São grandes as chances de você ter ouvido falar de Bruges por dois motivos. Um deles é o filme “Na Mira do Chefe” (tradução dada no Brasil para “In Bruges”), com Colin Farrell e Brendan Gleeson, uma comédia de humor negro ambientada lá. O outro é que a cidade costuma estar na rota de viagens bate-volta a partir de Bruxelas ou de passeios de um dia para quem está se deslocando entre Paris e Amsterdam. A real é que Bruges oferece muito mais do que você imagina a partir dessas duas referências. E quanto mais tempo você dedicar a essa pérola medieval, mais rica será a sua viagem.

Bruges tem uma série de credenciais. É considerada Patrimônio Mundial pela Unesco. Além disso, ostenta desde 2002 o título de Capital Cultural da Europa. Há vários motivos para tanto reconhecimento. Entre eles, um centro histórico medieval preservado de forma única. Ou as obras de mestres das artes plásticas espalhadas pelos museus e igrejas. Ou ainda os canais que cortam a cidade e oferecem visuais românticos para onde quer que se olhe. E ainda há muitas outras razões para Bruges merecer esse status…

Foto: Toerisme Brugge – Jan D’Hondt

Para começo de conversa, é bom saber que a cidade tem duas grafias. Isso se deve ao fato de a Bélgica ser um país bilíngue. Brugge é a grafia em holandês, o idioma falado na região do Flandres (onde a cidade fica situada). Bruges é a versão em francês, a outra língua oficial da Bélgica. Como a maior parte dos outros idiomas adota a grafia francesa ao se referir à cidade, este post também vai segui-la.

Aliás, falando em línguas, é o holandês que você vai ler e ouvir mais facilmente em Bruges. Os moradores até que se comunicam em francês com os turistas. Mas se percebem que a pessoa está há bastante tempo na cidade, passam a implicar. Se você tiver dificuldade para aprender algumas frases básicas em holandês, é melhor se comunicar em inglês.

Bruges fica a 100 quilômetros de Bruxelas. Há viagens regulares de trem entre uma cidade e outra ao longo de todo o dia. Os trens saem a cada 15 minutos, em média, e o trajeto dura ao redor de uma hora. Por isso, muita gente trabalha na capital e mora em Bruges ou vice-versa. A cidade abriga 20 mil habitantes em seu centro histórico e outros 100 mil nos arredores da área medieval.

Foto: Leonardo Aquino

A avenida que fica logo em frente à estação de trem é a única via em que você verá carros andando em média ou alta velocidade por um bom tempo. Ao atravessá-la, você entra num portal rumo à Idade Média, com ruas estreitas de paralelepípedos, construções de quase 800 anos e algumas pequenas amostras do pensamento “old is cool”. É possível, por exemplo, passear de charrete pela cidade. Os cavalos são muito peludos e grandes perto dos que eu já havia visto em outros lugares. E estão por toda parte no centro histórico de Bruges. Olhe para os dois lados antes de atravessar a rua para não correr o risco de ser atropelado por um alazão.

Charrete no centro de Bruges. Foto: Toerisme Brugge – Jan D’Hondt

Mas é a pé que se entra profundamente na alma de Bruges. A cidade é uma daquelas que recompensam o viajante que se perde pelas suas ruas. É fácil se perder e ainda mais fácil se reencontrar em Bruges. E todo erro de caminho será recompensado por algum visual inesquecível. Se você não estiver fazendo um bate-volta nem viajando com horas contadas, faça longas caminhadas sem roteiro. Você não se arrependerá.

Outra forma de conhecer Bruges é nos passeios de barco pelos canais. A comparação com Veneza ou Amsterdam é inevitável, mas a cidade belga tem um charme especial pela sua longa e interessantíssima história. A Bootex é uma das empresas que fazem esses passeios (8 euros por pessoa). Confira no site: http://www.boottochten-brugge.be/en

Bruges e seus canais. Foto: Toerisme Brugge – Jan Darthet

Uma história de cristianismo e capitalismo

Bruges foi fundamental na época prévia às grandes navegações. No século 13, o porto da cidade foi um grande entreposto comercial. Muitos mercadores, armadores e agentes de câmbio circulavam por lá. Eles se reuniam para fazer transações financeiras num casarão no centro da cidade. O imóvel pertencia a uma família chamada Van Der Buerse. A grande movimentação de dinheiro criou a fama da “Bruges Burse”, ou seja, da “Bolsa de Bruges”. Foi uma das primeiras menções à expressão “bolsa de valores”. E assim, Bruges teve sua parte na invenção do capitalismo.

Além da história do comércio, Bruges também tem uma grande importância no catolicismo. A cidade recebeu uma relíquia sagrada: o Santo Sangue. Diz a lenda que uma gota do sangue de Jesus foi trazida da Terra Santa no século 12 e ficou abrigada em Bruges desde então. Hoje ela está num frasco de cristal dentro da Heilig-Bloedbasiliek (a Basílica do Santo Sangue) e de lá só sai na Procissão do Santo Sangue, no dia da Ascensão do Senhor. A festa é católica, mas é também um feriado celebrado à mesa, com muita comida e bebida.

Basílica do Santo Sangue. Foto: Toerisme Brugge – Jan D’Hondt

Gastronomia

Falou em comida e bebida? Bruges não vai te decepcionar neste sentido. A cidade está repleta de restaurantes que servem as especialidades belgas. A principal é o “moules frites”, um prato de mexilhões cozidos ao vinho, acompanhados de batatas fritas.

Foto: Leonardo Aquino

Já falamos do altíssimo nível das batatas fritas na Bélgica, né? Pois, além de tudo, Bruges tem um museu dedicado a elas, o Frietmuseum (conheça no site http://www.frietmuseum.be). Outra especialidade belga também tem um museu especial em Bruges: o chocolate é o astro do Choco Story (site – http://choco-story-brugge.be)

Em relação à bebida, os bares de Bruges estão muito bem servidos das deliciosas cervejas belgas. Um deles virou ponto turístico. O 2Be possui uma parede com mais de mil garrafas de cervejas locais. Quem aprecia a bebida, pode entrar e escolher entre 16 torneiras de chope e uma infindável variedade de rótulos engarrafados. Quem não curte, pode pelo menos tirar a foto no paredão. Confira outras informações no site – http://www.2-be.biz/en/2BeBar.php

Foto: Divulgação 2Be Bruges

Quando estivemos em Bruges, em fevereiro de 2017, tivemos o privilégio da ótima companhia de um baita guia local. O Edvan Coutinho é um jornalista com quem trabalhei em duas emissoras de TV em Belém. Ele mora em Bruges desde 2007 e, além de ser um dos caras mais cultos que conheço, está concluindo um curso de formação para guia oficial da cidade. Portanto, as dicas que ele nos passou não são quaisquer dicas.

Aí vão algumas sugestões para você montar o seu roteiro em Bruges, baseadas nas informações que o Edvan nos passou e também no que vimos pela cidade:

Beginjhof

No século 13, este convento abrigava mulheres emancipadas que, apesar de não serem freiras, dedicavam a vida à religião e eram celibatárias. Hoje, o local é a residência de freiras da Ordem de São Benedito. Os turistas podem percorrer o pátio e o jardim e entrar em uma das casas que é aberta para visitação. O ingresso para adultos custa 2 euros.

Begijnhof. Foto: Toerisme Brugge – Jan D’Hondt

Sint-Janshospital

No século 13, ele funcionava como hospital. Hoje é um dos principais museus da cidade. O destaque é o acervo de obras de Hans Memling, um dos grandes nomes da pintura na região de Flandres nos séculos 14 e 15. Os pintores dessa geração são chamados de flamengos primitivos, mas o termo causa polêmica. “Prefiro o termo ‘flamengo renascentista, pois o primitivo é pejorativo. Foi empregado pelos italianos que morriam de inveja dos mestres de Flandres”, explica Edvan Coutinho.

O museu funciona de terça a domingo, das 9h30 às 17h. Os ingressos para adultos custam 8 euros. Outras informações no site – www.museabrugge.be – ou na página do Facebook – https://www.facebook.com/MuseaBrugge

Interior do Sint-Janshospital. Foto: Toerisme Brugge – Jan D’Hondt

Onze-Lieve Vrouwekerk

É a Igreja de Nossa Senhora, que fica em frente ao Sint-Janhospital. Ela possui a maior torre de tijolos da Europa, com 115,5 metros. A famosa escultura Madonna de Bruges, de Michelangelo, está lá, assim como inúmeras pinturas e sepulcros do século 13. A entrada na igreja é grátis. A do museu custa 6 euros. De segunda a sábado, o horário de funcionamento é das 9h30 às 17h. Aos domingos, das 13h30 às 17h.

A torre da Onze-Lieve Vrouwekerk. Foto: Toerisme Brugge – Jan D’Hondt

Rozenhoedkaai

É o ponto de onde se tem uma das vistas mais bonitas da cidade. À beira de um canal, dá para ver a torre da Prefeitura e a Belfort (sobre a qual falaremos adiante). Sua foto perfeita de Bruges tem grandes chances de ser tirada aqui.

A vista do Rozenhoedkaai. Foto: Toerisme Brugge – Jan D’Hondt

Markt

É a praça principal de Bruges, rodeada por prédios de épocas diferentes, do século 13 ao 19. É o principal ponto de referência da cidade, onde estão também muitos bares e restaurantes.

Markt. Foto: Leonardo Aquino

Belfort

É a construção de maior destaque na região do Markt. Possui uma torre de 83 metros de altura cuja construção começou no século 13 e só terminou no século 15. O topo da torre está aberto à visitação. Mas esteja disposto: são 366 degraus para subir. Nada de elevador! Quem tiver pulmão para essa subida vai ser recompensado por uma linda vista panorâmica da cidade. A torre está aberta diariamente, das 9h30 às 18h. Os ingressos custam 10 euros.

A imponência da Belfort. Foto: Toerisme Brugge – Jan D’Hondt

Concertgebouw Brugge

É a principal sala de concertos da cidade. Foi inaugurada em 2002 e tem o projeto assinado por dois arquitetos belgas, Paul Robbrecht e Hilde Daem. Foi uma construção polêmica, já que uma parte dos moradores achava que o design do prédio destoava do padrão medieval da cidade. Apesar disso, o Concertgebouw se consolidou como uma das melhores salas de espetáculos da Europa, com uma acústica impecável e uma movimentada temporada de concertos. Para conferir a agenda e comprar ingressos, acesse o site: https://www.concertgebouw.be

Foto: Divulgação

 

Bar Des Amis

Ambiente despojado, atendentes descolados, cervejas locais, drinks clássicos e autorais. Não duvido ser o único lugar onde você pode tomar uma caipirinha em Bruges. É um ótimo local para um happy hour a qualquer momento do dia. Informações na página do Facebook – https://www.facebook.com/bardesamisbrugge/

Bar Des Amis. Foto: Leonardo Aquino

Café Vlissinghe

Você não encontrará nenhum lugar mais histórico para tomar uma cerveja. O Vlissinghe está orgulhosamente aberto desde 1515. Ou seja, é um bar mais antigo que muitas cidades brasileiras. Não se acanhe com a longa mesa no salão principal. Ela pode ser compartilhada por turmas diferentes. E experimente a cerveja da casa! O bar fecha às segundas e terças. De quarta a sábado, ele abre das 11h às 22h. Aos domingos, das 11 às 19h.

Café Vlissinghe. Foto: Leonardo Aquino

 

Por último, mas não menos importante…

P.S. 1: Caso você queira fazer um tour em português, o Edvan Coutinho é o único guia oficial brasileiro em Bruges. Para entrar em contato com ele, escreva para [email protected]

P.S. 2: Para outras dicas ainda mais “insider”, acesse a página de Bruges no sensacional guia Use It: http://www.bruges.use-it.travel/

P.S. 3: O filme “Na Mira do Chefe”, sobre o qual falamos no começo do post, está disponível no Netflix (ou pelo menos estava quando este artigo foi publicado). É a história de dois matadores de aluguel que receberam um “castigo” do principal contratante deles: passar duas semanas em Bruges enquanto esperam ordens. Raymond (Colin Farrell) detesta a cidade. Já Ken (Brendan Gleeson) se integra ao dia-a-dia e descobre aos poucos a beleza de Bruges.