Mais um texto convidado no Mochileza! O André Orengel, que já havia assinado o post sobre a road trip de Miami a New Orleans, está de volta por aqui. Ele e a esposa estiveram na Grécia em setembro de 2017 e me deixaram babando com as fotos. Não precisou nem pedir: o André já chegou com o artigo pronto! Um roteiro de três dias por Atenas, para ver o que há de mais importante na capital grega. Se liga nas dicas!

============

Para quem curte história e arte, a Grécia é o lugar a ser visitado. Não é à toa que o país é conhecido como o berço da civilização ocidental. Muito da nossa cultura, da nossa forma de pensar e da nossa organização enquanto sociedade teve origem na Grécia pré-histórica e antiga. Por isso, uma visita à capital Atenas revela muito do nosso próprio passado e da origem do que somos atualmente.

Os gregos mantêm com muito orgulho suas tradições, costumes e o idioma. Não deve ser trabalho fácil, afinal foram quase 2 mil anos de dominação estrangeira, seja ela romana, bizantina ou otomana. O mais fascinante é conferir como se reaproveitam espaços e construções que resistem por tantos séculos nessa cidade habitada continuamente por pelo menos 5 mil anos.

Foto: André Orengel

Estar em Atenas, para mim, foi respirar história o tempo todo. O aeroporto, por exemplo, tem um museu que expõe os achados arqueológicos do local, assim como as estações de metrô. Já a Acrópole, erguida 200 metros acima da cidade, é tão sedutora que a buscamos sempre que dobramos uma esquina para vê-la por outro ângulo.

André Orengel. Foto: Arquivo Pessoal

Por tudo isso e mais, Atenas oferece assunto para muitas viagens ou para um mês inteiro de exploração. Mas, sabe como é, o trabalhador assalariado só tem 30 dias de férias por ano. Assim, a gente acaba passando bem menos tempo que o desejado (e o necessário) para conhecer a fundo nossos destinos de viagem.

Para ajudar o viajante a incluir Atenas numa viagem por outros lugares, montei um roteiro hiperapertertado (o prefixo hiper, aliás, tem origem grega). A ideia é explorar a cidade em três dias inteiros, focando nos principais sítios arqueológicos e museus. Creio que ele pode servir de base para você planejar a sua própria viagem. Vamos ao passo-a-passo:

Chegando a Atenas

Você, como eu, provavelmente desembarcará no aeroporto Eleftherios Venizelos (ATH) pela área destinada às chegadas e partidas dos países da zona Schengen. Se este for o seu caso, sugiro que compre logo um SIM Card para o seu celular na Public Conect. Quando estive lá, paguei 18€ por 15Gb de internet e mais 200 minutos de ligação para telefones na União Europeia.

Para ir do aeroporto ao centro de Atenas, que fica a cerca de 20km, você pode pegar um táxi (38€, das 5h às 23h59, ou 54€, das 0h às 4h59).

Há ainda duas boas opções de transporte público:

– o ônibus (linha X-95), leva cerca de 80 minutos do aeroporto à praça Syntagma, no centro da cidade. Ele custa 6€, funciona 24 horas todos os dias. A frequência varia conforme a época do ano.

– o metrô, com o mesmo trajeto, demora cerca de 40 minutos. Ele funciona das 06h30 às 23h30 e sai de meia em meia hora.

Preferi o metrô e aproveitei para comprar o ticket de turista que inclui ida e volta para o aeroporto e mais três dias de transporte público em metrô e ônibus. O preço é 22€.

Primeiro Dia

Atenas - Acrópole

Detalhe da Acrópole de Atenas. Foto: André Orengel

Começamos o dia com o descontraído e informativo tour da Athens Free Tours. Ele começa às 10h, dura cerca de 2h30, tem opções em inglês e espanhol e é gratuito. Ao final é de bom grado deixar uma gorjeta. O percurso a pé passa pelos principais pontos turísticos e bairros da cidade com explicações gerais sobre eles, mas sem entrar nos sítios arqueológicos.

O passeio que fiz (acho que o trajeto varia de guia para guia) encerrou próximo à entrada da Ágora Antiga. Aproveitamos então para comprar nesta bilheteria o ticket combo, que, por 30€, inclui várias atrações da cidade.

Com o ticket em mãos, subimos a encosta norte em direção à Acrópole. Essa é a parte do trajeto que realmente testa a vontade do sujeito de estar ali, principalmente se o fizer ao meio-dia durante o verão. Vencida a subida e antes de adentrar no sítio arqueológico, escalamos a Colina de Areópago para uma vista panorâmica da cidade e da própria Acrópole.

Atenas - Acrópole

Vista da Acrópole a partir do Monte de Areópago. Foto: André Orengel

Trata-se de um enorme monólito de mármore onde, conta a lenda, Ares foi julgado e absolvido pelo conselho dos deuses pelo homicídio de Halirrothios, filho de Poseidon. Por isso (ou não), o lugar fora utilizado na Antiguidade como corte para o julgamento dos crimes de homicídio, corrupção e traição pelo Conselho de Areópago. Os cristãos se lembrarão deste nome porque, segundo a Bíblia (Atos dos Apóstolos 17.16-34), Paulo proferiu neste lugar o famoso discurso sobre o deus desconhecido.

A Acrópole

Os primeiros templos da Acrópole (acro = alto + polis = cidade) foram construídos na era Micênica, em reverência à deusa Atena. Eles foram completamente destruídos pelos persas na véspera da batalha de Salamina (480 A.C.). Com a vitória grega, o gestor Péricles deu início a um ambicioso programa de reconstrução da cidade que transformou a Acrópole em um fabuloso complexo de adoração, principalmente da deusa Atena, coroada pelo Parthenon, que marcou o apogeu das realizações da Grécia clássica. Em nossos tempos, a Acrópole se tornou um dos principais sítios arqueológicos da Antiguidade ocidental.

Atenas - Parthenon

O famoso Parthenon, na Acrópole de Atenas. Foto: André Orengel

De lá para cá, a Acrópole sofreu com desastres naturais, guerras e pilhagens. Assim, o que vemos atualmente são apenas ruínas que nos concedem uma vaga noção do que o lugar já foi um dia. O maior golpe ao local fora desferido em 1687 pelos Venezianos, durante um bombardeio contra os Otomanos. O principal prédio do complexo (utilizado à época como depósito de pólvora) foi explodido e causou grandes danos aos demais.

Ao passar pelas catracas, vire à direita para apreciar o Odeão de Herodes Áticos, construído em 161 d.C. pelo aristocrático romano que o nomeia. Completamente reconstruído entre 1950 e 1961, ele é utilizado durante os festivais teatrais de verão para encenações de tragédias e comédias clássicas.

Atenas - Odeão de Herodes Áticos

Odeão de Herodes Áticos. Foto: André Orengel

Do lado oposto ao tetro, acima das folhas das oliveiras que adornam o caminho, você terá uma boa visão do templo de Atena Nike. Sim, o nome é o mesmo da famosa marca de material esportivo. Nike é a deusa da vitória que coroou Atena após esta haver derrotado Poseidon na batalha pela adoração dos habitantes da cidade a partir de então chamada de Atenas.

Templo de Atena Nike. Foto: André Orengel

Siga o caminho indicado e suba até a Propylaia, a monumental entrada da Acrópole, construída por Mnésicles entre os anos de 437 e 432 a.C. Passeie pelo sitio arqueológico parando nas placas distribuídas à frente das principais ruínas para ler as explicações sobre a história do lugar e seus traços arquitetônicos mais marcantes.

Depois da visita à Acrópole

Após a exploração, que provavelmente durará em torno de duas horas, desça pela encosta sul do monte, passando pelo Teatro de Dionísio, o templo de Asclépio e a Stoa de Eumenes, e siga em direção à rua Makrigianni, para almoçar em um de seus restaurantes. Comemos no Arcádia (Makrigianni, 27) e adoramos a comida e o atendimento. Recarregadas as baterias, aproveite o restante da tarde para apreciar a excelente coleção de esculturas do Museu da Acrópole, localizado ali próximo.

Terminada a visita, aproveite o cair da noite para percorrer o bairro de Plaka, em direção à praça Monastiraki. O bairro, apesar de muito turístico, é uma das partes mais charmosas da cidade. Tem ruas estreitas, cantinhos, lojinhas, bares, restaurantes e a vista do Parthenon ao alto. Escolha um dos restaurantes da região para o jantar, que pode ser o excelente Lithos, na rua Aisopou, 17.

Segundo Dia

Atenas - Templo de Zeus

Templo de Zeus. Foto: André Orengel

Nosso primeiro destino no segundo dia de viagem foram as ruínas do templo do Zeus Olímpico. É o maior templo da Grécia e fica do “lado de fora” do arco de Adriano, que marcava a divisão entre a cidade antiga grega (de Teseu) e a nova cidade romana (de Adriano). Sua construção iniciou no século 6º a.C., na gestão de Peisistratos. A obra só foi concluída pelo imperador romano Adriano em 131 d. C. após várias interrupções.

Em seguida, atravesse os Jardins Nacionais e chegue à frente do Parlamento Grego. Sincronize seu tempo para chegar às 10h ou 11h, para ver a cerimônia da troca da guarda que protege a tumba do soldado desconhecido. Estivemos lá no domingo às 11h e assistimos a uma cerimônia mais pomposa (que ocorre semanalmente nesse horário), com direto à banda marcial e um pequeno desfile. Tinha uma multidão no local. Portanto, se a sua intenção é a testemunhar essa ritual estendido, chegue com ao menos 30 minutos de antecedência para conseguir um bom lugar.

Atenas - Parlamento

A cerimônia da troca da guarda em frente ao Parlamento. Foto: André Orengel

Museus de Atenas

Depois disso, abrigue-se do sol em dois dos melhores museus de Atenas, localizados ali pertinho na Avenida Leoforos Vasilissis Sofias. O Museu Benaki e o Museu de Arte Cristã e Bizantina. O primeiro exibe a coleção privada de Antonis Benakis, incluindo achados desde era Micênica até a atualidade. Já o segundo apresenta uma enorme coleção de arte cristã, desde a antiguidade até os dias atuais. Ela abrange imagens, pinturas, bíblias, entre outros. Aproveitamos para almoçar no restaurante situado no terraço do Museu Benaki, e assim otimizamos o nosso tempo.

Estádio Panatenaico

Ao terminar a visita ao Museu de Arte Cristã e Bizantina siga para o Estádio Panatenaico (fecha as 19h entre março e outubro, e às 17h entre novembro e fevereiro). No caminho, passe pela frente do Palácio Presidencial, que também conta com uma cerimônia de troca da guarda, menos concorrida que a do Parlamento.

Atenas - Estádio Panatenaico

Estádio Panatenaico. Foto: André Orengel

O Panatenaico é o único estádio do mundo construído completamente em mármore. Ele recebeu a abertura e o encerramento dos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna (1896) e também a chegada da maratona dos Jogos de 2004. Este estádio chegou a abrigar 80 mil espectadores em uma partida de final da Euroliga de Basquete entre o AEK Atenas e o Slavia Praga, em 1968. Não deixe de ouvir ao ótimo e bem completo audioguia em português, que narra esses e muitos outros fatos interessantes referentes ao estádio.

Se você ainda tiver fôlego, cronometre a visita para encerrar cerca de uma hora antes do pôr do sol. Assim, você pode assisti-lo do alto do Monte das Musas (também conhecido como Monte Philopappos), com uma ótima vista do mar Egeu, da Acrópole e da cidade. Demoramos em torno de 30 minutos para caminhar do estádio até o topo do morro, em uma subida que não exige muito do seu preparo físico.

Atenas - Monte das Musas

A Acrópole vista do Monte das Musas. Foto: André Orengel

Para encerrar o dia, jante no excelente Mani Mani (Falirou 10): comida refinada, deliciosa e com uma linda apresentação.

Terceiro Dia

Inicie o seu terceiro dia conhecendo a Ágora Antiga (grega). O coração da Atenas antiga era a Ágora. Nela, desenrolavam-se as principais atividades administrativas, comerciais, políticas e sociais. Hoje, grande parte do local está completamente em ruínas. É preciso ter muita imaginação para entender o que se passava em cada local marcado pelo mapa, mesmo lendo as placas informativas.

Atenas - Stoa de Átalos

Stoa de Átalos. Foto: André Orengel

Isto exceto pela Stoa de Átalos. Com dois pavimentos totalmente reconstruídos, ela nos transporta dois mil anos ao passado para termos um gostinho de como seria um shopping center da época. Este edifício também abriga o museu da Ágora, onde podemos ver uma maquete completa do sítio arqueológico e esculturas encontradas no local. Outra notável exceção é o Templo de Hefesto, considerado o templo grego mais bem preservado do mundo.

Atenas - Templo de Hefesto

Templo de Hefesto. Foto: André Orengel

Ágora Romana

Colada à Ágora Antiga (grega), encontra-se a chamada Ágora Romana. Lá você pode apreciar suas ruínas, notadamente a bem-preservada Torre dos Ventos. É um monumento octogonal, construído pelo astrônomo sírio Andronicus. Ele servia como relógio de água, compasso, biruta e relógio de sol. Ao entrar na Ágora, dedique um momento ao mapa que fica logo após ao pórtico de Athena Archegetis. É fundamental para entender as ruínas remanescentes.

Atenas - Ágora Romana

A Ágora Romana e a Torre dos Ventos. Foto: André Orengel

Também bem próximo daí, está localizada a Biblioteca de Adriano, a última das ruínas a ser visitada neste passeio. Datada do século 2º a. C., esta foi a maior das estrutura erguidas por Adriano na cidade.  Ela continha um pátio interno com uma piscina no centro e bordeado por 100 colunas. Assim como livros, o prédio abrigava instrumentos musicais, salas de estudo e auditórios.

Quando terminar estas visitas, almoce em um dos restaurantes da região para em seguida ir ao Museu Arqueológico Nacional. Para chegar lá, pegue o metrô na estação da praça Monastiraki, siga rumo a Kifissia e desça na estação Victória. Ande algumas quadras na direção sul e você encontrará um enorme prédio neoclássico ao final de uma pracinha gradeada.

Atenas - Museu Arqueológico Nacional

Museu Nacional Arqueológico de Atenas. Foto: André Orengel

Um “best of” do Museu Arqueológico Nacional

O Museu Arqueológico Nacional de Atenas possui a melhor coleção de arte grega pré-histórica e clássica do planeta. Dedique algumas horas para  apreciar as suas obras, sem deixar de ver os seus highlights:

– a Máscara Fúnebre de Agamemnon e as Taças Douradas de Vaphio, localizadas nas salas centrais do térreo. Estas salas são dedicadas, entre outros, às civilizações Micênicas e Cyclades;

– a estátua de bronze de Poseidon ou Zeus, encontrada no fundo do mar Egeu, na Galeria 15;

– a estátua de bronze de um cavalo montado por um jovem cavaleiro e a estátua em mármore de Afrodite, na Galeria 21;

– os afrescos de Akrotini das Crianças Lutando Boxe, da Primavera e dos Antílopes, no andar superior;

– e os seis vasos que eram presenteados aos vencedores dos jogos Panatenaicos repletos de azeite de oliva. Eles remontam à origem dos troféus, atualmente entregues aos ganhadores de competições esportivas, na Galeria 56.

Um pouco de teatro

Após a visita ao museu, voltamos ao Odeão de Herodes Áticos. Lá, vimos a apresentação da tragédia As Bacantes (The Bacchae) de Eurípedes. Ela integra o Festival de Verão de Teatro de Atenas e Epidauro. A peça é em grego, com legenda em inglês, e vale muito a pena. Se você não conseguir garantir seu ingresso, uma opção que não chegamos a conhecer é subir no monte Lykavittos de táxi ou funicular. No local, dá para apreciar a vista da cidade e do pôr do sol por uma outra perspectiva.

Para terminar o passeio por esta espetacular cidade, jante no Balcony Restaurant & Bar (Veikou, 1) e se despeça com ótima comida e uma bela vista da Acrópole iluminada.

Tem um dia a mais?

Bem, se tivéssemos mais um dia, o aproveitaríamos para conhecer os arredores da cidade. Especialmente a área do Cabo Sounion, a 70km ao sul de Atenas. Lá ficam o Templo de Poseidon e várias praias. Você pode ir para lá de ônibus, pela linha “Markopoulo, Lavrion e Sounion”, em um tour ou alugando um carro.