Encravada nas montanhas do norte da Tailândia, Chiang Mai tem uma atmosfera muito mais tranquila que a caótica Bangkok. Há um certo ar de cidade do interior. O fato de contar com apenas um décimo da população da capital tailandesa certamente ajuda. Com cerca de 200 mil habitantes, esta é a principal cidade dessa região desde a sua construção, no final do século XIII, pelo primeiro Rei Lanna (Phaya Mangrai). Literalmente, “Reino de Milhões de Campos de Arroz”, Lanna foi um importante reino do sudeste asiático entre os séculos XIII e XVIII, quando foi definitivamente anexado ao Reino de Sião. Lembra dos termos “irmãos siameses” e do “gato siamês”? Pois é, eles fazem referência a este reino, que depois virou Tailândia. As heranças arquitetônicas desse período estão muito bem preservadas em dezenas de construções pela cidade, principalmente nos templos budistas.

Com base nas experiências que vivenciamos por lá, sugiro aqui um roteiro de três dias.

 

Onde se hospedar

Ficamos no excelente Sala Lanna. Esse hotel boutique parecia ser recém-construído. Era confortável, limpo, bem decorado e tinha ótimos restaurantes. Não deixe de experimentar o carpaccio e as pizzas do Itália, restaurante anexo ao hotel. No café da manhã, prove o delicioso bagel de salmão.

 

1º dia – Por dentro das Muralhas da antiga Chiang Mai

Aproveite o primeiro dia em Chiang Mai para se situar, passeando pelo interior da Cidade Murada. Um quadrilátero quase perfeito protegido por um fosso e, obviamente, uma grande parede. É aqui que estão alguns dos templos mais bonitos de Chiang Mai. Você pode até alugar uma bicicleta para navegar pelas ruelas do centro histórico, como muitos fazem.

Wat Phra Singh

Wat Phra Singh, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

Wat Phra Singh, Chiang Mai. Foto: Manuela Corral.

 

Comece pelo lugar mais visitado da cidade: o WAT PHRA SINGH. A fama desse templo se deve à reverenciada imagem do Buda Leão (Phra Singh), abrigada aqui desde o século XIV. Além disso, a estatueta é considerada um dos mais bonitos exemplos da arte sacra Lanna. Ela fica em uma pequena capela com arquitetura típica Lanna nos fundos do terreno. Também chama a atenção a linda pintura dourada sobre o fundo vermelho escuro em todas as paredes interiores do templo.

Há ainda um agradável jardim na área externa do complexo. Foi aqui que vimos várias árvores com placas que traziam mensagem do tipo “o tempo e a maré não esperam por ninguém” e “é melhor chorar com o sábio do que rir com o tolo”.

Wat Phra Singh, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

Wat Phra Singh, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

 

Uma etiqueta importante de se ter em mente quando se está no interior de um templo, além das mais usuais (não falar alto, vestir-se de modo a cobrir ombros e joelhos, evitar exibição pública de afeto etc.), é não deixar que seus pés apontem às imagens do Buda. É por isso que você perceberá que os tailandeses estarão sempre ajoelhados, de forma os seu pés apontem na direção oposta à imagem homenageada.

Wat Phra Singh, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

Wat Phra Singh, Chiang Mai. Foto: Manuela Corral.

 

Saia do templo, atravesse a rua e caminhe pela Ratchadamnoen (liga o Wat Phra Singh ao Portão Tha Phae). Se for um domingo, melhor ainda. É nesse dia que é montado ali um animado mercado de rua, com artesanato de toda a região, comidinhas típicas, entre outros, à moda das antigas caravanas chineses.

Wat Phan Tao

Wat Phan Tao, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

Wat Phan Tao, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

 

Aproveite o passeio, com paradas nos lugares que achar mais interessantes. Quando chegar na Rua Prapokkloa vire à direita. Alguns passos a seguir, à direita também, está o WAT PHAN TAO, um pequeno templo feito inteiramente em madeira. Admire a sua fachada e o seu interior, lindamente adornados, e, depois, siga no mesmo sentido mais alguns metros.

Wat Chedi Luang

Wat Chedi Luang, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

Wat Chedi Luang, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

 

A próxima parada na trilha dos templos é o WAT CHEDI LUANG, construído há mais de 600 anos. No seu prédio principal  está abrigada a imagem do Buda em pé chamada Phra Chao Attarot. Estivemos lá próximo ao ano novo chinês, também comemorado na Tailândia. Por isso, o templo estava enfeitado por fitas com os animais do horóscopo chinês. Funciona assim: você compra uma fita dessas, marca o animal que representa o seu signo, faz um pedido e pendura ela com a ajuda de uma vara.

Wat Chedi Luang, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

Wat Chedi Luang, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

 

Os demais santuários do lugar encontram-se dispostos ao redor da ruína do que foi a estrutura mais alta de Chiang Mai durante o Reino Lanna. A destruição do templo, segundo contam, se deu em parte por um potente terremoto, ocorrido no século XVI, e em parte pelo bombardeio de canhões durante a recaptura da cidade pelo reino Lanna, controlada pelos Birmaneses, em 1775.

Chiang Mai City Arts and Cultural Center

Em seguida, ao sair do templo, vire a esquerda e ande pela mesma rua (mas em sentido oposto). O seu destino é o Chiang Mai City Arts and Cultural Center. Lá o visitante pode aprender mais sobre a história da região, desde a pré-história à ascensão e declínio de Chiang Mai, enquanto capital do Reino Lanna.

Wat Chiang Man

Wat Chiang Man, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

Wat Chiang Man, Chiang Mai. Foto: Manuela Corral.

 

Finalize o tour pelo centro histórico da cidade conhecendo o Wat Chiang Man, ali pertinho. Este é o templo mais antigo da cidade (1306). Ele também abriga algumas importantes imagens budistas, inclusive o famoso Buda de cristal. O lugar serviu de residência para o próprio Phaya Mangrai (fundador de Chiang Mai). Várias construções foram sendo adicionadas ao complexo, exibindo assim diferentes tipos de arquitetura do norte da Tailândia. O templo também expõe uma belíssima coleção de pinturas budistas que merece reverência.

Para o jantar, vá no David’s Kitchen. Com sua mistura de cozinha francesa com asiática, este restaurante é considerado pelo Travellers’ Choice do Tripadvisor como um dos 10 melhores do mundo.

 

2º dia – Um encontro com elefantes

Que a vida selvagem tem sofrido demais com o crescimento demográfico da humanidade, levando várias espécies de animais à extinção, infelizmente é uma realidade com a qual já estamos familiarizados. O elefante asiático, em especial, teve sua população diminuída pela metade nos último 60/75 anos. Isto levou a União Internacional para a Preservação da Natureza[1] a considerá-lo ameaçado de extinção.

Ele tem sido vítima da redução de seu habitat, com a expansão das áreas de monocultura (especialmente o cultivo de arroz) e o crescimento das cidades. Além de ser explorado pela indústria madeireira, que o utiliza como ferramenta para carregar pesadas toras, e torturado por caçadores, interessados principalmente no marfim de suas presas.

Na Tailândia, existem vários passeios voltados para turistas que oferecem algum tipo de interação com elefantes. Muitos deles, absurdamente, maltratam de alguma forma o animal, seja por meio de severos adestramentos ou os fazendo suportar pesadas cadeiras em seu dorso. Outros, no entanto, estão voltados ao resgate dessas criaturas de situações de perigo, dando-lhes alimento e abrigo. Por isso, tivemos muita preocupação ao escolher o passeio que viríamos a fazer.

Baan Chang Elephant

Das muitas opções que encontramos on-line, acabamos decidindo por conhecer o Baan Chang Elephant Park. Foi uma das melhores experiências que já tive em uma viagem.

Pela manhã

Baan Chang Elephant Park, Chiang Mai. Foto: Manuela Corral.

Baan Chang Elephant Park, Chiang Mai. Foto: Manuela Corral.

 

O dia começa com um deslocamento de van de mais ou menos uma hora ao parque. Na chegada, nos entregam um uniforme para vestirmos e há uma palestra sobre o trabalho realizado no parque e algumas instruções. Em seguida, vamos alimentar os elefantes com dezenas de pencas de bananas. A interação com esses enormes animais é sensacional! No início, o tamanho e o apetite dos elefantes impressiona e ficamos um pouco travados, mas logo pegamos a manha do negócio.

Passa voando o primeiro turno do dia e logo nos chamam para o almoço, que é até bem gostoso. Deitamos em uma rede para fazer a digestão e nos preparar para as atividades vespertinas.

Pela tarde

Baan Chang Elephant Park, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

Baan Chang Elephant Park, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

 

Devidamente abastecidos, os cuidadores do parque nos ensinaram a montar nos elefantes, utilizando apenas uma corda para nos equilibrar. Com não há sela no animal, não nos pareceu que os mesmos estavam sofrendo de qualquer maneira. Depois disso seguimos para um passeio bem legal por um bosque montados nos elefantes, por cerca de uma hora (com uma pausa no meio), que terminou em um pequeno açude onde se dá banho nos bichos.

Essas atividades da tarde, no entanto, não estão mais disponíveis. Isto porque, para evitar ao máximo qualquer estresse físico e psicológico aos elefantes, o Baan Chang achou melhor eliminá-las. Agora, os visitantes levam o elefante à pé ao mesmo açude, por um trajeto menor. É bem divertido ver esses bichos brincando no laguinho, jogando água para todos os lados com as suas trombas. Aqui confesso que preferi observar o movimento a uma certa distância, o que ainda foi bacana e deu para dar umas boas gargalhadas.

O lugar fornece ainda vestiários com chuveiros para tomarmos banho e vestirmos as nossas roupas limpas antes de retornarmos ao hotel.

 

3º dia – O Majestoso Doi Suthep

Wat Phra That Doi Suthep

Wat Phra That Doi Suthep, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

Wat Phra That Doi Suthep, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

 

Guardamos o templo mais bonito da região para o último dia deste itinerário. O mítico Wat Phra That Doi Suthep. Localizado no topo do monte Doi Suthep, o santuário pode ser facilmente visto da própria cidade e oferece belas vistas lá de cima. A sua construção se iniciou em 1383, quando um monge de Sukhothai instruiu ao rei Lanna Keu Naone que estabelecesse um templo no alto dessa montanha para abrigar uma relíquia sagrada. Sem saber o local exato para essa construção, as relíquias foram colocadas no lombo de um elefante branco, que vagou livremente pela floresta até sucumbir, “escolhendo” o lugar para o templo. No pátio externo do templo há uma estátua feita em homenagem a este elefante.

Wat Phra That Doi Suthep, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

Wat Phra That Doi Suthep, Chiang Mai. Foto: Manuela Corral.

 

A melhor forma de chegar no templo é de taxi, mas também se pode chegar por meio de um tram, alugando uma moto ou em um tour guiado. No retorno, pare para almoçar no Italics, localizado no hotel Akyra Manor.

Museu Nacional de Chiang Mai

Depois do almoço, passe algumas horas no Museu Nacional de Chiang Mai. O acervo abrange todo o norte da Tailândia, não somente a cidade de Chiang Mai. É o principal curador de artefatos Lanna, exibindo imagens de Buda em variados estilos, períodos e influências.

Wat Suan Dok

Wat Suan Dok, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

Wat Suan Dok, Chiang Mai. Foto: Manuela Corral.

 

Para finalizar a tarde, siga para o Wat Suan Dok, que fica aberto até as 17h. Conta a lenda, que a relíquia sagrada trazida pelo monge de Sukhothai milagrosamente se duplicou, ficando uma das duas neste templo, enquanto que a outra foi parar no Wat Suthep. O principal santuário do Wat Suan Dok marca o auge da influencia de Sukhothai na arquitetura de Chiang Mai. Várias cinzas de reis Lanna se encontram abrigadas em santuários deste templo.

Para o jantar, vá no Ploen Ruedee, um animado mercado noturno a céu aberto, com food trucks e barracas de comida regional e internacional e música ao vivo.

O que evitar

Quando estivemos lá fizemos um passeio à tríplice fronteira entre a Tailândia, o Laos e Myanmar que achei que não valeu tanto a pena.

No trajeto, paramos nas termas de Mae Khachan. Lá as pessoas mergulham seus pés nas águas quentes que correm por um pequeno riacho. Em seguida, fomos ao Wat Khun Rong. O templo todo Branco é obra (ainda em construção) de um artista plástico local. Depois disso, fizemos uma travessia de barco ao Laos, onde havia uma pequena feira de artesanato para os turistas comprarem souvenirs.

Wat Rong Khun, Chiang Mai. Foto: André Orengel.

Wat Rong Khun, Chiang Mai. Foto: Manuela Corral.

 

Já na volta, paramos na fronteira com Myanmar, para ver a pequena ponte, repleta de arame farpado, que liga os dois países. A última parada foi em uma aldeia onde moram algumas mulheres, supostamente, da etnia Kayan Lahwi, que alongam seus pescoços com anéis de bronze. Segundo o guia, elas, atualmente, vivem exclusivamente do turismo. Achei naquele momento um turismo por demais exploratório e me recusei a descer da van.

No geral, achei o passeio cheio de experiências maquiadas para turistas e, por isso, não curti muito.

 

Bangkok

Se você está pensando em visitar Chiang Mai na sua próxima viagem ao Sudeste Asiático, provavelmente passará também por Bangkok, a capital da Tailândia e campeã mundial do turismo. Se este for o caso, veja as nossas dicas sobre Bangkok aqui no Mochileza. Boa leitura e boa viagem!