A inspiração para uma viagem pode vir de inúmeras fontes. O relato das férias de um amigo, a vida de uma figura histórica e as fotos num guia ou revista especializada são alguns exemplos. Mas poucas possibilidades são tão encantadoras neste processo quanto os filmes. O cinema seduz com as imagens em movimento, com os conflitos de seus personagens e com as jornadas que eles empregam em busca das soluções.

Às vezes as tramas nem precisam ser tão envolventes para que o cinema inspire uma viagem. Basta que uma região esteja bem retratada na telona. Filmes podem se tornar grandes veículos de divulgação turística de uma cidade ou de um país, intencionalmente ou não. Não foi à toa, por exemplo, que o então prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, disse em 2013: “pago o que for para que Woody Allen venha filmar aqui”. Na última década, o cineasta tem revezado as locações de seus filmes e deixando seus espectadores loucos para viajar por cidades como BarcelonaParis e Roma.

Há também as inspirações que vêm por meio dos conflitos pessoais mostrados nas tramas. A velha busca pelo sentido da vida, em diversas roupagens, é tema de viagens mostradas em filmes. Jornadas de autoconhecimento, de ruptura e libertação também levam personagens a sair pelo mundo afora com pouca bagagem e muito wanderlust.

Já escrevi um post sobre Malta, um lugar onde foram rodados vários filmes e seriados. Mas desta vez, decidi elaborar uma lista dos filmes que me despertaram, de alguma forma, o desejo de viajar por aí. Não são necessariamente os meus filmes favoritos ou mesmo integrantes das listas dos melhores de todos os tempos. Mas certamente têm grande capacidade de inspirá-lo a arrumar as malas e comprar uma passagem. Confira!

 

Hector e a Procura da Felicidade (2014)

hector

Sabe aqueles filmes que você descobre numa zapeada e acabam te prendendo até o fim? Foi o que este “Hector” fez comigo. Ele conta a história de um psiquiatra inglês que tinha tudo o que muita gente acharia suficiente para uma vida perfeita. Um bom emprego, uma linda namorada, um belo apartamento e muito mais. Só que, um belo dia, se descobre impaciente e inquieto. Questiona aos pacientes dele – e a si mesmo – se são felizes de fato e o que traz felicidade às pessoas. E aí começa a missão antecipada pelo título do filme.

Hector (interpretado pelo comediante inglês Simon Pegg) tira um período sabático e viaja a lugares completamente distintos entre si para entender os motivos da felicidade. Na Ásia, ele visita uma grande cidade e conhece um monastério. Na África, vai a um povoado marcado pela miséria e pela violência. E em Los Angeles, reencontra uma antiga namorada. As viagens são cheias de belos encontros e diálogos, que são engrandecidos pelo ótimo elenco: Jean Reno, Stellan Skarsgard, Christopher Plummer e Toni Colette, entre outros.

A jornada de Hector mostra que a importância de viajar está além de ver lindas paisagens para fotografar e postar nas redes sociais. Cada lugar que visitamos e cada pessoa que conhecemos tem algo a nos ensinar. Basta que estejamos de coração e ouvidos abertos para receber. Às vezes, o pensamento que ilumina e soluciona um problema do dia-a-dia está a milhares de quilômetros das nossas casas.

 

 

Sete Anos no Tibet (1997)

7-years-tibet

As viagens mais transformadoras podem ser as menos planejadas ou desejadas. É o caso mostrado neste filme estrelado por Brad Pitt e inspirado numa história real. No final dos anos 1930, o alpinista austríaco Heinrich Harrer deixou a Europa rumo à Ásia para escalar a montanha Nanga Parbat, o nono pico mais alto do mundo. Arrogante e egocêntrico, fugiu do casamento em crise (com a esposa grávida) em busca unicamente da glória pessoal. Acabou surpreendido com o começo da Segunda Guerra Mundial.

No momento em que a Inglaterra declarou guerra à Alemanha (da qual a Áustria fazia parte), Harrer estava em território inglês na Índia. Acabou virando prisioneiro ao lado de outro alpinista, Peter Aufschnaiter. Os dois conseguiram fugir depois de várias tentativas, chegaram à cidade sagrada de Lhasa e se tornaram os primeiros estrangeiros a viver legalmente por lá. O período no Tibete provocou uma revolução pessoal em Harrer. Ele teve contato com a cultura budista, se tornou uma pessoa mais generosa e até virou uma espécie de conselheiro pessoal do Dalai Lama (que na época era um pré-adolescente).

Além de toda a parte espiritual da viagem, “Sete Anos no Tibete” também é inspirador pelas belas paisagens mostradas no filme. Mas, por mais convincente que o cenário possa parecer, a maior parte das gravações foi feita muito longe da Ásia. Em vez dos Himalaias, a principal locação foi nos Andes, na região da cidade argentina de Mendoza. A produção conseguiu fazer algumas filmagens secretamente em Lhasa, que renderam cerca de 20 minutos no resultado final da película.

 

 

Vicky Cristina Barcelona (2008)

vicky-cristina-barcelona-rambla

Este talvez seja um dos melhores exemplos de como um filme pode inspirar de várias formas uma viagem. Ele mostra os lugares mais marcantes de uma das mais belas cidades da Europa. Tem como protagonistas duas jovens mulheres que passam uma temporada na Espanha com motivações diferentes: uma para estudar e outra para tentar se encontrar na vida. E ainda mostra uma viagem dentro da viagem, como uma espécie de fuga da rotina.

Além disso, o filme ainda tem um maluco polígono amoroso. Vicky (Rebecca Hall) é uma cumpridora de regras prestes a se casar. A companheira de viagem dela é Cristina (Scarlett Johansson), que está em busca de uma vocação. Elas se envolvem com o charmoso pintor Juan Antonio (Javier Bardem), que não se contenta enquanto não seduz as duas, e com a ex-mulher dele, María Elena (Penélope Cruz), que ainda não superou o fim do relacionamento.

Em meio às reviravoltas sentimentais e a diálogos divertidíssimos, Woody Allen mostra a estonteante Barcelona e seus cartões postais. A Sagrada Família, o Parc Guell, a Casa Milá, as Ramblas e o Bairro Gótico. As cenas são tão bonitas que talvez sejam a melhor publicidade que Barcelona já teve. Além disso, o filme apresentou ao mundo a cidade de Oviedo, nas Astúrias, aonde Juan Antonio leva Vicky e Cristina para um fim de semana romântico. A locação acabou rendendo a Allen uma homenagem: o cineasta tem uma estátua na cidade, que de vez em quando precisa ter os óculos repostos por conta de furtos.

Estátua de Woody Allen em Oviedo. Foto: Noemy García García - Wikimedia Commons

Estátua de Woody Allen em Oviedo. Foto: Noemy García García – Wikimedia Commons

 

 

Antes da Meia Noite (2013)

before-midnight-3

A trilogia do cineasta Richard Linklater, que disseca a evolução do relacionamento entre o americano Jesse e a francesa Céline, inspira viagens em todos os seus volumes. No primeiro filme, “Antes do Amanhecer”, o casal se conhece num trem e se apaixona quando decide passar menos de 24 horas em Viena. O segundo filme se passa em Paris e o reencontro entre os protagonistas, nove anos depois, leva o espectador a locais pouco conhecidos da capital francesa. O terceiro fecha brilhantemente a saga, não só na história do casal, mas também nas locações.

Em “Antes da Meia-Noite”, Jesse e Céline recebem de um casal de amigos um presente dos sonhos: uma viagem para a região de Messênia, na Grécia. Já como um casal de quase nove anos juntos, eles discutem um impasse. Jesse quer morar perto do filho mais velho nos Estados Unidos para recuperar o tempo perdido. Céline não quer abrir mão de uma ótima proposta de trabalho na Europa.

Enquanto os dois têm uma tonelada de DRs, Linklater nos apresenta cenários deslumbrantes. A pequena cidade de Kardamyli, por exemplo, fica encravada entre o mar azulzinho do Golfo da Messênia e a cordilheira do Taigeto. A histórica Pilos foi palco de uma das poucas derrotas dos espartanos para os atenienses nas Guerras do Peloponeso. E são cheias de praias, montanhas, pequenas ilhas, ruínas e castelos por onde Jesse e Céline passeiam.

 

 

Encontros e Desencontros (2003)

lost-in-translation

Quem nunca sentiu medo de não conseguir se comunicar num país estrangeiro? A dificuldade de entender letreiros, pedir um café ou até mesmo de conseguir uma informação sobre transporte é apavorante. Especialmente se você é um viajante pouco experiente. Só que o mais legal é que há lugares que, apesar de todo esse risco, conseguem fascinar e seduzir. A Tóquio retratada em “Encontros e Desencontros” é um deles.

O título original do filme é “Lost In Translation”, que é mais fiel à história. Bob Harris (Bill Murray) é um ator cinquentão. Charlotte (Scarlett Johansson) é a esposa de um fotógrafo de celebridades que foi acompanhá-lo numa viagem de trabalho. Cada um enfrenta um tipo particular de solidão e um acaba dando ao outro compreensão e empatia.  Juntos, eles criam a coragem para conhecer a capital japonesa, suas luzes de neon e seus segredos.

É óbvio que as falhas de comunicação entre japoneses e americanos (os “perdidos na tradução” do título) aparecem aos montes. E são mostradas quase sempre com uma deliciosa ironia. Impossível não se identificar ou não se lembrar de alguma situação semelhante que nós mesmos vivemos.

 

 

Na Natureza Selvagem (2007)

into-the-wild

Viagens podem ser grandes escolas. Elas têm grande potencial para nos ensinar a viver com menos, a nos comunicar melhor com as pessoas e a dar valor ao que realmente importa na vida. Para cada necessidade que você tenha, sempre vai haver uma viagem com o perfil indicado, como se fosse um curso. E há aquelas pessoas que decidem optar logo pelo mais difícil e intensivo, como é o caso do protagonista de “Na Natureza Selvagem”.

O filme dirigido por Sean Penn conta a história real de Chirstopher McCandless (interpretado por Emile Hirsch). Logo após se formar na faculdade, ele resolve bolar uma viagem para fazer uma gigantesca ruptura na vida. Quer partir sem rumo pelo interior dos Estados Unidos, abrindo mão do conforto da casa dos pais, dos valores materialistas da família e de uma vida protocolar. Ele doa todo o dinheiro que tinha a uma instituição de caridade, muda de identidade e cai na estrada.

No meio da viagem, Christopher arruma empregos temporários e conhece várias pessoas com quem tem trocas de experiências transformadoras. Mesmo rodando o país quase de ponta a ponta, ele tem um objetivo claro. Quer chegar ao Alasca, onde pretende ter uma vivência completamente alheia à humanidade e em contato com a natureza em seu estado puro. Por mais que seja uma jornada levada a situações extremas, a história de Christopher é inspiradora para quem precisa de experiências de imersão e autoconhecimento.

 

 

E você? Já foi inspirado a viajar por causa de algum filme? Conta pra gente aí nos comentários!