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Categoria: Cuba

Cuba: dicas e roteiro de três dias em Havana

Se você já ouviu a frase “vai para Cuba!” numa discussão sobre política, não a leve mais como um insulto. Melhor tomá-la como uma recomendação – e das boas. A…

Se você já ouviu a frase “vai para Cuba!” numa discussão sobre política, não a leve mais como um insulto. Melhor tomá-la como uma recomendação – e das boas. A ilha caribenha é uma das vedetes dos viajantes nos últimos anos. Em 2016, o país recebeu turistas como nunca: foram 4 milhões de visitantes, 13% a mais que no ano anterior. E o que mais há em Cuba é motivo para visitar o país: história, cultura, música e praias são só alguns deles.

Conhecer Cuba não precisa ser uma decisão ligada a uma orientação/opinião política. Mas, antes de decidir embarcar, é preciso estar ciente de alguns fatos:

1) apesar de crescente, a indústria do turismo (ainda) não é tão consolidada quanto em países historicamente mais visitados;

2) as consequências do isolamento político e econômico de Cuba estarão visíveis por toda parte. A versão turística do país não é a mesma que os nativos vivem;

3) Cuba é um país pobre, porém caro. Não pense nesta viagem como uma viagem para gastar pouco.

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Ruas de Habana Vieja. Foto: André Orengel

 

Essas são algumas reflexões que tirei dos relatos da viagem que o André Orengel, colaborador habitual do Mochileza, fez por lá. Ele e a esposa estiveram em Cuba em dezembro de 2016. Por aqui, ele deixa algumas dicas para planejar a viagem (visto, dinheiro, hospedagem, etc) e uma sugestão de roteiro de três dias pela capital Havana. Partiu Cuba?

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Plaza de la Revolución, em Havana. Foto: André Orengel

 

Cuba, muito mais do que os seus vizinhos caribenhos, tem uma presença marcante em nosso imaginário. Pode ser pela rivalidade esportiva com o Brasil, pela revolução comunista liderada por Fidel Castro e Che Guevara ou ainda pela influência cultural de seus ritmos e sabores. A verdade é que sempre tivemos uma curiosidade imensa de conhecer este país e seu povo. Assim, minha esposa e eu aproveitamos um recesso de final de ano para explorar um pedacinho dessa ilha. Passamos alguns dias em Havana e mais dois dias em Varadero. Conto aqui como foi que fiz essa viagem e sugiro um itinerário com base em nossas experiências:

Entrando em Cuba

Os brasileiros precisam de um Visto de Turista (tarjeta turística) para entrar em Cuba. Ele serve para uma única entrada e tem validade de 30 dias. Não deixe que isso lhe desmotive, pois é bem fácil de o conseguir.

No nosso caso, pegamos um voo da Copa Airlines, via Manaus, e no próprio check-in fizemos a tarjeta. É preciso pagar uma taxa de US$ 20 e apresentar passaporte com validade mínima de seis meses. Quem viajar de Avianca ou Latam, pode solicitar o visto no portão de embarque do segundo voo, em Bogotá ou Lima.

A tarjeta turística também pode ser emitida pela Embaixada em Brasília e nos consulados de São Paulo, Salvador e Manaus. O site da Embaixada explica como se pode solicitar o visto pelos correios, mas esta me parece a menos prática das opções disponíveis.

Além da tarjeta, é obrigatório que você leve um seguro-viagem e tenha se vacinado contra febre amarela com até 10 dias antes da viagem.

Dinheiro

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Cédulas de CUCs, os pesos convertíveis. Foto: Pixabay

 

A viagem para Cuba saiu mais cara do que inicialmente imaginávamos, então sugiro que viaje com uma folguinha. A moeda utilizada pelos turistas é o CUC (Peso Conversível Cubano), diferente da moeda utilizada pelos cubanos, que é o CUP (Peso Cubano). Não leve dólares e nem conte com o seu cartão de crédito. Isso porque há uma “taxa” (multa) de 10% que você tem que pagar sempre que trocar dólares por CUC. Essa cobrança também é feita no uso do cartão de crédito, além dos 6,38% de IOF. Por isso, leve preferencialmente euros.

Ao sair do aeroporto de Havana você provavelmente verá uma enorme fila na frente da casa de câmbio. Respire fundo e a encare, pois na cidade a cotação e fila não serão muito diferentes.

Hospedagem

Pelo que pudemos apurar, existem, basicamente, duas opções de hospedagem: hotel e casa de família. Na nossa estadia, ficamos em três hotéis. Em Havana: NH Capri La Habana e Meliá Habana. Em Varadero: Meliá Las Américas. Todos  tinham dois pontos em comum: um bom e outro ruim. Pelo lado positivo, os buffets de café da manhã eram imensos, os mais variados que já vi. Pelo lado negativo, o fedor de mofo era insuportável. Os que sofrem com alergia devem reforçar o estoque de remédios para a viagem.

Em Havana, o Capri fica mais próximo do centro histórico, em uma região onde também estão localizados outros hotéis históricos, como o Tryp Habana Libre e o Hotel Nacional. Para ir ao centro histórico, usávamos os táxis que ficavam na porta do hotel e negociávamos o preço antes de entrar no carro. A corrida custava algo em torno de 8 CUCs.

Já o Meliá Habana fica um pouco mais afastado, próximo à praia e em uma área arborizada onde estão localizadas as embaixadas de vários países. É um ótimo lugar para uma corridinha matinal. O hotel disponibiliza transporte gratuito em horários pré-fixados para o centro da cidade, o que representa uma ótima economia com deslocamento.

Por falar em transporte, você não precisa se preocupar com o traslado de Havana para Varadero e vice-versa se você ficar em hotel. O próprio concierge pode resolver isso com uns dias de antecedência.

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Clima

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Ruas de Havana. Foto: André Orengel

 

Logo no táxi do aeroporto ao hotel, fomos surpreendidos por um outdoor que dizia: “Embargo: o maior genocídio da história”. Ao longo da viagem, encontramos diversas outras propagandas antiamericanas e que enalteciam a revolução comunista. Apesar disso, o clima da cidade estava muito longe de ser tenebroso. Pelo contrário, nos deparamos com um lugar festivo, fotogênico, cheio de música, com ótimas opções para comer, beber e se divertir. Para completar, o povo é alegre e muito receptivo, e vê no turismo um dos principais mecanismos para a superação das dificuldades impostas pela falência do bloco soviético.

Por falar em embargo, ele impôs uma situação bem peculiar e marcante à cidade, dando-nos a impressão que a mesma parou no tempo em algum lugar na década de 60. Muitos dos veículos que trafegam pelas ruas parecem ser dessa época e boa parte dos prédios se encontra em completa ruína. Salvam-se os hotéis, museus, edifícios públicos e uma zona da Cidade Velha reformada. Esta que, por sinal, é considerada patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO por tão bem refletir o apogeu da colonização espanhola na ilha.

 

Primeiro dia em Havana

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Castillo de los Tres Reyes del Morro. Foto: André Orengel

Começamos a viagem visitando o Castillo de los Tres Reyes del Morro, uma bela fortificação espanhola que nos remonta ao período das grandes navegações e pirataria no mar do Caribe. Para incrementar as defesas deste que era um dos portos mais movimentados das Américas entre os séculos 16 e 18, os espanhóis construíram também a enorme Fortaleza San Carlos de la Cabaña. Andamos até lá após visitar o primeiro, para aprender ainda mais sobre a história militar da cidade. Vale muito a pena.

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Fortaleza de San Carlos de la Cabaña. Foto: André Orengel

La Bodeguita – Curtindo Cuba como Hemingway

Depois, fomos de taxi à Praça da Catedral. Como a hora do almoço se aproximava, comemos no concorrido La Bodeguita del Medio, ali próximo. O bar/restaurante tornou-se famoso por sua ilustre clientela, que inclui Salvador Allende, Pablo Neruda, Errol Flynn e Ernest Hemingway. As paredes são todas riscadas, e nós aproveitamos para deixar a nossa marca, como Hemingway, que escreveu: “My mojito in La Bodeguita, My daiquiri in El Floridita“. Com uma recomendação dessas, como não tomar um mojito?

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La Bodeguita del Medio, um dos bares favoritos de Hemingway em Havana. Foto: André Orengel

 

De estômago forrado, entramos na imponente Catedral de la Virgen María de la Concepción Inmaculada de la Habana, principal templo religioso da cidade. A praça a sua frente é rodeada por prédios interessantes, como: o Palacio de las Marquesas de Aguas Claras; a Casa Lombillo; o Palacio del Marques de Arcos; o Palacio de los Condes de Casa Bayona; e o Taller Experimental de Gráfica.

Museus e mais fortificações

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Plaza de Armas em Havana. Foto: André Orengel

 

Seguimos caminho pela rua San Ignacio, até chegarmos à movimentada rua Obispo, onde dobramos à esquerda e andamos até chegar à aprazível Plaza de Armas, que tem uma feirinha de antiguidades e vários artistas de rua. Dois museus se destacam nesta praça. O Castillo de la Real Fuerza, considerado a fortificação em pedras mais antiga das Américas, hoje é um museu marítimo, que exibe uma impressionante maquete do Santisima Trindad (a maior embarcação do século 18 e construído em Havana) e tem uma bela vista de seu terraço. O outro museu é o Palacio de los Capitanes Generales Casa de Gobierno, com um ótimo e extenso acervo sobre a história cubana e um lindo pátio interno.

Como as visitas a ambos os museus terminaram ao entardecer, aproveitamos para caminhar pela orla do Canal até o Castillo de San Salvador de la Punta, situado em um dos extremos do Malecón, de onde apreciamos o final da tarde e pegamos um taxi de volta ao hotel antes que ficasse completamente escuro.

Segundo dia em Havana

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O famoso Malecón, em Havana. Foto: André Orengel

 

Continuamos o passeio mais ou menos de onde paramos no dia anterior. Fomos de taxi à Plaza de Armas, de lá andamos até a rua Mercaderes e viramos à esquerda. Caminhamos por esta agradável via passando pela frente do Hotel Ambos Mundo, da Casa de la Obra Pía, de uma loja de perfumes chamada Habana 1791, da Plaza de Simon Bolivar, entre outros, até chegar na esquina da rua Amargura, onde, ironicamente, está localizado o Museo del Chocolate (mais lanchonete que museu). Quando vimos o tamanho da fila e sentimos o aroma no ar, sabíamos que tínhamos que entrar. E valeu a pena, pois tudo que nós comemos e bebemos nesse lugar estava delicioso, com destaque para a xícara de chocolate quente.

Plaza de San Francisco, em Havana. Foto: André Orengel

 

Após a parada, seguimos pela rua Amargura até a Plaza de San Francisco, em frente à homônima Basílica. A praça é bem movimentada e rodeada por edifícios muito bem restaurados. Procure e aprecie a Fonte com os Leões, entalhada por Giuseppe Gaggini em 1836, a escultura La Conversación, doada à Havana pela Embaixada Francesa no país e a estátua do Caballero de París, que retrata um famoso andarilho que vagava as ruas da cidade abordando as pessoas para falar sobre filosofia, religião, política entre outros assuntos polêmicos.

Um bom lugar para almoçar na região é o Cafe del Oriente, que fica bem na esquina das ruas Amargura e Ofícios.

Museu do Rum

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Foto: André Orengel

 

Depois de comer, continuamos pela rua Ofícios, passando ao lado da Basílica e por um intrigante vagão de trem mantido em excelentes condições, dobramos nesta ruela até chegar à uma ampla avenida, onde viramos à direita para chegar ao Museo del Ron – Havana Club. Compramos os ingressos no lugar e esperamos um pouco até a vez do nosso tour. O museu é ótimo e muito informativo, focado na história e o modo de preparação da bebida, com uma pequena degustação ao final. Não deixe de aproveitar a oportunidade para comprar algumas garrafas dos excelentes runs envelhecidos em barris de carvalho branco por 7 a 15 anos. Leve mais de uma garrafa para não se arrepender depois, como eu, ao saborear a última gota da que trouxe para casa.

Finalizada a visita, dobramos na rua Sol e depois à direita na Mercaderes, em direção à Plaza Vieja. Não ousamos andar pela Mercaderes no sentido oposto, pois nos pareceu sair do circuito turístico para uma zona empobrecida e, talvez, perigosa.

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Taberna de la Muralla. Foto: André Orengel

 

Demos então uma volta pela praça, que existe no local desde 1559, apreciando os seus prédios restaurados. Eu sinceramente torço para que quando você passeie por ela encontre o mesmo carrinho de sorvete de coco que eu vi lá. Em caso positivo, não deixe de provar. Fogem-me as palavras para descrever o quão bom ele é, principalmente no calor que estava fazendo. Terminado o tour pela praça, pare no Taberna de la Muralla para uma cerveja artesanal com alguns petiscos.

Música cubana

Depois de relaxar e apreciar o movimento tomando uma cervejinha, voltamos para o hotel para trocar de roupa e, pela noite, apreciar a música do Buena Vista Social Club. Compramos os ingressos com o concierge do hotel, sem a opção de alimentação, o que nos pareceu uma boa ideia, considerando que já havíamos comido no Taberna e que havíamos lido algumas críticas ruins sobre a comida do lugar.

Terceiro Dia em Havana

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Plaza de la Revolución, em Havana. Foto: André Orengel

 

Aproveitamos enquanto o sol ainda não estava torrando a pele e fomos à Plaza de la Revolución, onde fica o Memorial José Martí. Ele é composto, principalmente, por uma monumental escultura, um pequeno museu e uma torre com mais de 100 metros de altura, o ponto mais alto de Havana. Há um elevador e um mirante no topo, mas não chegamos a subir. Do lado oposto da praça, dois grandes murais chamam a atenção. Um com o rosto de Che Guevara (na fachada no Ministério do Interior) e outro com o de Camilo Cienfuegos (na fachada no Ministério da Informática e das Comunicações). É ainda nessa enorme praça que ocorrem os maiores eventos públicos da cidade, como a missa realizada pelo Papa  Francisco, em 2015, assistida por quase um milhão de pessoas.

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Hotel Tryp Habana Libre. Foto: André Orengel

 

Em seguida, fomos ao Hotel Tryp Habana Libre conhecer o seu saguão e um pouco de sua história, contada em várias placas espalhadas pelo lugar. Foi neste hotel que Fidel Castro e suas tropas se alojaram durante a Revolução Cubana, transformando-o em seu quartel general, e nele foi realizada a primeira coletiva de imprensa de Fidel.

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Hotel Nacional de Cuba. Foto: André Orengel

 

Depois caminhamos até o Hotel Nacional, chegando bem em cima da hora para o tour das 10 da manhã. O passeio guiado pelo hotel, que dura aproximadamente duas horas, é excelente. Uma das melhores histórias contadas é sobre a Conferência da Havana de 1946, quando Lucky Luciano, Meyer Lansky, Santo Trafficante, Jr., Frank Costello, entre outros dos mais notórios mafiosos americanos se reuniram para um histórico acerto de contas. A parte do tour que nos conduz por uma série de túneis e um bunker bem no jardim do hotel, construído durante a Crise dos Mísseis de Cuba de 1963, é outro ponto alto. Os restaurantes do hotel são boas opções para o almoço.

A memória da Revolução Cubana

Em seguida, pegamos um taxi até a Plaza 13 de Marzo. Atravessamos a praça e entramos no Museu da Revolução, que conta detalhes sobre a mesma, logicamente, do ponto de vista dos próprios revolucionários. Depois, seguimos no mesmo sentido e passamos pelo Memorial Granma (o barco utilizado por 82 revolucionários para ir do México à Cuba, dando início à revolução que derrubou o regime de Fulgencio Batista). A caminhada terminou no Museu Nacional de Belas Artes, que exibe um interessantíssimo acervo abrangendo obras da Baixa Idade Média ao século XX. O foco é, claro, na arte cubana.

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Vista do hotel Iberostar, em Havana. Foto: André Orengel

 

Ao sair do museu, caminhamos no sentido da rua Agramonte, ao encontro do Paseo del Prado, um agradável e bonito calçadão entre duas avenidas. Dobramos à esquerda no sentido do Centro, passando pela frente do Hotel Sevilla, do Hotel Inglaterra, do Gran Teatro de la Habana e do Capitólio. Viramos à direita ao final deste prédio para contorná-lo, porque, por trás dele, fica a Fábrica de Tabaco Partagás, onde entramos para comprar alguns souvenirs. Compras feitas, retornamos pelo outro lado do Capitólio para ir até o Iberostar Parque Central, onde degustamos uns daiquiris e aproveitamos a vista de seu terraço enquanto o sol se punha.

El Floridita – outro favorito de Hemingway

Para jantar, fomos no famoso El Floridita na avenida Bélgica, um dos favoritos de Hemingway. E aqui, para encerrar, constatei a superioridade do daquiri sobre o mojito. E você? O que prefere? O mojito do La Bodeguita del Medio ou o daiquiri do El Floridita? Vá a Havana, confira ambos in loco e conta pra gente aí nos comentários.

2 comentários em Cuba: dicas e roteiro de três dias em Havana

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