Uma das primeiras coisas que se aprende sobre Chicago é o apelido de “Windy City”. Aí você planeja uma visita à cidade e espera um frio de rachar os ossos e ventos de cortar as vísceras. Ao chegar, você se dá conta de que veio na virada do verão para o outono e comemora poder sair de bermuda todo dia. O problema é que, por infortúnio ou desinformação, você pega um dia com 35 graus no termômetro justo quando tinha programado longos passeios a pé. E eis o momento em que até mesmo um cara nascido na Amazônia e morador do Nordeste brasileiro pede arrego.

Sim, essa história aconteceu comigo na minha primeira ida a Chicago. Foi em setembro de 2013 e juro a vocês que não esperava que a capital do estado de Illinois pudesse ser uma estufa em alguma época do ano. Qualquer lugar que você pesquise aponta que o mês mais quente do ano em Chicago é julho. Mas nenhuma fonte informa médias superiores a 30 graus. Um dia como o relatado no primeiro parágrafo foi uma surpreendente exceção numa cidade que chega a 10 graus negativos em janeiro.

Chicago 40 graus (ou quase isso)

Chicago 40 graus (ou quase isso)

E a surpresa não ficou só no termômetro. No meio da caminhada nesse dia equatorial, descobri que Chicago tem praia. A cidade fica bem no meio-oeste americano, a milhares de quilômetros de qualquer uma das costas dos Estados Unidos. Mas tem o Michigan, um dos cinco grandes lagos da América do Norte, com quase 60 mil quilômetros quadrados de superfície. Em Chicago, você enxerga o horizonte mas não enxerga a outra margem do Michigan. E encontra uma faixa de areia onde tomar um sol e curtir o “veranico” americano.

Não é Porto de Galinhas, mas dá pro gasto

Não é Porto de Galinhas, mas dá pro gasto

É a Oak Street Beach, que fica no bairro de Gold Coast. A apenas 5 quilômetros do centro financeiro de Chicago, há essa paisagem bem diferente dos arranha-céus e dos trens suspensos. A areia não é exatamente branquinha, mas dá pro gasto numa cidade acostumada com baixas temperaturas o ano inteiro. A praia é sinalizada e tem regras bem estritas. Quer fazer um churrasco? Existem áreas limitadas para isso, inclusive com local específico para jogar o carvão usado fora. Mas não pode ter cerveja para acompanhar. É que o consumo de álcool é proibido.

As regras da Oak Street Beach

As regras da Oak Street Beach

Oak Street não é a única praia de Chicago. Há outras 26, segundo o site do Chicago Park District. Inclusive se você estiver a fim de aproveitar uma delas, o site informa quais estão próprias para o banho.

Os moradores de Chicago também aproveitam os dias quentes nos parques. O mais importante deles hoje em dia é o Millenium Park, apesar do pouco tempo de vida. Ele foi inaugurado em 2004, mas deu um impulso de valorização nos endereços ao redor. A região tem um dos metros quadrados mais caros do mercado imobiliário dos Estados Unidos.

As crianças na Crown Fountain

As crianças na Crown Fountain

Quando o calor aperta, o ponto mais procurado no Millenium Park é a Crown Fountain. É uma mistura de fonte e obra de arte pós-moderna, criada pelo artista catalão Jaume Plensa. Ela possui duas torres de vidro com 15 metros de altura. Em determinadas épocas do ano, a fonte ganha seu componente tecnológico. Projeta rostos de pessoas nas torres. Dos lábios delas, jorram jatos de água para refrescar. Quando visitei o parque, não havia projeção alguma e a Crown Fountain acabou parecendo nada além de um ralador de queijo gigante.

Fonte ou ralador?

Fonte ou ralador?

A alguns metros da Crown Fountain no Millenium Park há uma obra impossível de ignorar, seja qual for o clima do dia. É a Cloud Gate, a famosa escultura prateada em forma de feijão. Aliás, em dias ensolarados ela fica ainda mais hipnotizante. Feita com placas de aço polido, ela parece um grande espelho côncavo. Quanto mais luz, mais claro é o reflexo e mais aquele grande troço de 100 toneladas pode se confundir com um céu azulzinho. Seu Instagram não será mais o mesmo depois da Cloud Gate.

A Cloud Gate num dia ensolarado

A Cloud Gate num dia ensolarado

Mas as obras de arte nas ruas de Chicago não ficam apenas no Millenium Park. O centro financeiro da cidade é um museu a céu aberto de alto nível. A região é conhecida como Loop, porque o sistema de trens suspensos da cidade foi planejado para desenhar o círculo ao redor dos endereços mais movimentados. Em meio a arranha-céus e estações de transporte público, há a assinatura de Picasso, Miró e Chagall, por exemplo.

A escultura de Pablo Picasso fica na Daley Plaza e foi instalada por lá em 1967. Tem 15 metros de altura e é constantemente chamada de apenas The Picasso. Ela causou polêmica na época da inauguração porque o centro da cidade recebia apenas estátuas de figuras históricas. De repente, tinha uma escultura impossível de decifrar. A família de Picasso diz que o artista espanhol se inspirou numa francesa chamada Lydia Corbett, que posou para a famosa obra Sylvette e tinha um pescoço longo e um rabo de cavalo comprido.

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The Picasso, como dizem os moradores de Chicago

Um conterrâneo de Picasso que também deixou sua marca na cidade foi Joan Miró. A escultura Miro´s Chicago fica a poucos metros da estação Washington do metrô. Ela tem 12 metros de altura e reúne vários materiais: aço, malha de arame, concreto, bronze e cerâmica. As formas da obra representam uma divindade da terra, uma estrela e raios de luz.

Miró's Chicago

Miró’s Chicago

A Bank One Plaza, em frente à torre do banco Chase, foi o local onde o russo-francês Marc Chagall tem sua assinatura. É dele o mosaico Four Seasons, que tem 21 metros de comprimento por 4m de altura e 3m de largura. As pastilhas que compõem a obra têm mais de 250 cores diferentes. No desenho, é possível identificar formas aleatórias como peixes, sóis, casais, uma fruta cítrica cortada no meio e paisagens da cidade.

O mural de Chagal em Chicago

O mural de Chagal em Chicago

Se você não é uma pessoa das artes visuais e sim do esporte, tem uma obra para você admirar no United Center. O ginásio fica um pouco afastado do centro da cidade (a estação de metrô mais próxima é a Illinois Medical Center). É a casa do Chicago Bulls, o famoso time de basquete. No lado de fora, a principal atração é a estátua de Michael Jordan, o maior jogador da equipe em todos os tempos.

O voo de Jordan eternizado

O voo de Jordan eternizado

Confira aqui outras dicas para curtir Chicago tanto quanto eu curti:

Chicago Riverwalk

O rio Chicago passa por uma área cêntrica da cidade e é cercado de arranha-céus. Mas a orla é um lugar que não foi totalmente engolido pela verticalização. Há ciclovias e calçadões para caminhadas, além de bancos para contemplação e para a gostosa prática do nadismo (quem nunca?). Quem quiser também pode passear no rio, seja em pequenos cruzeiros ou até mesmo em táxis aquáticos (confira o site da Chicago Water Taxi).

A convivência entre o rio e os arranha-céus

A convivência entre o rio e os arranha-céus

Skydeck

Lembram do arranha-céu do filme Curtindo a Vida Adoidado? Aquele com as paredes envidraçadas em que Ferris Bueller e sua turma ficavam pendurados? Continua sendo um dos principais cartões postais da cidade. Ele é um observatório no 103º andar da Willis Tower (edifício que durante muitos anos foi conhecido como Sears Tower). São 452 metros de altura e uma visão impressionante. Descubra a hora em que o sol se põe e tente planejar uma visita para conferir o skyline da cidade de dia e de noite. O Skydeck abre todos os dias do ano.

Não tive coragem de fazer isso no Skydeck. Mas que parece lega, parece.

Não tive coragem de fazer isso no Skydeck. Mas que parece legal, parece.

Milwaukee Avenue

Caminhar nesta avenida a a partir da estação de metrô Logan Square é como mergulhar em uma feira internacional. Esta região  tradicionalmente abriga imigrantes. Alguns deixaram marcas mais duradouras, como os noruegueses que construíram uma igreja que ainda celebra missas no idioma nórdico. Os mexicanos também marcam presença com seus restaurantes de tacos. Mas os poloneses são os mais numerosos. Tanto que há uma área conhecida como Polish Village (Vila Polonesa), com comércios, restaurantes típicos e letreiros em polonês.

Um doce para quem traduzir este letreiro

Um doce para quem traduzir este letreiro

Reckless Records

Já mencionei em alguns outros posts que sou vidrado em lojas de discos. E esta é uma das mais legais que conheci nas minhas viagens por aí. A Reckless tem três locais em Chicago, mas o mais legal é o da Milwaukee Avenue (estação de metrô mais próxima: Division). O acervo é gigantesco, principalmente de CDs usados em ótimo estado, que custam de 1 a 7 dólares. Confira o site.