A América do Sul é um continente ao mesmo tempo familiar e estranho para nós, brasileiros. Estamos no mesmo território, mas falamos um idioma diferente do espanhol predominante. Além disso, temos colonizações, origens e referências distintas de nossos vizinhos. Para completar, os principais destinos turísticos dos brasileiros em terras sul-americanas poucas vezes fogem de algumas capitais e uma ou outra estação de esqui.

O casal Arthur Chacon e Sophia Reis, de São Paulo, resolveu criar uma experiência pessoal para contrariar este estranho distanciamento. Eles decidiram pegar a estrada e viajar o continente inteiro num Land Rover. A expedição, que deve durar perto de um ano e meio, ganhou o nome de Caudalosa América. O casal tem compartilhado fotos e vídeos nas redes sociais, contando relatos inspiradores e apresentando lugares tão lindos quanto desconhecidos.

Foto: Sophia Reis

Arthur é historiador e faz pesquisas nas áreas de música e cultura popular brasileira. Sophia é jornalista, já trabalhou na TV Bandeirantes, na MTV e no canal por assinatura Multishow. Ela é filha do músico Nando Reis, ex-baixista dos Titãs e hoje em bem sucedida carreira solo.

A aventura dos dois com um financiamento coletivo na internet. Por meio de uma campanha de crowdfunding, Arthur e Sophia arrecadaram o dinheiro para transformar o Land Rover inteiro. Investiram na mecânica do carro para diminuir o risco de panes e fizeram várias adaptações funcionais. Um tanque de 40 litros para água abastece duas torneiras e um filtro. Uma bateria extra fornece energia para uma mini-geladeira e para tomadas que carregam celulares e computadores. Para completar, o casal equipou uma pequena cozinha com presentes de casamento.

“Além do conforto, isso gera economia. São raríssimas as vezes em que a gente compra água ou come em restaurante. Todos os serviços que uma casa oferece a gente conseguiu compactar dentro do nosso carro”, explica Arthur.

Foto: Arthur Chacon

Arthur e Sophia caíram na estrada de fato em fevereiro de 2016. Saíram de São Paulo rumo ao Rio Grande do Sul, por onde cruzaram a primeira fronteira. De lá, passaram pelo Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador e Colômbia. Um ano depois de iniciada a aventura, o casal já está de volta ao Brasil. Já passaram pelo Acre e por Rondônia e ainda devem andar um bocado pela região Norte.

A viagem tem um roteiro maleável. A princípio, ela deveria ter como destino final o Alasca. Mas, por conta dos altos custos, o casal decidiu ficar apenas do lado de cá do continente. “Era preciso atravessar com o carro da Colômbia para o Panamá e é uma das travessias mais caras do mundo. São cerca de 80km de distância e ia custar 1000 dólares. Então a gente desistiu. Não tinha como gastar essa grana. Achamos mais interessante investir numa continuação pela América do Sul”, conta Arthur.

O casal no bairro Candelaria, em Bogotá. Foto: Sophia Reis

A imersão no continente permitiu a eles desbravar facetas pouco conhecidas. A aventura passou por lugares turísticos (como Bogotá e Machu Picchu), mas também por vilarejos e pequenas cidades aparentemente sem apelo algum. “A gente não se orienta muito por guias de viagem. Nosso roteiro é baseado nos encontros que a viagem proporciona. O que faz a gente ficar no lugar é a experiência que a gente tem nele”, relembra Arthur. Assim, Arthur e Sophia conheceram festas religiosas, se hospedaram em escolas e até trabalharam numa agência de turismo para continuar bancando a viagem.

Um dos encontros mais marcantes aconteceu no Uruguai. O casal conheceu o ex-presidente e hoje senador uruguaio José Mujica. Pepe, como é conhecido, já era uma figura admirada pelos dois viajantes antes mesmo da expedição Caudalosa América começar. Mas ainda assim conseguiu surpreender aos dois. “Ele tem um conhecimento muito grande sobre a história sul-americana, além de uma visão muito integrada sobre tudo. Ele deu uma série de exemplos para dizer que a solução para o continente é a integração econômica, social, turística e isso passa pela educação. A luta dele hoje passa muito pela educação e isso nos chamou muito a atenção”, conta Arthur.

Após a entrevista com Pepe Mujica. Foto: Sophia Reis

Inclusive foi Pepe Mujica quem batizou a companheira de viagem do casal: uma gata que foi resgatada ainda no Sul do Brasil. “Nós tínhamos acabado de descobrir que era fêmea quando fomos entrevistá-lo e ela ainda não tinha nome. Pedimos a ele que desse o nome, ele olho nos olhos dela e falou: Catalina”, conta Arthur. Catalina segue como passageira VIP do Land Rover e estrela algumas fotos nas redes sociais do Caudalosa América.

Catalina, super bem instalada no Land Rover. Foto: Sophia Reis

 

E os lugares favoritos?

A cratera no vulcão Quilotoa, no Equador, virou um lago. Foto: Sophia Reis

Arthur e Sophia estiveram em alguns dos lugares mais bonitos do continente sul-americano. O deserto do Atacama, no Chile. A praia de Cabo Polonio, no Uruguai. As ruínas incas de Machu Picchu, no Peru. Mas as três paisagens mais marcantes para os aventureiros da Caudalosa América são outras.

Em primeiro lugar, o Vale Sagrado, no Peru. A região, que já foi habitada pelos incas, possui vários monumentos arqueológicos e povoados indígenas. “Ele tem uma fertilidade, uma riqueza de água, de plantação, de animais. Além disso, ele é um polo cultural muito forte com a tecelagem”, explica Arthur. O vale compreende diversas cidades às margens do rio Urubamba, ao norte de Cusco.

Vale Sagrado, no Peru. Foto: Sophia Reis

A segunda paisagem mais marcante citada pelo casal da Caudalosa América é o vulcão Chimborazo, no Equador. “Ele tem uma magnitude absurda. A gente deu muita sorte porque ele não estava encoberto por nuvens. A gente passou uma noite aos pés do Chimborazo, ele é de tirar o fôlego”, conta. O vulcão tem 6.268 metros de altitude e fica a cerca de 180 quilômetros ao sul da capital Quito.

Vulcão Chimborazo, no Equador. Foto: Sophia Reis

Completando o pódio, o Salar de Uyuni, na Bolívia. É a maior planície de sal do mundo, com mais de 10 mil quilômetros quadrados. Um lugar para contemplar a imensidão do continente e desejar conhecer cada cantinho dele.

Salar de Uyuni. Foto: Sophia Reis

 

E os perrengues?

Foto: Arthur Chacon

Uma viagem tão longa de carro não consegue escapar de imprevistos. Para Arthur e Sophia, o pior deles aconteceu na Ruta 40, uma famosa estrada argentina que percorre o país de norte a sul. O casal dirigia próximo ao Abra Del Acay, um ponto na província de Salta onde a rodovia atinge sua maior altitude: 4.895 metros acima do nível do mar. “Já era de noite, fazia muito frio, a gente estava congelando e o carro forçou muito”, relembra Arthur. O catalisador, que é uma peça que fica dentro do escapamento do veículo entupiu. O calor do motor e a pressão fizeram com que um pequeno incêndio ocorresse.

“A gente estava dirigindo à noite e, de repente, olhou para trás e viu um fogo saindo do carro”, conta Arthur, totalmente refeito do susto. A solução foi entrar em contato via Whatsapp com um mecânico amigo que virou o anjo do momento mais difícil da viagem. “Ele falou que era preciso soltar um parafuso. A gente soltou um errado primeiro, depois soltou o certo. Fomos até a cidade de Salta rodando sem poder passar de 40 km/h. E a cada meia hora, parávamos para ver se o carro não estava incendiando de novo”, relembra. “Mas de momentos como este você sai mega fortalecido. De perrengue em perrengue, você toma confiança para seguir viagem”, completa.

 

E os próximos passos?

Cruzando a fronteira da Bolívia com o Acre. Foto: Sophia Reis

De volta ao Brasil, a Caudalosa América pretende manter o espírito da viagem. Conhecer tradições e cenas urbanas, história e pautas incandescentes, personagens e circuitos alternativos. A Região Norte, por onde esse retorno começou, tem proporcionado vivências surpreendentes aos dois. O casal chegou ao Norte pelo Acre e, enquanto deu a entrevista para o Mochileza, estava prestes a embarcar numa balsa para sair de Rondônia rumo ao Amazonas.

“A Região Norte era um lugar que a gente pesquisou pouco e não tinha muita expectativa. Rio Branco surpreendeu muito a gente pela organização e pela relação muito próxima com a própria cultura. Porto Velho, onde a gente está agora, não só nos surpreendeu como nos absorveu por uma semana. Primeiro pela hospitalidade das pessoas. Também chamou a atenção também a juventude empenhada em gerar um impacto cultural e político muito interessante”, conta Arthur.

Depois do Amazonas, o casal da Caudalosa América pretende rumar para o Pará (onde pretendem passar o carnaval) e seguir por Maranhão, Piauí, Ceará, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. A aventura deve terminar em junho de 2017, com um projeto que ainda está amadurecendo.

“A gente quer coletar todos os registros. Entrevistas, vídeos, textos, coisas postadas na internet e fotos. A ideia é elaborar um livro. A gente ainda não sabe o formato que ele vai ter. Mas certamente a gente vai transmitir de forma muito passional toda a nossa aventura chamada Caudalosa América”, adianta Arthur.

Quer conhecer mais o Caudalosa América? Eles vão passar pela sua região? Quer dar alguma dica bacana para o Arthur e para a Sophia? O site deles é http://www.caudalosaamerica.com/ (onde estão todos os links para redes sociais) e o e-mail é [email protected]