercâmbio social?

A gente vai destrinchar para você o que é intercâmbio social com base na experiência do Felipe Balota. Ele tem 28 anos, é engenheiro de alimentos numa multinacional, mora em Campinas e passou quatro semanas no Egito em agosto de 2016. Felipe participou do programa Cidadão Global da AIESEC, uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo a formação de lideranças jovens ao redor do mundo. O projeto no Egito foi a terceira experiência desse tipo que Felipe viveu.

“Trabalhei na Eslovênia em 2014, dando aulas de cultura brasileira para alunos de terceira a nona série. E em 2015 participei de um projeto de empreendedorismo social na Indonésia numa espécie de ‘jogo de empresas’ entre escolas públicas. Escolhi o Egito desta vez porque queria fazer o intercâmbio social num continente diferente, queria fugir do eixo cultural-educacional e também procurava um projeto que me deixasse mais solto para explorar a cidade”, explica.

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Zerando o Egito

Felipe participou do Explore Egypt, um projeto de turismo para ajudar o Egito a atingir uma das metas globais da ONU: melhorar os índices de emprego e crescimento econômico. O turismo é uma das principais atividades que sustentam a economia egípcia. Mas, segundo Felipe, tem sido comprometido por conflitos como os que levaram à Primavera Árabe de 2011: as tensões religiosas e uma ditadura que só foi derrubada depois de 30 anos.

“A ideia do projeto era tentar recuperar o turismo, viajando pelas 12 cidades mais turísticas do país e mostrando isso para o mundo. No edital do projeto, era citado um blog para mantermos depoimentos, fotos e vídeos. Assim, tentaríamos dar um impulso no interesse pelo Egito”, conta Felipe.

Mas aí você pode se perguntar: em quatro semanas deu para conhecer todo o país?

Zerei o Egito”, responde Felipe, brincando. Ele passou pelas seguintes cidades: Cairo, Gizé, Damieta, Porto Said, Ras El-Bar, Sharm el-Sheikh, Dahab, Sinai do Sul, Alexandria, Luxor, Aswan, 6 de Outubro, Mansura e Porto Sokhna.

Ufa!

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Nem tudo são flores…

Felipe aponta que, por mais que tenha sido uma viagem extensa, o projeto não saiu tão bem quanto o esperado. “Foi bonito na teoria, mas nem tanto na prática. A unidade da AIESEC que me recebeu no Egito era bem desorganizada. Não existiu blog e as viagens foram muito mal planejadas”, relata.

Por outro lado, Felipe reforçou a impressão que já tinha das outras viagens que fez nos anos anteriores. “Para mim, o intercâmbio social é o melhor jeito possível de viajar. A intensidade é diferente e o propósito final não é financeiro. Então você enriquece em outros aspectos. Quando você trabalha, mesmo que voluntariamente, você mergulha na cultura, convive com várias gerações e consegue voltar para casa com um olhar mais crítico”, explica.

Não faltou matéria-prima para que Felipe aprimorasse essa sintonia no olhar de viajante durante o intercâmbio social. O Egito é um dos maiores países islâmicos do continente africano. São mais de 70 milhões de muçulmanos, o equivalente a 85% da população. As quatro semanas por lá foram suficientes para ter noção da interferência religiosa nos cidadãos. “Eles são conformados com a situação econômica e social do país. Para qualquer questionamento, a resposta é igual: o Egito é assim mesmo, não tem o que fazer. A parte mais triste é que os jovens não se esforçam para tentar fazer diferente em nenhum aspecto”, conta.

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Ficou interessado em fazer um intercâmbio social semelhante ao do Felipe no Egito? Então passe no site do programa Cidadão Global da AIESEC. Há oportunidades na América Latina, Ásia, África, Leste Europeu e no Mundo Árabe. Pelo site, também é possível descobrir se há um escritório da AIESEC na sua cidade: http://aiesec.org.br/estudantes/cidadao-global/

Top 5 passeios no Egito – por Felipe Balota

O intercâmbio do Felipe teve trabalho, mas também teve passeios. Afinal de contas, o cara diz que zerou o Egito! Então a gente propôs a ele que enumerasse os cinco programas mais legais que fez por lá. Assim, você pode pautar a sua viagem mesmo que não seja num intercâmbio social. Saque as dicas:

 

1. Monte Sinai

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Segundo a Bíblia, é o local onde Moisés cunhou a tábua dos Dez Mandamentos seguindo a orientação de Deus. Mas também foi local de passagem de profetas das outras duas grandes religiões monoteístas atuais: judaísmo e islamismo. O monte fica na Península de Sinai, a única parte do território egípcio que fica na Ásia e é banhada pelo Mar Mediterrâneo ao norte e pelo Mar Vermelho ao sul.

Para chegar ao Monte Sinai, o ponto de partida mais comum é a cidade de Taba, na fronteira do Egito com Israel. A partir de lá, são 182 km de estrada. E é apenas o começo… Para subir os quase 2300 metros de altitude, há uma escada com 4 mil degraus. A caminhada dura cerca de três horas. Muita gente enfrenta o frio para fazer essa peregrinação durante a madrugada e chegar ao topo antes dos primeiros raios da manhã. “É o nascer do sol mais incrível que já vi na vida”, relata Felipe.

 

2. Pirâmides de Gizé

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Com mais de 4500 anos desde que foram erguidas, as pirâmides do Egito representam a única maravilha do mundo antigo que continua de pé. O imaginário clássico do imenso deserto ao redor das pirâmides está ficando cada vez mais distante da realidade. Isso porque a urbanização cresceu demais ao redor delas. Além do mais, o movimento de ônibus, excursões, turistas e vendedores ambulantes fazem com que o passeio tenha um nível alto no grau de irritabilidade. Mesmo assim, dar de cara com as gigantes milenares de pedra é inesquecível. “Cartão postal clássico e imperdível. Fiquei sem palavras”, conta Felipe.

3. Cruzeiro pelo Rio Nilo

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

O segundo maior do mundo está presente em vários capítulos dos livros de História, inspirou obras da literatura, da música e do cinema. Hoje, pode ser conhecido pelos turistas em alto estilo. Navios de vários padrões e preços percorrem grande parte dos quase 7 mil quilômetros de extensão do Nilo. A bordo, têm alojamentos, bares, restaurantes, terraços com piscina e conforto proporcional ao preço que se paga.

Felipe Balota, nosso personagem do post, fez um cruzeiro de três dias entre as cidades de Luxor e Aswan. Vejam o relato dele:

“Durante a travessia, você vai parar em uns 8 templos, cada um com sua particularidade, todos sensacionais! É indispensável a presença de um guia local que fale inglês pra que você aproveite a experiência ao máximo. Na lista de paradas você encontra o Vale dos Reis, local escolhido por algumas dinastias de faraós como local para construírem suas tumbas. Lá já foram encontradas 63, a última em 2005”.

 

4. Buraco Azul em Dahab

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Quem acha que o Egito só tem pirâmides, camelos e faraós vai ter uma surpresa em tanto se conhecer Dahab. A cidade fica na península do Sinai e é um destino muito turístico, bem servido de opções para viajantes de todos os bolsos. É uma vila à beira mar e um dos carros-chefes é a prática de esportes aquáticos de aventura, como windsurf e kitesurf. “A cidade lembra muito Paraty e Trindade”, explica Felipe.

Mas a maior pedida é o Buraco Azul, que fica alguns quilômetros ao norte do centro da vila. Buracos azuis são formados em áreas costeiras que ficavam acima do nível do mar há alguns milhares de anos. O de Dahab tem 130 metros de profundidade e, dizem, é um dos mais perigosos do mundo. Mesmo assim, há passeios de mergulho por lá para iniciantes e iniciados. Leve sua câmera à prova d’água.

 

5. Biblioteca de Alexandria

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

Foto: Felipe Balota (arquivo pessoal)

A biblioteca que está de pé hoje às margens do Mar Mediterrâneo não é a mesma que surgiu nos primeiros séculos do calendário cristão. No entanto, impressiona pelo tamanho (capacidade para armazenar 8 milhões de livros) e pela modernidade do projeto, inaugurado em 2002. A biblioteca original tinha o objetivo de difundir o conhecimento produzido pelos gregos para o Oriente. Hoje, funciona junto à Universidade de Alexandria e recebe mais de um milhão e meio de visitantes por anos. “A cidade de Alexandria também não deixa a desejar, bem moderna e tem outros pontos turísticos pra se visitar”, acrescenta Felipe.