Cada viagem é um novo capítulo na grade curricular de aprendizados possíveis da sua vida. Assim como na escola, existem aquelas matérias em que a gente sente mais dificuldade. Você não precisa ser um aluno brilhante, e sim apenas passar. Nem que seja depois de ficar de recuperação ou de reprovar uma ou outra vez. Com uma diferença crucial: os erros que você comete quando viaja não vão para um boletim.

É natural que a gente cometa erros nas nossas viagens. O planejamento da logística pode dar errado. O dinheiro pode acabar antes das férias. Ou aquela atração que parecia imperdível pode se revelar uma grande roubada. Logo que a gente erra, tem vontade de se submeter ao tribunal mais cruel que existe: o da nossa culpa. Mas, depois que o sangue esfria, tudo vira lição e até anedota.

Faço pelo menos uma viagem internacional por ano desde 2007 e confesso a vocês: já passei muitos perrengues nessas andanças por aí. Alguns não foram culpa minha, como o buraco em que caí até o joelho numa calçada de Assunção em 2009. Outros foram bem evitáveis, como o voo com quatro paradas entre Miami e o Recife na volta das férias de 2013. Todos esses erros me ajudaram a planejar melhor as viagens seguintes. Pode ser que ajudem nas suas também.

Compartilho com vocês, então, as minhas piores notas vermelhas em mais de uma década como viajante:

Erro #1 – Marcar voos para o início da manhã

Foto: Pixabay

Esse erro eu cometi na viagem para a Europa em 2017. Nosso voo de volta para o Brasil começava em Turim às 6h45 da manhã. O transporte público para o aeroporto não funciona 24h na cidade. Portanto, para chegar ao aeroporto na antecedência padrão do check-in, pedimos um táxi para as 3h30 da madrugada. Noite mal dormida e uma longa espera para voar foram apenas o início de uma péssima jornada de retorno pra casa.

Por mais que sejam trechos domésticos e o check-in não demande tanta antecedência, pegar um voo no início da manhã exige acordar muito cedo. Isso porque a maioria dos aeroportos das grandes cidades fica em regiões afastadas. Ou seja, contando com o deslocamento e dependendo da cidade onde você está, um voo às 8h pode demandar que você saia do hotel (ou apartamento) às 5h.

Tem quem já tenha o costume de acordar a esta hora normalmente. Mas sempre é bom lembrar: estamos falando de pessoas de férias. Prezar por mais horas de sono não é crime.

Outro problema relacionado a este erro é o horário de entrada nos hotéis e apartamentos. A regra universal é que o check-in seja no meio do dia, entre 12h e 14h. Chegar pela manhã no destino significa que existe uma grande chance de você precisar fazer hora na rua antes de ocupar sua hospedagem. Se a noite anterior foi de pouco sono, a combinação é terrível.

O que fazer?

Quando tiver voos curtos (de até 2 horas) para fazer na sua viagem, verifique a possibilidade de fazê-los o mais perto possível do meio-dia. Você tem tempo suficiente para tomar café da manhã, ir sem pressa para o aeroporto e não precisar matar hora antes de fazer o check-in no hotel. E o melhor: sem madrugar.

 

Erro # 2 –  Voos chegando de madrugada

Foto: Danilo Bueno – Pixabay

Vacilo cometido na chegada ao Marrocos em abril de 2016. Depois de 3h30 de espera pela conexão no aeroporto de Casablanca, pegamos um voo rumo a Fez e desembarcamos pouco depois de 1 da manhã. Tínhamos um transfer reservado, mas nossa hospedagem ficava na medina. Quem já foi ao Marrocos sabe que qualquer medina é um lugar dificílimo de se localizar, ainda mais de madrugada.

Imagine a combinação: viagem cansativa + destino onde a comunicação não é das mais fáceis. Não recomendo…

A não ser que você esteja no último voo de volta para casa, chegar de madrugada bagunça o relógio biológico. O dia seguinte fatalmente terá uma dose extra de cansaço. Além disso, existe o fator deslocamento. Nem todas as cidades têm transporte 24 horas saindo ou chegando ao aeroporto. Você vai depender de táxi, que nunca é exatamente econômico e ainda pode lhe deixar na mão de um motorista desorientado ou mal intencionado.

O que fazer?

Se um voo chegando de madrugada for inevitável no seu roteiro, estude bem o transporte na sua cidade de destino. Há trens, metrôs ou ônibus saindo do aeroporto? Se não houver, pesquise a distância até a sua hospedagem e use sites como o Rome 2 Rio para calcular o preço de uma corrida de táxi. Outra opção é verificar se o aeroporto oferece o serviço de transfers regulares, como vans compartilhadas. Seja qual for a solução, não marque nenhuma programação para muito cedo no dia seguinte.

 

Erro # 3 – Mala muito grande

Foto: BeKuFu – Morguefile

Na época da viagem que fiz para os Estados Unidos em 2013, eu tinha malas que eram ou pequenas demais ou grandes demais para 19 dias. Imaginando que ia fazer algumas compras, acabei levando a mala grande. Ela acabou se enchendo de presentes, lembranças e cacarecos. Naturalmente, ficou pesada demais e difícil para ser levada numa viagem solitária e econômica. Ainda teve uma alça e uma rodinha quebradas nos voos no meio do roteiro.

Malas grandes são armadilhas. Por mais que você saia de viagem levando pouca bagagem, elas sempre vão fazer você acreditar que uma nova compra não vai fazer tanta diferença no peso. De repente, o que era um objeto carregável se transforma numa bigorna impossível de transportar.

Particularmente, só recomendo malas grandes para quem está mudando de cidade ou fazendo viagens de compras. Neste segundo caso, é bom planejar a logística de transporte em função de bagagem muito volumosa. Alugar um carro, por exemplo, é fundamental.

O que fazer?

O melhor é se reeducar para levar o mínimo possível de bagagem. Já tratamos do assunto neste post sobre viajar leve. As vantagens são muitas: desde economizar usando transporte público até dificultar a cilada de fazer compras desnecessárias.

 

Erro # 4 – Compras no meio da viagem

Foto: Goodward – Pixabay

Mais um erro que cometi na viagem para os Estados Unidos. Eu havia levado todo o dinheiro das férias num cartão pré-pago. Encontrava lojas de discos e eletrônicos legais a cada parada e ia pagando no Travel Money sem nem sentir. Quando fui ver o saldo na metade da viagem, só me restavam cerca de 20% dos dólares que havia comprado no Brasil. A reta final acabou sendo de cintos apertados e gastos não planejados no cartão de crédito.

Ter vontade de comprar não deve ser motivo para se sentir o maior consumista do planeta. Afinal de contas, quando a gente viaja, sempre vê prateleiras repletas de coisas que a gente acha que nunca mais vai encontrar na vida. Mas, a não ser que você viaje com recursos ilimitados, três dígitos numa compra significam abrir mão de algumas ótimas refeições ou de belos passeios.

O que fazer?

Se você viaja com um objetivo de compra em mente (uma câmera, um celular, um perfume), embarque com o dinheiro dessa compra separado. Finja que esse valor não existe até encontrar o seu objeto de desejo. Caso você não tenha nenhum sonho de consumo desse tipo, não se esbalde nas lembrancinhas nos primeiros dias. Deixe as compras para o final.

 

Erro # 5 – Não ler a política de cancelamento e remarcação das passagens

Foto: Torsten Dettlaf – Pexels

Quando viajamos para a Europa em fevereiro de 2017, a Janaína estava grávida de três meses da nossa filha Olívia. No dia da viagem, ela acordou com um sangramento que nos deixou apavorados. Pensamos em adiar o voo e cortar uma parte dos dias da viagem. Entramos em contato com a Condor, a companhia aérea, e tivemos péssimas notícias. Nossa tarifa não permitia remarcação nem reembolso. E para qualquer consulta neste sentido, teríamos que entrar em contato com o escritório da empresa na Alemanha, com 72 horas de prazo de resposta.

Na cara e na coragem, acabamos viajando. Por sorte, tudo correu bem. Mas foi um risco que poderíamos ter evitado. Pela lei do mercado, as tarifas mais flexíveis em relação a remarcação e reembolso são mais caras. Mas, dependendo das circunstâncias, vale a pena pagar um pouco mais para evitar as possibilidades de aperreio.

O que fazer?

Não deixar de ler as letras miúdas na hora de comprar uma passagem, ainda mais se ela for cara e para o exterior. Analisar a diferença de preço entre as tarifas levando em consideração a possibilidade de cancelamento, remarcação e reembolso. Se a gente pudesse antecipar os problemas que levam a uma mudança de planos numa viagem, eles não se chamariam imprevistos.

 

Erro # 6 – Ignorar o perfil da hospedagem

Foto: quanghieu_st1 – Pixabay

Na viagem para a Colômbia, em julho de 2011, cometi um 2-hit combo de erros. Na ida de Bogotá para Cartagena, cheguei de madrugada e ainda caí numa armadilha que só piorou as coisas. Viajava sozinho e me hospedei num hostel. Mas fiz a reserva sem saber que era um hostel muito festeiro, daqueles que têm programação quase diária num espaço no terraço. Os quartos não eram muito arejados. Portanto, ou eu passava calor ou eu ouvia todo o barulho da festança. Não preciso dizer que foi uma primeira noite tenebrosa, preciso?

Todos os viajantes são diferentes entre si – e isso é ótimo. Assim como achei ruim ficar num albergue festeiro, outra pessoa poderia se sentir entediada num local silencioso. Há perfis de hospedagens tão variados quanto os perfis de turistas. E hoje em dia há informação demais na internet para evitar que se cometa o mesmo erro que eu.

O que fazer?

Em primeiro lugar, delimitar o que você espera da sua hospedagem. Quer privacidade? Conforto? Diversão sem precisar sair do lugar? Sempre vai haver uma opção para lhe contemplar. Quando souber bem o que quer, é a hora de pesquisar. E não faltam ferramentas para isso: redes sociais, Trip Advisor, Booking, blogs, etc.

 

Erro # 7 – Chegar a um lugar sem plano algum

Foto: Fxq19910504 – Pixabay

Nas férias de 2009, tomei uma decisão pela primeira, única e última vez: faria uma viagem meio sem lenço, sem documento. Ficaria numa cidade pelo tempo que me desse na telha e decidiria lá qual seria o próximo destino. Estava em Foz do Iguaçu e resolvi ir mais dentro da fronteira para conhecer Assunção. Pela internet, reservei um albergue cujo nome nunca esqueci: Black Cat Hostel. Ao chegar na capital paraguaia, peguei um táxi e, pasmem: o endereço do albergue não existia. Acabei me hospedando num hotel indicado pelo taxista e pagando tarifa balcão.

Não foi a única roubada dessa viagem. Na época, o Museu do Futebol Sul-Americano (que fica na sede da Conmebol) tinha acabado de ser inaugurado. Peguei dois ônibus num dia chuvoso até Luque, na região metropolitana de Assunção. Ao chegar lá, recebi a notícia: o museu estava fechado, pois era segunda-feira. No dia seguinte, ele também não abriria. Era feriado nacional.

Resumindo: a vontade de me libertar dos planos e roteiros bem fechados me fez perder praticamente três dias de viagem. Viajar ao léu é um talento que nem todo mundo tem. Descobri que eu não tinha. E percebi que até para a ausência de planos é preciso ter um plano. Nem que seja para colocar em prática no caso de nada dar certo.

O que fazer?

Tenha pelo menos uma lista de coisas para fazer no seu próximo destino. Não deixe para descobrir seus programas depois que chegar. Você não precisa ter uma agenda detalhada se achar que esse tipo de planejamento aprisiona. Mas tenha em mente pelo menos uma quantidade de atividades proporcional ao número de dias que você vai passar no destino.