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Categoria: Islândia

Islândia: dicas para planejar a sua viagem ao país do fogo e do gelo

Durante grande parte da minha vida, a Islândia estava presente em alguns fragmentos do imaginário. É a terra da cultuada cantora Björk e de outros artistas musicais “tipo exportação” como…

Durante grande parte da minha vida, a Islândia estava presente em alguns fragmentos do imaginário. É a terra da cultuada cantora Björk e de outros artistas musicais “tipo exportação” como Sigur Rós e Of Monsters And Men. O cinema islandês também ficou famoso recentemente com o sensacional “Ovelha Negra”. Filme que, inclusive, me ensinou que na Islândia a população de ovelhas é maior que a de seres humanos.

Mas ultimamente a Islândia entrou com os dois pés na minha lista de desejos de viagens. É uma ilha que fica a mil quilômetros da Europa continental e, pelo menos geograficamente, não tem nada a ver com seus parceiros europeus. Tão isolada quanto pouco povoada, a Islândia é conhecida como “país do fogo e do gelo” por conta de seus vulcões e geleiras. Além disso, foi privilegiada pela natureza com suas cachoeiras e paisagens de cair o queixo.

Ainda não fui à Islândia, mas ainda bem que tenho amigos que foram. Um deles é o Maurício Penedo, jornalista pernambucano que já foi meu colega de trabalho. Em outubro de 2017, ele e a também jornalista Lorena Aquino (que tem um Instagram de viagem chamado Criando Asas) passaram quase duas semanas por lá. E, como diz aquela nova gíria das redes sociais, cada foto que eles publicaram era um tiro.

Convidei o Maurício para escrever um relato desta viagem à Islândia antes mesmo de ele embarcar. Que bom que ele aceitou! E tenho o maior prazer de apresentar este guest post. Espero que ele seja tão inspirador para você quanto foi para mim!

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Islândia - Monte Kirkjufell

Monte Kirkjufell. Foto: Maurício Penedo

A Islândia possui 103 mil quilômetros quadrados de extensão e uma população de aproximadamente 320 mil pessoas. Para se ter uma ideia do quanto isso é pouco, a área do país é pouco menor que a do estado do Amapá. E se fosse uma cidade brasileira, estaria no 79º lugar no ranking de número de habitantes, entre a catarinense Blumenau e a pernambucana Petrolina.

O país parece ter saído de um conto medieval. Fiordes, escarpas, temperaturas congelantes, neve, vulcões, chuva, sol, lagoas e cachoeiras. O local recebeu grande atenção recentemente por ter conseguido classificar-se para sua primeira Copa do Mundo, em 2018, na Rússia. Mas a Islândia não precisa disso. Após 11 dias e 2673 km percorridos de carro, circundando toda a Ilha, os islandeses mostraram que a verdadeira atenção que merecem deve recair justamente pelo fantástico local onde vivem.

Reykjavik – o ponto fora da curva

Foto: Maurício Penedo

Com aproximadamente 120 mil habitantes, Reykjavik, capital do país, aglutina quase 50% dos islandeses. Com todas as comodidades das grandes capitais europeias, a cidade investe pesado no turismo, consciente do exotismo que a Islândia exala para o resto do mundo. Diversas lojas divulgam que vendem produtos “originais islandeses”. É quase regra você ler “produzido na Islândia” na frente das várias lojas de souvenires existente no centro.  

A capital do país lembra um conto de fadas: casas pintadas em diversas cores – para contrastar com o branco dominante nos tempos de inverno – nenhum resquício de lixo nas ruas, e tudo funcionando perfeitamente. Na orla, a magnífica Harpa, casa de espetáculos musicais e conferências, comanda a paisagem. Sua construção objetivou refletir o meio ambiente circundante. O objetivo principal da Harpa era criar uma nova identidade para o porto e transformar a área em um espaço urbano atrativo para os cidadãos.

Ao mesmo tempo em que os diversos cafés, museus que contam a história do país e demais pontos turísticos remetem à grandes cidades do continente, Reykjavik vive com ares de cidade do interior. Afinal, é a capital europeia com menor número de habitantes, e localizada mais ao norte entre todas. Saindo de Reykjavik em um carro alugado numa das milhares locadoras situadas ao lado do aeroporto de Keflavik, a história é outra.

Leste, norte e oeste da Islândia – um outro país

A Islândia, fora do inverno, possui um tipo de turismo muito “faça você mesmo”. O carro alugado tinha internet WiFi, o que permitiu que fossem utilizados serviços de localização por GPS que foram nossos guias da viagem. O país possui uma grande rodovia, chamada N1, que circunda toda a extensão da ilha, quase sempre perto do mar. A estrada, em 90% do tempo, é boa. Mas, quanto mais você se afasta da capital, mais a Islândia mergulha em outro ritmo, com outras paisagens.

Golden Circle – Gulfoss, Geysir e Thingvellir

No sul do país, existe uma rota turística chamada Golden Circle, excursão mais famosa e mais procurada da Islândia. Um percurso de aproximadamente 300km feito em um dia, que cobre algumas das atrações mais interessantes do país: as cataratas de Gullfoss, o famoso gêiser Geysir e o Þingvellir National Park (Thingvellir).

Islândia Gulfoss

Cachoeira de Gulfoss. Foto: Maurício Penedo

Conhecida como “Golden Fall” ou Queda de Ouro, Gullfoss é a maior cachoeira da Europa, e sua imponência nos faz lembrar como somos pequenos nesse mundo. Assim como todos os pontos turísticos naturais, possui entrada gratuita. Há grandes estacionamentos que acomodam bem carros e ônibus de excursões.

Islândia Geysir

O Geysir em erupção. Foto: Maurício Penedo

A segunda atração do Golden Circle é o Geysir, nome da maior nascente eruptiva do país. Foi esse gêiser que deu o nome para todos os outros no mundo. Hoje em dia o Geysir está em repouso e raramente entra em erupção. A sorte é que ele tem um parente ativo, o Strokkur, menor, mas que lança jatos de água de 20 a 40 metros a cada 8 a 10 minutos, com temperaturas entre 80 e 100º C.

Islândia - Parque Thingllevir

Parque Thingllevir. Foto: Maurício Penedo

Por sua vez, o Thingvellir é famoso por ter sido o local onde foi fundado o primeiro parlamento da Islândia. A independência do país foi proclamada neste lugar em 17 de junho de 1944, e hoje o parque funciona como casa de verão do primeiro-ministro do país, além de ser proclamado como Patrimônio da Humanidade em 2004. A maioria das excursões retorna à capital no final do Golden Circle. Mas a Islândia tem muito mais a oferecer.

Cachoeiras – pérolas islandesas

Islândia - Seljalandsfoss

Cachoeira de Seljalandsfoss. Foto: Maurício Penedo

A Islândia não tem só Gullfoss. O país tem um sem número de cachoeiras dos mais variados tipos, tamanhos e visuais. Logo após o Golden Circle, você se depara com Seljalandsfoss, que possui um interior “oco”, onde os turistas podem circundar a queda d’água, claro, levando um banho; e Skógafoss, situada na antiga linha costeira da parte sul da ilha, com altura de 60m e uma largura de 25m. Belíssimas e imponentes.

Islândia - Dettifoss

Cachoeira de Dettifoss. Foto: Maurício Penedo

Dettifoss é uma cachoeira no Parque Nacional de Vatnajokull, no nordeste da Islândia, e tem a fama de ser a cachoeira mais poderosa na Europa. As quedas têm 100 metros de largura e 45 metros de altura. O problema é que nenhuma fotografia lhe faz justiça.

Subindo pela N1, temos Godafoss e Dynjandi. A primeira recebeu esse nome porque, no ano 1000, o parlamento da Islândia adotar o cristianismo. Um dos representantes do país passou pela catarata e atirou as estatuetas pagãs que tinha reverenciado até à sua recente conversão à nova religião cristã. Por isso, a queda de água recebeu o nome de Godafoss (Catarata dos Deuses).

Islândia - Bruarfoss

Bruarfoss. Foto: Maurício Penedo

Dynjandi, na verdade, é uma série de cachoeiras localizadas no Oeste. Foi o local mais difícil de chegar, com estradas de terra e desfiladeiros. Não importa o quanto você veja as cachoeiras do país. Sempre fica impressionado com a beleza singular de cada uma delas. Bruarfoss, ainda no sul, é um tesouro ainda escondido de muitos turistas. O difícil acesso reside na inexistência de rota turística para ela, como é comum da Islândia. Para chegar? Internet e perguntando aos moradores. Vale cada esforço. Como todas, aliás.

Gelo e vastidão – cadê todo mundo?

Islândia - Vik

Praia de areia negra em Vik. Foto: Maurício Penedo

O resto da Islândia é muito diferente de sua capital. É normal passar 2, 3, 4 horas no carro sem ver ninguém, nem nenhuma construção. A única presença de vida constante são as ovelhas e carneiros selvagens, que permeiam toda a ilha. O sentimento de pequenez se dá também nas cidades do interior. Cidades como Vik (que possui a famosa praia de areia negra, proveniente do basalto vulcânico), Egillstadir e Akureyri possuem possuem populações minúsculas para nossos padrões. Vik não chega a 500 pessoas. Egillstadir, beira os 3 mil. No norte, há uma cidade chamada Holmavik, incrustrada nos fiordes islandeses, que foi chamada por uma moradora de “fim do mundo”.

Islândia - Jökulsárlón

O lago glacial Jökulsárlón. Foto: Maurício Penedo

Além das ovelhas, o gelo é presente, mesmo no outono. Uma das grandes atrações do país reside no parque nacional Vatnajökull, uma gigantesca massa de gelo que cobre quase 10% do país. Ele é responsável por formar lagos e glaciares estupendos, como Fjallsárlón e, principalmente, Jökulsárlón: o maior lago glacial da Europa, onde foi filmado 007 – O Amanhã Nunca Morre. Imenso, ele vem derretendo ano após ano por conta do aquecimento global. Os icebergs se soltam do glaciar e vão, literalmente, para a praia e, depois, para o fundo do mar, promovendo uma imagem absurda a 50m de distância: a “Praia dos Diamantes”.

Aurora boreal – indescritível

Islândia - Aurora Boreal

O baile de cores da aurora boreal. Foto: Maurício Penedo

Diversas empresas de excursão realizam passeios com objetivo de presenciar a Aurora Boreal. A viagem leva aproximadamente três horas. Ela consiste no guia afirmando que, mesmo com todos os instrumentos tecnológicos, a aurora só aparece quando quer, e eles não têm efetivamente como saber. Após uma hora no meio do nada, na madrugada gélida islandesa, o bailar no céu começa. O guia, também fotógrafo, ensinou aos mais inexperientes as configurações certas para que cada câmera registrasse o momento. A melhor imagem, entretanto, fica na mente.

Dirigir na Islândia – prós e contras

Islândia - Rodovia N1

A famosa rodovia N1. Foto: Maurício Penedo

Se você quer, realmente, conhecer a Islândia, precisa alugar um carro. Contudo, algumas dicas são valiosas. Esqueça frentistas. Praticamente em todos os postos de gasolina, você abastece seu próprio carro. Para nós, é meio complicado se acostumar a usar a bomba de combustível e a pagar. No cartão de crédito, claro. Não há ninguém para receber seu dinheiro. Caso o montante que você escolheu para abastecer o carro não tenha sido utilizado totalmente, a empresa devolve o dinheiro estornado no cartão dias depois.

Na estrada, existe um mundo diferente saindo da N1. As estradas são ruins, de terra ou barro, e sempre sem acostamento. Por isso, é essencial a escolha de um carro com tração 4×4. Diversos pontos turísticos do país só são acessíveis através de estradas que passam por abismos e desfiladeiros sobre os fiordes. Por isso, dirigir na Islândia também traz momentos de muita tensão e máxima perícia sobre onde você está colocando o carro.

Mas, sem dúvida alguma, o pior inimigo é o vento. Por várias vezes, principalmente no oeste do país, o vento, literalmente, empurrou o carro para fora da estrada. Ao menos tentou. É preciso muita atenção, pois as rajadas vêm do nada, em sentidos diferentes, e o carro balança como se fosse de brinquedo. As locadoras recomendam aluguel de veículos baixos, mais presos ao chão. Dirigir na Islândia lhe permite dirigir em qualquer local do planeta que tenha estradas.

Fim da aventura

Islândia - Skógafoss

Cachoeira Skógafoss. Foto: Maurício Penedo

Após quase três mil quilômetros, a Islândia se mostra um país de absurdos contrastes. Um povo simpático, educado, e que parece feliz em receber turistas – e foram muitos ao longo de 11 dias. Quase nenhum local famoso estava vazio. A imagem de um país isolado do mundo, cada vez mais, cai por terra. O país de gelo e fogo, como se autoproclama, atrai cada vez mais pessoas. A sensação é a de que ainda havia muito mais para ser visto. Mas, após essa viagem de tantas descobertas, fica a certeza que a Islândia, que foi formada por erupções vulcânicas violentas, estará disponível para o planeta por muitos e muitos anos. Sorte a nossa.

1 comentário em Islândia: dicas para planejar a sua viagem ao país do fogo e do gelo

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