Sou um apaixonado incondicional pela América Latina e suas cidades de charme chulo. Aquelas que, por mais que se desenvolvam, continuam com os lembretes permanentes e escancarados de que somos todos parte do terceiro mundo. Ônibus estropiados, ambulantes que sobem nos coletivos para vender qualquer bugiganga e gente que gosta de ouvir música alta em todo lugar. Por essas e outras, escolhi a Colômbia como destino para uma viagem de férias em julho de 2011.

Naquela época, poucos brasileiros se atreviam a conhecer o país. Talvez por acreditar que narcotraficantes e guerrilheiros das FARC constituem um Estado paralelo. Mas nos últimos anos, a publicidade turística da Colômbia tem aumentado bastante, da mesma forma como o preço das passagens tem diminuído.

Centro de Bogotá

Centro de Bogotá

Uma coisa é fato: o país possui um território privilegiadíssimo no que diz respeito à variedade de atrações. Tem praias nos oceanos Atlântico e Pacífico, ilhas paradisíacas no mar do Caribe, montanhas, selva, cidades históricas e algumas metrópoles para quem gosta de turismo urbano. Não à toa, o slogan da publicidade oficial do país diz que o único risco que o turista corre ao conhecer a Colômbia é de que ele queira ficar.

E uma das impressões mais fortes que a Colômbia me deixou é a de que o trocadilho do slogan faz o maior sentido. É um país seguro, que parece ter feito o possível e o impossível para deixar no passado os tempos dos cartéis. As cidades que visitei são extremamente bem policiadas. Às vezes até homens do exército estão nas ruas, dependendo do horário e do local.

Dá pra tomar um tinto (cafezinho à colombiana) em coffee trucks simpáticos assim

Dá pra tomar um tinto (cafezinho à colombiana) em coffee trucks simpáticos assim

Outra coisa: diferente de muitos companheiros de continente, a Colômbia não presta um tributo exagerado ao passado. Enquanto Argentina e Uruguai se orgulham de seu pedigree na arquitetura de prédios antigos e outras tradições, em terras colombianas a relação é mais discreta. Entre estátuas de Simón Bolívar e referências a artistas como Fernando Botero, se sobressaem prédios modernos e viadutos. Além disso, as principais cidades do país possuem uma vida noturna intensa e surpreendente. As ressalvas ficam para os ônibus pequenos e velhinhos, que os colombianos chamam de busetas.

Queria compartilhar algumas impressões e dicas com vocês, amigos leitores que pretendem conhecer a Colômbia em breve. A primeira parte do relato é sobre a capital do país.

Bogotá

Vida noturna

Nove da noite de um sábado é o horário do cineminha em quase qualquer grande cidade do planeta. Em Bogotá, as coisas são bem diferentes. Nesta hora, a Zona Rosa (que concentra bares, casas noturnas, boates e similares no norte da cidade) está movimentada como se já fosse o início da madrugada no Brasil.

A “rumba” (versão bogotana da “balada” brasileira) é incendiária, variada e barulhenta. Cada local parece querer fazer uma parte de sua festa na rua, direcionando caixas de som para a calçada. E a música toda se mistura: salsa, cúmbia eletrônica, tecno, rock e vallenato (um estilo folclórico colombiano) concorrem nos bares praticamente justapostos. Além disso, há opções para todos os bolsos. Ao lado de um clube mais classe média, pode estar um “hueco”, como os nativos definem os botecos mais pé-sujo. Entrei em um deles, que me chamou a atenção pela mescla de referências. Na parede, um pôster quase em tamanho real do U2. No som, alguns temas de vallenato eram alternados com velhos hits do Metallica e os últimos sucessos do reggaeton da Colômbia.

Transporte público

Sob a luz do dia, Bogotá é uma cidade talvez um pouco menos interessante do que à noite. É grande, bastante populosa (8 milhões de habitantes) e possui um trânsito bastante congestionado. Quem mora lá diz que já foi pior. As coisas melhoraram com a implantação do Transmilenio, um sistema de ônibus biarticulados com corredores exclusivos e estações como as de metrô. O Transmilenio é a versão colombiana do BRT que já existe em algumas capitais brasileiras. Aliás, o modelo da capital da Colômbia inspirou algumas das nossas cidades. Junto com as busetas, os ônibus do Transmilenio conseguem servir bem a cidade inteira. O sistema é um pouco confuso no começo. Mas, com o mapa das estações em mãos, no segundo dia já é possível tirar de letra e compreender o funcionamento.

A vibe de La Candelaria: não lembra o centro histórico de Olinda?

A vibe de La Candelaria: não lembra o centro histórico de Olinda?

Passeios clássicos

Dois lugares foram os que achei mais interessantes em Bogotá. Um deles é o centro histórico, também chamado de La Candelaria. O bairro tem casarios coloniais e ruas estreitas, quase como qualquer centro histórico do mundo. Mas também possui uma vida bastante intensa, graças à grande presença de espaços culturais e albergues nas redondezas.

Perto de La Candelaria, está o outro lugar que me agradou bastante: o Cerro Monserrate. É uma montanha que, no alto de seus mais de 3 mil metros, possui um santuário, dois restaurantes e um mirante que proporciona a melhor vista de Bogotá. Para subir, há duas opções: o funicular (como eles chamam um bondinho sobre trilhos) e o teleférico.

A vista do Cerro Monserrate dá noção do tamanho de Bogotá

A vista do Cerro Monserrate dá noção do tamanho de Bogotá

Bebidas com e sem álcool

Um ponto importantíssimo: bebidas. As cervejas nacionais são ruins, pelo menos as mais consumidas, Águila e Poker, que conseguem ser mais aguadas que a Schin. Procure sempre a Club Colombia, uma espécie de cerveja semi-premium, algo equivalente a uma Therezópolis local.

Mas o trago colombiano mais patriótico é o aguardente, que apesar de também ser feito de cana de açúcar, tem um sabor distinto e um pouco mais adocicado. Os nativos o tomam gelado, acompanhando com pedaços de limão chupados na hora.

Para os abstêmios, a Colômbia é bem servida de uma bebida não menos viciante: café. O país é um dos maiores produtores do mundo e a fama do café colombiano é merecida. Ele é saboroso e tem um perfume diferenciado. Não deixe de tomar um “tinto” (como os colombianos chamam o cafezinho preto) ou alguma outra de suas variantes no Juan Valdéz, uma espécie de Starbucks local. Procure também em feirinhas de artesanato outras formas de saborear o café local: bombons, doces e caramelos, por exemplo.

Starbucks não tem vez / viva Juan Valdez

Starbucks não tem vez / viva Juan Valdez

Museus em Bogotá

Para quem gosta de museus, Bogotá tem duas opções bem bacanas. Uma delas é o Museo Del Oro, que fica bem no centrão da cidade. A coleção tem mais de 50 mil peças, entre trabalhos de ourivesaria, cerâmica e tecelagem com pedras preciosas. E claro, muito ouro. O museu foi criado em 1939 pelo Banco da República Colombiana e sua coleção é declarada Monumento Nacional.

Inchallá, muito ouro!

Inchallá, muito ouro!

Também vale muito conhecer o Museo Botero, que tem uma coleção de mais de 100 obras doadas pelo próprio artista. Se você não liga o nome à pessoa, o colombiano Fernando Botero é conhecido por pintar uma realidade um pouco distorcida e sempre retratar mulheres gordinhas. Pois bem, Botero é colombiano e doou esculturas, gravuras e pinturas (inclusive a sua famosa versão da Monalisa) para a criação deste museu. O acervo também tem obras de outros artistas célebres como Picasso e Miró. O melhor de tudo: a entrada no museu é gratuita. Há visitas guiadas sem necessidade de reserva. Basta consultar os horários no site.

A Monalisa em versão plus size

A Monalisa em versão plus size

Catedral de Sal de Zipaquirá

Uma das atrações mais interessantes de Bogotá fica, na verdade, fora da cidade. A 50 quilômetros da capital colombiana, está o povoado de Zipaquirá, que abriga a incrível Catedral de Sal. Não imagine uma igreja toda branquinha, erguida apenas com cloreto de sódio. O templo, considerado uma das sete maravilhas colombianas, é subterrâneo e está localizado numa área próxima das maiores salinas do país. Os pontos mais profundos estão 180 metros abaixo do solo e a engenhosidade e a beleza da Catedral impressionam até quem não é religioso.

Uma igreja proibida para hipertensos

Uma igreja proibida para hipertensos

Quando os visitantes dão o primeiro passo dentro da Catedral, a primeira reação é quase sempre a mesma: tocar as paredes de pedra e lamber os dedos para provar se aqueles flocos brancos são mesmo de sal. E são mesmo. A igreja é formada por uma série de túneis com pequenos mirantes que simbolizam as 14 estações da via crúcis. Muitas figuras não lembram em nada o calvário de Jesus, mas a iluminação ajuda a embelezar essas obras abstratas de arte sacra. Há duas naves na Catedral, onde são realizadas missas e até casamentos. A espirituosa guia nos informa que, para os casos de matrimônios, existe um atalho que permite o desembarque de um carro mais perto do templo central. Ela diz que serve para a chegada da noiva ou para a fuga do noivo…

A aprazível Zipaquirá

A aprazível Zipaquirá

Além de outras esculturas menos abstratas, a Catedral de Sal também tem lojinha de souvenirs e um café na área subterrânea. Quando voltar ao nível do chão, pegue um trem turístico que sai a poucos metros da entrada da Catedral. Ele custa o mesmo preço de um táxi e passa pelos pontos mais interessantes da cidadezinha de arquitetura colonial.

Como chegar à Catedral de Sal de Zipaquirá:

Em Bogotá, pegue um Transmilenio e desça na estação Portal del Norte. Dela, saem os ônibus para as cidades da região metropolitano. Até Zipaquirá, a passagem custa 3.700 pesos (R$ 3,70). Do terminal até a Catedral, a caminhada é grande e há algumas ladeiras. Melhor tomar um táxi, que custa menos de 4.000 pesos (R$ 4). *** preços relativos a julho de 2011

Já foi a Bogotá? Como foi sua experiência lá? O que achou do país? Tem algum relato bacana para compartilhar? Vamos conversar nos comentários! 🙂